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O homem que tinha fé, que deixou de tê-la e que voltou a tê-la

Ilustração João Carlos Santos

Luís Miguel Cintra “Com o 25 de Abril, a entrada para a faculdade e a desilusão com a forma de a Igreja lidar comigo nas questões da confissão, desisti de ir à missa e passei a estar ocupado com outras coisas. Houve um período grande de silêncio. Depois aconteceu-me uma daquelas coisas que acontecem muito às pessoas que têm fé...”

Luís Miguel Cintra, encenador e ator

O depoimento do ator e encenador Luís Miguel Cintra sobre a sua relação com a religião é o terceiro artigo da série especial que estamos a publicar esta semana no quadro da visita do Papa Francisco

Os meus pais eram extremamente religiosos e eu tive uma educação cristã muito cheia. Eles queriam que fôssemos praticantes e deram-nos uma educação tão rigorosa que o meu pai (o professor e linguista Lindley Cintra) considerou que eu só podia fazer a profissão de fé quando soubesse exatamente se queria ser católico e cristão. Era uma decisão voluntária. O que aconteceu foi que fiz a primeira comunhão e depois, ao contrário dos outros meninos, que fazem logo a seguir a profissão de fé, com onze, doze anos, só a fiz com dezasseis. Fi-la com tanta consciência que até quis ser catequista, porque achava que na igreja que frequentava a catequese era muito mal ministrada.

A minha relação com o confessor era muito desagradável. Ele não compreendia a minha maneira de entender as questões relacionadas com a culpa e com o pecado. Ele desconfiava que eu estava a esconder pecados, eu dizia-lhe que não - e aquilo era uma conversa de surdos.

Mais tarde entendi-me muito melhor com alguns dos padres que foram meus professores de Religião e Moral no liceu, mas chegou uma altura em que comecei a não suportar a relação da confissão com a Igreja.

Vivi com a minha família, muito intensamente, todas as coisas do Concílio Vaticano II.Tinha muitas opiniões, muitas vezes até contrárias às do meu pai, que era a favor de todas as novidades. Por exemplo, ele achou muito bem a missa passar a ser em português, coisa que lamentei, porque tinha saudades de a missa ser em latim...

Uma coisa muito bonita que acontecia sempre na Sexta-feira Santa era a leitura da Paixão ser feita na Arrábida, com o meu pai a ler, enquanto íamos subindo até ao Convento dos Frades. Era um sítio de que ele gostava muito e sobre o qual tinha muitas recordações, por causa da sua amizade com o Sebastião da Gama. Para ele era uma espécie de lugar santo.

Com o 25 de Abril e a minha entrada para a faculdade - e, simultaneamente, esta desilusão, digamos, da forma de a Igreja lidar comigo nessas questões da confissão - desisti de ir à missa e passei a estar ocupado com outras coisas. Coisas que também tinham a ver com a preocupação com os outros, mas não num contexto religioso. Nessa altura, isto aconteceu com muita gente. A seguir ao 25 de Abril, muitos dos chamados católicos progressistas, de quem o meu pai estava perto e com quem partilhou tanta coisa, tiveram um percurso semelhante ao meu.

Depois houve um período grande de silêncio. Mas nesse silêncio nunca disse que não era cristão. Nunca diria: “Não acredito em Deus.” Mas não era uma coisa que eu vivesse no dia a dia. Nas minhas primeiras relações com o Manoel de Oliveira, essa questão pôs-se-me muito. Por exemplo, ele convidou-me para fazer o papel principal em “Benilde ou a Virgem-mãe”, do Régio, de quem ele era muito amigo. Esse filme é profundamente católico e ele convidou-me numa altura em que eu estava em pleno na Cornucópia e em que me meti em coisas revolucionárias. Achei que não tinha disponibilidade mental para me pôr a rever e a definir coisas sobre a minha fé cristã em contextos revolucionários. Disse-lhe que não podia fazer o filme e a questão ficou adiada.

Passaram-se uns anos. Depois aconteceu-me uma daquelas coisas que acontecem muito às pessoas que têm fé. Custa-me muito contar isto... ... Quando morreu o meu irmão Diniz, que tinha uma diferença de dois anos de mim, houve uma missa de corpo presente. Quando chegou o Pai Nosso, não fui capaz de não rezar. Estar ali reunido com o meu pai e a minha mãe, que entretanto se tinham separado, estar ali com toda a gente junto do cadáver do meu irmão, a rezar o Pai Nosso, teve um grande significado.

Estas são as coisas que não são urgentes. Não se passam de um dia para o outro. Não se mede o alcance que têm. Mas o assunto foi crescendo. Um dia o prior da Igreja de São Mamede, que muitas vezes jantava no mesmo sítio que eu, veio ter comigo e pediu-me para ler uns poemas do padre Tolentino numa celebração que ia haver na Basílica da Estrela.. Não conhecia o padre Tolentino, mas conhecia a poesia. Disse que sim. Quando cheguei à igreja estava o padre Tolentino à porta, à minha espera, dizendo que não não sabia o que ia acontecer e que não lhe tinham pedido licença para ler os poemas dele. Percebi que foi uma partida que certas pessoas que me queriam ver de volta à Igreja me pregaram.

A celebração tinha muita gente. Quando acabou a missa, o padre José Manuel veio de lá do fundo buscar-me para o altar-mor, ainda antes de a missa terminar, para ler os versos do Tolentino. Eu estava uma pilha de nervos, não esperava que fosse uma coisa com aquela pompa. Li o melhor que pude, enganei-me várias vezes e, depois da celebração, muita gente veio falar comigo, como se aquilo fosse uma situação de exceção, o que se tornou muito incómodo. Parecia que estavam a festejar o meu regresso à igreja, não era nada que eu tivesse decidido.

A partir daí comecei a conversar sobre estas coisas com o padre Tolentino - e com outras pessoas também - e, a pouco e pouco, comecei novamente a integrar-me. Mas com muitas barreiras e muitas interrogações, que expunha a mim mesmo e aos outros.

Depois encenei um espetáculo em que fiz de padre António Vieira. Adorava ler os Sermões do Vieira, e ler o “Sermão das Cinzas” tantas vezes também foi uma coisa importantíssima.
Por essa altura comecei a ir à missa no Lumiar, num convento que só tem quatro monjas dominicanas, umas senhoras muito inteligentes e que também já tinham tomado conta do meu pai, que teve um percurso parecidíssimo com este. A irmã Maria Domingos, que é a superiora daquele conjuntozinho, ajudava-o a ir para casa depois da missa, e no dia do funeral do meu pai ficou mais tempo no cemitério, de propósito para me dizer: “Se precisares de mim já sabes.”

Foi ela e o Fernando Belo, que tinha sido meu padre no liceu e depois deixou de o ser, que perceberam o que estava a passar-se de profundo comigo naqueles momentos.

Houve um conjunto de pequenas coisas que foram acontecendo. Numa altura em que já estava a voltar para a prática cristã, o padre Tolentino disse-me: “se quiseres ir amanhã, eu digo missa no convento do Lumiar, nas monjas dominicanas.” Fui. Quando chegou a altura do Evangelho, pediu-me para ser eu a ler. De acordo com a liturgia, das várias leituras da missa, a do Evangelho só pode ser feita pelo celebrante, não pode ser qualquer pessoa que faça parte da assembleia. Fiquei muito atrapalhado, mas fui. Desde então, sempre que vou à missa daquelas monjas, sou eu quem lê o Evangelho. Tenho um prazer enorme em fazê-lo e fico de boca aberta de cada vez que volto a ler aqueles episódios, que sei de cor desde que sou pequenino. A minha relação com a religião não é calma nem pacífica, mas por tudo isto percebo que, com a religião, tenho uma vida muito cheia.

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    Verdadeiramente, o que se está a perguntar é se o mundo precisa de um pai. Não há dúvidas que a figura do pai precisa de ser recuperada. A sua autoridade não tem de ser a da severidade e intransigência da lei, mas a do exemplo e da confiança. O pai não tem de ser a personagem punitiva que nos rege pela culpa, mas aquele que nos inspira pela sua coragem e misericórdia. O mundo pode amar o Papa Bergoglio por muitas razões, mas talvez a mais decisiva, a que mais nos comove e transforma, é sentirmos ao escutá-lo que estamos a escutar um pai. E infelizmente o mundo não tem tantos assim

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    “Entre o toque e o não toque, meus filhos, entre o ser e o não ser há um espaço imensuravelmente pequeno, mas cujo resultado é infinitamente grande. É aqui, nestes interstícios que fazem a fronteira entre o que existe e o que não existe, que os anjos trabalham, e é por isso que não são detetados, nem pelo olho mais perspicaz. O que fazemos ao orar, meus filhos, é empurrar um anjo contra a realidade. Neste caso, podemos empurrá-lo para que algo exista ou para que algo não exista, para a desgraça ou para o milagre.” Nesta semana que antecede a visita do Papa, iniciamos a publicação diária de conteúdos especiais. Começamos com um conto do escritor Afonso Cruz