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Amigas do Peito. Uma associação onde as mulheres com cancro se sentem “em casa”

Maria José, que recebeu o diagnóstico em 2010, e Isabel Duarte (à dtª), cujo cancro foi detetado em dezembro

Luis Barra

Criada em 2008, a associação Amigas do Peito apoia doentes com cancro da mama e os seus familiares. No próximo domingo, 14 de maio, promove uma gala solidária no Centro Olga Cadaval, em Sintra. O objetivo é angariar a verba necessária para adquirir um mamógrafo móvel, garantindo exames de rastreio a mais mulheres

Isabel Duarte tira a peruca. “Está calor”, diz com um sorriso, para depois explicar que só a tem usado para se proteger do frio, que agora está mais perto de desaparecer. “No verão, acho que a vou mesmo deixar de lado”, continua, enquanto se senta no gabinete da associação Amigas do Peito, para concluir: “É importante não esconder, para que as pessoas se habituem a olhar de forma mais natural para quem tem a doença. Este é um passo importante para a desmistificar”.

A doença é o cancro, claro, que à vida de Isabel chegou há menos de cinco meses. Um amargo e inesperado presente de aniversário, descoberto numa mamografia de rotina, feita um dia depois de completar 52 anos. “Fui ao hospital descontraída e bem diposta”, conta a gestora, “nem sequer tomei consciência do que estava a acontecer quando a médica me disse que era preciso fazer outro exame”.

Saiu, no entanto, com a noção da gravidade do diagnóstico. Sendo um de tumor invasivo, “daqueles que há dez anos equivalia a uma sentença de morte”, insiste ter sido “uma sorte” ser detetado numa altura em que existem novos tratamentos. Isabel está otimista e confiante: “É uma luta e só eu posso vencer”.

A doença fê-la chegar à associação Amigas do Peito, onde, de imediato se sentiu “em casa”. Tornou-se uma espécie de relações públicas da IPSS, entusiasmada com as suas iniciativas e o seu papel no apoio a mulheres com cancro da mama.

Por estes dias, Isabel e a médica Emília Vieira, presidente e cofundadora da associação, estão entusiasmadas com a realização da 2ª gala solidária Amigas do Peito, a celebrar no centro cultural Olga Cadaval, em Sintra, no próximo domingo, dia 14. O dinheiro a angariar já tem uma finalidade: a aquisição de um mamógrafo móvel, em viatura motorizada, forma de ir ao encontro de mais mulheres para garantir a realização dos exames de rastreio, fundamentais para a deteção precoce do cancro da mama – o melhor meio para se alcançar um final feliz.

“Estamos inseridos na zona de Lisboa e Vale do Tejo, onde existe a maior concentração populacional e, por isso, é uma área em que é difícil ter a adequada capacidade de resposta”, explica Emília Vieira. A ideia, logo que a unidade móvel esteja disponível, é começar por realizar os exames às mulheres inscritas nos 15 centros de saúde da área Lisboa Norte”.

São precisos mais de 200 mil euros. Mas a associação, como recorda a sua presidente, está habituada a ter de ser criativa e a aproveitar todas as formas de conseguir “amealhar”. Assim tem crescido desde 2008, quando nasceu, primeiro ocupando as salas que o hospital de Santa Maria, em Lisboa, ia conseguindo disponibilizar, até ter uma sede própria, que veio a ser instalada nos jardins do mesmo hospital.

“Foi inaugurada no ano passado”, o que trouxe óbvios benefícios para a capacidade de a Amigas do Peito criar mais espaços e mais serviços. Da missão inicial, focada sobretudo nas mulheres, a associação alargou o seu âmbito ao apoio aos familiares, contando atualmente com psicólogos e apostando em iniciativas várias, que passam pela organização de convívios – “tão importantes para as mulheres não se ‘esconderem’ e terem com quem partilhar o que vão vivendo” –, pelo acompanhamento nas diferentes fases da doença e pela realização de sessões informativas.

Qualquer das mulheres que circulam pela associação sabe da importância de se conseguir depressa o mamógrafo móvel. Fátima Neves, 48 anos, descobriu o cancro há cerca de um ano, também através da realização de uma mamografia, solicitada numa consulta de rotina. “A própria médica, na palpação, não notou nada”. Sem sintomas ou sinais de alarme, só o exame revelou um ‘carcinoma ductal in situ’, uma ‘boa’ notícia por significar que o tumor estava ainda “contido”, o que determinou não ser necessária a realização de quimioterapia ou radioterapia.

Por opção, Fátima fez uma dupla mastectomia, colocando uma prótese logo na cirurgia de remoção e cumpre agora a necessária vigilância. “Foi um choque, claro, mas o cancro já me tinha atingido com maior violência quando foi detetado numa irmã. Acabei por viver a doença com mais tranquilidade. É preciso reagir, reagimos não é?”

“O pior que pode acontecer é ter-se medo do diagnóstico”, e fugir-lhe. Maria José nunca fugiu. Enfermeira, vivia em alerta desde que a mãe sofreu da doença, e nunca falhou os exames de rotina. Em 2010 o cancro apareceu, tinha Maria José 60 anos, mas felizmente tudo correu bem. “Era muito pequeno”, recorda. Tal como recorda ter-se mantido sempre positiva. Já estava ligada à Amigas do Peito, conhecia muitas histórias. “Pensei: vou resolver isto”, e é essa determinação que tenta passar agora a todas as mulheres que procuram a associação.