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Maria

FOTO ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

“A Igreja não pode ser um seminário teológico de elite. Entre um mundo caótico, confuso e impreciso com fenómenos impuros do ponto de vista bíblico (Fátima, Lourdes, Medugorje e Chartres) e um mundo arrumadinho e literal, prefiro o primeiro.” Ensaio de Henrique Raposo

Quando era gaiato ia a Fátima com a minha madrinha, Maria. Eram excursões organizadas pelas Viagens Coelho. O sr. Coelho aparecia no bairro com um autocarro com bancos de napa e tubos de escape checoslovacos, e lá íamos nós a caminho de Sesimbra, Foz do Arelho, Nazaré ou Fátima. No santuário lembro-me do cheiro familiar das velas. Nessa época era normal ficarmos sem luz; tínhamos sempre à mão velas e candeeiros de petróleo. Velas e petróleo ardendo devagar são ainda hoje dois cheiros que abrem autoestradas na minha memória, fazem parte da mobília afetiva dos anos 80. Ver pessoas de joelhos é que não fazia parte da mobília. Maria, a minha Maria, também se ajoelhava no santuário. Muitos anos mais tarde, quando comecei a tomar consciência das coisas, encontrei um enorme ponto de interrogação nesta memória: como é que Maria e outras alentejanas lá do bairro tinham tanta devoção por Nossa Senhora? Há um abismo entre a cultura alentejana popular e o cristianismo. Como qualquer família normal do Alentejo, a minha família não ia nem vai à missa, não lia nem lê a Bíblia; muitos tios e primos casaram-se na Igreja porque sim, porque ficava bem nas fotos; alguns (como eu) foram batizados de forma burocrática; era como ir ao registo civil ou à repartição de finanças. Maria não tinha e não tem o hábito de ir à missa, não conhecia e não conhece a Bíblia, praticava e pratica as benzeduras e superstições pagãs que vêm dos confins do tempo (o azeite na água para tirar o mau-olhado). No cemitério, porém, ela reza o Pai Nosso e a Ave Maria junto da campa dos meus avós. Como milhares de outras mulheres portugueses, sobretudo alentejanas, Maria é uma mistura entre a herança pagã e a herança cristã. É nesta fronteira híbrida que entra o culto por Nossa Senhora e por Fátima.

A caminhada

É por isto que há dias estava ansioso pelo meu retiro jesuítico que incluía uma caminhada até Fátima. Estava à espera que esta caminhada funcionasse como ponto de reencontro com o marianismo da minha madrinha. Sucede que a caminhada foi uma desilusão. Quando cheguei ao santuário, não senti aquele temor perante Deus, não senti o abraço do Senhor, como tantas vezes sucede numa missa normalíssima ali no Cupav, na Praça de Londres ou nos Olivais, em Coimbra. Não acreditava e continuo sem acreditar em Fátima. Aliás, senti-me e sinto-me um pouco protestante no meio do povo mariano que leva o culto de Nossa Senhora até ao nível da idolatria autónoma em relação ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Nos gestos, nos desabafos, nos sacrifícios, este marianismo é um culto que transforma Nossa Senhora numa deusa com uma autoridade semelhante ou mesmo superior a Cristo. Toda a gente conhece pessoas assim, pessoas que dizem “Nossa Senhora é que é”, pessoas que pedem aos padres em Fátima para que a missa seja curtinha, porque o importante é rezar o terço na capelinha. Se tivermos uma fé blindada pela Bíblia, é impossível não ficarmos incomodados com esta idolatria mariana que secundariza as Sagradas Escrituras e que transforma a Santíssima Trindade numa figurante. De resto, a Igreja tem alertado contra estes excessos que divinizam uma Nossa Senhora sem relação com a figura bíblica de Maria.

O marianismo hiperbólico e a Bíblia

Este marianismo hiperbólico não resiste a dois minutos de Bíblia. O Novo Testamento é claro na ideia de que apenas Jesus Cristo é mediador entre Deus e os homens (1 Tm 2, 5). A própria Maria é clara a esse respeito. Nas bodas de Canaã, ela diz “façam o que Ele vos disser” (Jo 2, 5); no célebre ‘Magnificat’, volta a ser inequívoca: “A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva” (Lc 1, 47-48). Maria nem é deusa nem intermediária da nossa relação com Deus, é apenas um ser humano especial, talvez o mais especial de todos, mas é só um ser humano. Maria é uma ponte para Jesus e Deus, é um meio, não um fim em si mesmo. Nós não nos salvamos através de Maria, salvamo-nos através de Cristo; devemos rezar com Maria, não devemos rezar para Maria. Uma sensibilidade mariana que não tenha isto em mente acaba por gerar uma fé desordenada ou uma mera superstição. Quantas das velas acesas no 13 de maio têm este rigor cristão em mente?

O meu desapego em relação a Fátima continuou na irritação perante o tal pagamento de promessas — um ritual que parte do pressuposto de que Maria mete cunhas na secretária de Deus ou que ela própria é esse Deus burocrático a quem se pode pedir uma cunha. Este pagamento de promessas revela na verdade uma fé à beira da transação comercial. O filho da senhora Joaquina cai no desemprego, a senhora Joaquina pede a Nossa Senhora um emprego novo para o filho, o filho consegue novo emprego graças aos esforço de um empreendedor, mas a senhora Joaquina faz caminhada até Fátima para pagar o alegado favor divino de Nossa Senhora. A filha da senhora Natércia cai na doença, a senhora Natércia pede a cura da filha a Nossa Senhora, os médicos salvam a filha mas Natércia faz a caminhada até Fátima para pagar a promessa a Nossa Senhora. Esta é uma visão material que transforma a transcendência num centro de emprego, num hospital, ou num multibanco com acesso à conta bancária do verdadeiro Dono Disto Tudo. É uma fé que não procura imitar Cristo no dia a dia, é uma fé que só se lembra de Santa Bárbara quando troveja; em consequência, cai na mera transação pagã: se Tu me deres isto, eu faço uma reza e uma caminhada por Ti. Como diz Thomas Halik, este tipo de crente é muito parecido com o ateu, porque exige uma prova material da existência de Deus: o favor depois das bolhas nos pés e do sangue nos joelhos.

Saí do santuário ensopado em suor e enleado numa absoluta separação em relação ao marianismo da minha Maria. Num ou noutro momento mais talibanístico, passou-me pela cabeça que se devia fechar o santuário, até porque não aceito a ideia que temos de “respeitar Fátima” só porque estas pessoas são “populares”, “pobres”, “incultas”, “analfabetas” e que, por isso, só compreendem esta fé popular e ainda paganizada. Este discurso está ensopada em paternalismo — é o ethos snobe em versão teológica. Toda a gente pode chegar à Bíblia. E o dever do clero e dos leigos mais ou menos instruídos é evangelizar, é seguir o exemplo de São Paulo, que até chegou a recomendar repreensões em caso de necessidade: “proclama a palavra, insiste em tempo propício e fora dele, convence, repreende” (2 Tm 4, 2). Em nome de Cristo e da Bíblia, é preciso repreender quem faz do marianismo um culto à parte. É preciso recordar com clareza o Concílio Vaticano II: “A Igreja não hesita em sublinhar o papel secundário de Maria, nenhum ser pode ser equiparável à Palavra Encarnada e Redentor”.

Igreja não é seminário teológico

A questão é que este instinto talibanístico e literal também não é caminho. É o caminho errado do fariseu, do inquisidor, da ditadura calvinista de Genebra. Se fechássemos tudo aquilo que não é bacteriologicamente puro, então também teríamos de fechar ou destruir a belíssima Catedral de Chartres (França), que foi construída para a glória de Maria, não de Jesus. Como escreveu Richard John Neuhaus, até o mais radical dos protestantes terá de reconhecer que seria uma barbárie destruir Chartres. Além disso, a Igreja não pode ser um seminário teológico de elite. Entre um mundo caótico, confuso e impreciso com fenómenos impuros do ponto de vista bíblico (Fátima, Lourdes, Medugorje e Chartres) e um mundo arrumadinho e literal, prefiro o primeiro. É que este caos popular revela vida e, acima de tudo, revela um desejo de Deus. Sim, um desejo de Deus à espera de verdadeira evangelização. A semente está lá. É uma centelha que não depende de leituras ou missas, está entranhada na nossa natureza. Mas não há ali em Fátima um resto ou rasto pagãos? Sem dúvida. Sucede que esse lastro histórico e pagão é quase impossível de apagar na totalidade, porque cada povo tem a sua história, o seu lastro relativo e por vezes relativista. A Igreja não deve censurar ou apagar esse lastro; deve, isso sim, filtrá-lo através do Evangelho. É preferível um santuário cheio de marianistas que não leem a Bíblia do que ter um santuário vazio, destruído ou inexistente. O segundo cenário é um poço cínico sem fundo. O primeiro cenário permite o desejo de João Paulo II: “evangelizar a fé popular”. E assim volto à minha Maria. O caldeirão religioso desta alentejana que me criou (o Pai Nosso misturado com a benzedura pagã) revela uma pessoa religiosa e à procura da transcendência. Como não teve educação religiosa, ela avançou sozinha e sem mediação. Sem clero e sobretudo sem Bíblia, avançou à procura da sua fé sem qualquer pretensão de autonomia. Ela queria apenas sobreviver enquanto ser moral. Maria não era nem é profundamente cristã, mas era e continua a ser profundamente religiosa. Portanto, não tenho o direito de lhe recusar o conforto criado por Fátima. O meu dever passa por filtrar essa pulsão popular, passa por lhe oferecer uma Bíblia, livro que nunca entrou em sua casa; passa por lhe explicar o ritual da missa, etc., etc. O meu dever passa ainda por compreender um ponto que muitas vezes é esquecido pela elite: quando se diz que estas pessoas são “humildes”, estamos mesmo a falar de humildade, aliás, estamos a falar de uma constante autodepreciação. Criticando o santuário e aquele povo, muitos perguntam “ah, mas porque é que estas pessoas não falam diretamente com Deus?”. A resposta é que Maria e as outras Marias que enchem o santuário são tão humildes que nem lhes passa pela cabeça que podem falar diretamente com Deus. Se as patroas das casas onde trabalham como criadas continuam a tratá-las como seres invisíveis, porque é que Deus haveria de falar com elas? Esta humildade é ainda visível na sua relação com a liturgia. Devido à minha pressão, Maria já vai à missa de vez em quando e até diz “que sente lá uma calma que não sente em mais lado nenhum”; no entanto, ainda não vai à igreja com regularidade porque tem vergonha, porque “não sabe dizer tudo”. Não ter humildade para compreender esta modéstia popular não revela apenas snobeira, revela sobretudo desprezo pelo primeiro ensinamento de Jesus: coloca-te nos pés do miserável.

Maria como o primeiro 
dos apóstolos

Deve ainda dizer-se que a devoção mariana nos recorda uma lição bíblica que foi esquecida pela alegada superioridade bíblica dos protestantes: Maria é uma figura central no Evangelho, tão ou mais importante do que os apóstolos; pode dizer-se que Maria foi o primeiro apóstolo. Convém, pois, perceber um ponto central nesta polémica mariana: se é verdade que existe um excesso mariano em diversos sectores católicos, também é verdade que existe um défice mariano no protestantismo; défice, esse, que empobrece o imaginário dos meus amigos protestantes.

Maria é talvez a grande porta de acesso bíblica à grandeza de Jesus. Para começar, ela é a ponte entre o Antigo e o Novo Testamento. Maria é anunciada em Génesis e sobretudo em Isaías: “Por isso, o Senhor por sua conta e risco vos dará um sinal. Olhai: a jovem está grávida e vai dar à luz um filho e há de pôr-lhe o nome de Emanuel” (Is 7,14). Neste sentido, Maria pode ser vista como a nova Arca da Aliança, uma arca encarnada até porque recebe não a palavra em pedra mas a Palavra Encarnada. Maria é o palco da derradeira e mais afinada revelação de Deus, é o ponto de contacto entre o tempo da eternidade e o nosso tempo histórico: em Maria, Deus deixa de ser uma ideia platónica e passa a ser uma realidade encarnada e histórica. Não se pense porém que Maria é um portal passivo da vontade de Deus (um erro dos protestantes). O livre arbítrio de Maria foi decisivo no advento do cristianismo; o seu “sim” a Gabriel até pode ser visto como o primeiro momento histórico do cristianismo. Quando é confrontada com a vontade de Deus, quando Gabriel lhe anuncia que ela é a escolhida por Deus para ser a mãe do profetizado Emanuel, há ali uns segundos de suspense. Sim, ela pode responder com um “não”. Mas, num momento decisivo de fé, ela aceita aquele novo “absurdo” abraâmico ou kierkegaardiano, ou seja, dá um passo de fé em liberdade e em consciência. “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc, 1, 38). Ela nunca é coagida por Deus ou Gabriel. Há até quem diga que a tradução devia ser “eu desejo que assim seja feito”, o que reforça a liberdade corajosa de Maria perante um desafio que só podia causar pavor. Gabriel, recorde-se, começa a conversa com “Maria, não temas”. Maria é assim um símbolo da fé tal como ela deve ser: um ato livre de qualquer coação ou predestinação; com a grandeza e a tragédia que isso implica, nós fomos criados por Deus para o livre arbítrio. Por outras palavras, o advento de Cristo começa num ato de liberdade de uma mulher. Numa época em que tanto se fala no papel das mulheres, isto não é um pormenor.

A coragem de Maria

A importância de Maria é reforçada pelo seu conhecimento bíblico. O Cântico de Maria (‘Magnificat’), por exemplo, é inspirado no Cântico de Ana do Primeiro Livro de Samuel. A par do conhecimento bíblico, devemos destacar a coragem de Maria. É ela que está junto de Jesus no momento da sua morte; antes de morrer, Jesus diz para João: “Eis a tua mãe” (Jo 19, 27). É Jesus que diz ao discípulo que Maria é a casa de Deus na terra. A coragem mariana volta a ser evidente quando se percebe que é ela que reúne os amedrontados apóstolos no Pentecostes. Maria é a mãe da evangelização.

E a palavra certa é mesmo coragem, até porque esta coragem mariana é o que melhor define a minha Maria e as milhares de outras Marias que enchem as nossas estradas e o santuário de Fátima durante o ano inteiro. Elas têm a coragem necessária para ter esperança, que, como dizia Péguy, é a mais difícil das virtudes cristãs. A caridade e a fé podem ser postiças, a esperança não, a esperança é sempre uma ação concreta. Estas Marias cuidam dos filhos, tratam de irmãos bêbados que odeiam, cuidam dos netos no desemprego dos filhos, cuidam dos maridos, muitos com Parkinson e Alzheimer, ainda trabalham como criadas, comem o pão que o Diabo amassou, são o carro vassoura da sociedade inteira, mas continuam a ter esperança, continuam a fazer as suas caminhadas até Nossa Senhora, não desistem da ideia de que existe “qualquer coisa lá em cima”. Foi isto, aliás, que Maria sempre me ensinou: “Ó filho, tem de haver qualquer coisa lá em cima”. É verdade, há qualquer coisa.

Agora a bola está no meu campo, agora só tenho de levá-la ao sítio certo, só tenho de conduzi-la ao local com a melhor vista sobre “aquela coisa lá em cima”.