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Andaram 250 quilómetros para aqui chegar. “Se o Papa não viesse, eu vinha na mesma”

Luis Barra

Nem toda a gente veio a Fátima ver o Papa - para quem vem de tão longe como Cascais, Vilar Formoso ou Guimarães a pé, a devoção a Nossa Senhora de Fátima é a grande motivação.“Quando chegámos à rotunda, a emoção apoderou-se de mim e a dor passou-me”

“Somos pobres peregrinos, de longe viemos a pé, a dar graças a Maria, com amor e muita fé”. A oração é proferida em conjunto pelo grupo que ocupa boa parte da área em frente da Capelinha das Aparições, minutos depois da chegada triunfal. Muitos grupos de peregrinos vão entrando nesta altura no Santuário, mas poucos causam a impressão provocada pela chegada destas trinta pessoas.

Momentos antes, percorrendo o caminho que leva até à Capelinha, os comentários que se ouvem são de comoção. “Já está a chegar, coitadinho. Que sacrifício”, comentam duas idosas de lágrimas nos olhos. Por entre a multidão, o motivo de curiosidade e consternação: à frente do grupo um homem arrasta-se em esforço, as calças a prender no chão, os pés descalços. Ao lado, dois homens ajoelhados tentam ajudá-lo: ajustam-lhe as calças, oferecem água.

Não seguem sozinhos: o grupo todo vestido de azul turquesa e punhos erguidos a segurar botões de rosa segue concentrado caminho fora, por entre canções e orações. “A treze de maio” é das preferidas, e as pessoas que já formam um corredor para assistirem à passagem do grupo juntam-se ao coro, olhando curiosas para o homem que se arrasta.

Este homem é Hélder Guerra, de 39 anos, e faz parte do grupo que partiu de Figueira de Castelo Rodrigo, juntamente com peregrinos de Vilar Formoso, Souro Pires e Pinhel. Faz a peregrinação há doze anos seguidos, mas nem sempre se arrasta caminho fora – este ano tinha uma promessa por cumprir, por duas pessoas com problemas de saúde. Percebe que durante uns minutos tudo parou à sua volta para se solidarizar consigo: “Não posso dizer que não me apercebi…”.

O caminho no interior do Santuário foi este ano mais difícil: “Custou-me muito, talvez por as pedras serem novas, e o caminho tinha muita terra. Não conseguia mesmo andar, as calças não deslizavam”. Não há momento nenhum em que Hélder pense em desistir – e isto apesar de já ter partido há oito dias e ter percorrido 250 quilómetros.

Luis Barra

Ao longo desses longos quilómetros, o grupo vai-se abrigando como pode, entre juntas de freguesia ou bombeiros – é assim há 30 anos, quando os membros mais velhos começaram a fazer o caminho. Todos os dias se levantam pelas 3h30 da manhã, partindo às 4h para evitar horas de calor. Quando terminam cada etapa (de uns 40 quilómetros), normalmente ao início da tarde, é tempo de cuidar de quem precisa: “Tratamos das pessoas que precisam de cuidados nos pés. Vêm connosco duas enfermeiras e um fisioterapeuta”.

O círculo da gratidão

Depois de um momento de oração na Capelinha, o grupo reúne-se em jeito de ritual: formando um círculo, todos passam à frente dos companheiros, cumprimentando-se um a um. As lágrimas aparecem com os abraços mais apertados.

Por entre os últimos abraços e as selfies felizes de quem sente que a missão está cumprida, um sentimento é comum a quem chega a Fátima neste fim de semana depois de muitos quilómetros de estrada: “Se o Papa não viesse eu vinha na mesma”. E comentam-se semelhanças e diferenças: “Toda a gente gosta deste Papa! O Bento XVI não significou tanto na Igreja… Se calhar por ser alemão, este é latino… está a mexer muito com a Igreja, é mais aberto”.

Hélder Guerra concorda: faria o esforço que chamou as atenções de quem chegava ao Santuário com ou sem Papa Francisco, ainda que goste dele e considere que “inspira confiança”. “Calha coincidir com o Papa, ainda bem. Mas não tem um sabor especial”.

“Acabei de chegar! E nota-se…”

O cortejo de bonés azuis funciona como uma espécie de inauguração: a partir dali, são inúmeros os grupos que chegam ao Santuário depois de longas peregrinações a pé. Os limites entre grupos confundem-se, porque quase todos têm lágrimas a escorrer pelo rosto e gracejam: “Vamos a mais uma?”. Ali ao lado, Ana Maria, de 66 anos, não esconde a emoção. “Acabei de chegar! E nota-se…”.

Marcos Borga

Antes de chegar à Capelinha percorreu 180 quilómetros em seis dias, no caminho que liga Cascais a Fátima – passou por Mafra, Torres Vedras, Bombarral, Caldas da Rainha e Aljubarrota,de onde hoje o grupo de 22 pessoas partiu, às seis da manhã, como sempre. “Logo no primeiro dia ficámos todos encharcados dos pés à cabeça, mas secámos todos com a roupinha que Nossa Senhora nos deixou e seguimos viagem! Quando se conclui uma etapa já é uma felicidade, e uma ansiedade por fazer a seguinte”.

Depois de quase 40 anos a fazer o caminho a pé, Ana Maria serve agora de apoio ao grupo, “caminhando de outra maneira”. A organizadora, que desta vez não veio, soma 84 anos – vem de Cascais todos os anos, em maio e outubro, desde que tinha 12. É um esforço que “não tem explicação” – e que não faz por causa do Papa Francisco, assegura. “É aquilo que viu. São estas lágrimas que nos caem pela cara abaixo e que a gente não consegue controlar. Não há outra maneira de mostrar”. E remata, por entre gargalhadas: “Se fizesse falta, fazíamos agora outra!”.

“Quando chegámos à rotunda a dor passou-me”

Por entre os grupos que chegam ao final da tarde de quinta-feira há um que sobressai, tanto pelo tamanho como pelo choro emocionado de quase todos os elementos. Eva Gomes, de 60 anos, faz parte do grupo de 130 pessoas que partiu de Guimarães há seis dias para percorrer 250 quilómetros.

Mesmo tendo o caminho sido longo e marcado por momentos de particular emoção – a chegada à Capela de Nossa Senhora do Monte, onde os peregrinos fazem ofertas e têm uma “concentração” maior do que na confusão de Fátima, foi um dos que mais comoveram Eva – as dificuldades chegaram já no final. “Hoje foi o dia em que andámos menos, mas foi cansativo, andámos entre serras. O pior foi a chegar aqui, o grupo é muito grande e tivemos de atrasar o passo. Para quem já estava com bom ritmo, já foi doloroso, aqui nestes últimos quatro quilómetros”. O melhor remédio é mesmo a chegada: “Quando chegámos ali à rotunda, a emoção apoderou-se de mim e a dor no joelho passou-me”.

Eva ainda não é propriamente veterana nestas andanças – está este ano a fazer o caminho pela segunda vez, sentindo que leva duas companhias a seu lado: “A Nossa Senhora e a memória da minha mãe”. “Vim também por Nossa Senhora me ter deixado chegar a esta idade”, conta Eva, que “oito dias antes da peregrinação estava muito doente”. “Disse ao meu marido: ‘Eu vou, tu ficas. Se alguma coisa me acontecer, não tenhas pena de mim. Eu vou na maior felicidade’”.

Hoje, rodeada dos companheiros que se abraçam com emoção, sente que fez a escolha certa: “Se toda a gente deitasse os pés ao caminho não havia tanta guerra, não havia tanta maldade, não havia tanta inveja, nada dessas coisas”.

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