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Como uma espécie de saco de plástico pode ser a nova esperança para bebés prematuros

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Para acabar com os perigos que correm os bebés extremamente prematuros, uma equipa de investigadores norte-americanos testou um sistema que recria o ambiente do útero materno e permite que os fetos continuem a desenvolver-se até estarem prontos para o mundo exterior. Testes em fetos humanos podem acontecer num prazo de três anos

A ideia pode parecer estranha, mas é produto de anos de estudo e pode ser uma esperança para a medicina moderna. Imagine o seguinte: os bebés prematuros passavam a ter uma forma de permanecer numa espécie de útero a imitar o das suas mães, de forma a poderem concluir o desenvolvimento normal do corpo e dos órgãos. Neste cenário, evitava-se parte das mortes e sequelas provocadas pela prematuridade – um fenómeno que continua a registar números altos em Portugal.

O cenário ainda não é realidade, mas é para isso que um grupo de investigadores do Children’s Hospital of Philadelphia está a trabalhar há três anos, e as conclusões animadoras foram publicadas na semana passada, na publicação científica “Nature Communications”. O investigador principal, que é cirurgião fetal e diretor do centro de pesquisa fetal do hospital, Alan Flake, está satisfeito com as possibilidades que o sistema inovador representa: “O nosso sistema poderia prevenir a grave mortalidade nos bebés extremamente prematuros, potencialmente oferecendo uma tecnologia médica que não existe.”

Quatro protótipos

Mas vamos por partes: o que a equipa norte-americana fez com este que já é o quarto protótipo desenvolvido – o primeiro era composto por um tanque de vidro que funcionava como uma incubadora – foi construir uma espécie de saco cheio de líquido amniótico produzido em laboratório, numa tentativa de recriar o útero materno com todas as condições para que os fetos possam concluir o período de gestação em condições seguras.

Neste momento, as conclusões referem-se a testes conduzidos em animais – mais especificamente num grupo de oito fetos de borrego, que durante quatro semanas foram colocados dentro do sistema batizado como ‘biobag’ e ali desenvolveram os seus órgãos (o desenvolvimento pré-natal dos pulmões destes fetos é semelhante ao dos pulmões de fetos humanos, explicam os autores do estudo). Os investigadores observaram que, dentro daquela espécie de saco, os cérebros e pulmões dos fetos cresceram, começou a crescer lã, os olhos abriram-se e os fetos aprenderam a engolir – e fora do sistema, com o exame detalhado aos órgãos destes borregos, concluiu-se que o estado destes era saudável.

Um ambiente seguro para o feto

A tentativa de recriação do útero materno faz-se nesta biobag, que tem a aparência de um saco de plástico com um fecho hermético, atravessado por tubos e ligado a máquinas com o objetivo de tornar o processo o mais parecido com uma gravidez normal possível. Ali, rodeado do fluido amniótico artificial, o feto cresce num ambiente estéril, imune a infeções e perigos semelhantes, com uma temperatura controlada e sem variações de pressão ou de luz. O coração bombeia o sangue através do cordão umbilical para uma máquina de troca de gás que se encontra fora do saco; monitores eletrónicos medem os sinais vitais, a circulação do sangue e outras funções vitais essenciais para assegurar que o crescimento do feto decorre com normalidade.

A ideia passa por apoiar o crescimento do feto entre as 23 e as 28 semanas de gestão, uma barreira em que passam a estar livres de alguns perigos – antes das 23 semanas os riscos desta operação seriam “inaceitavelmente altos”, esclarece o hospital, numa nota enviada ao Expresso (o desenvolvimento dos fetos de borrego em questão é fisiologicamente equivalente às 23 ou 24 semanas para fetos humanos). Tudo porque estes bebés, consideradas extremamente prematuras, “têm uma necessidade urgente de uma ponte entre o útero da mãe e o mundo exterior”, explica Alan Flake.

“Se conseguirmos desenvolver um sistema extra-uterino que apoie o crescimento e amadurecimento dos órgãos por apenas umas poucas semanas, podemos melhorar drasticamente os resultados para bebés extremamente prematuros”, prevê o investigador, que fala ao “The Verge” num prazo de três anos para que sejam realizados os primeiros testes com fetos humanos.

Esta não é a primeira vez que se tenta contornar o problema da prematuridade extrema, com sistemas prévios que investigaram versões de uma placenta artificial a serem citados pelos autores do estudo – no entanto, os sistemas que não bombeavam sangue só chegavam a apoiar o feto durante, no máximo, 60 horas, sem conseguir evitar os danos cerebrais aos fetos testados.

Neste novo sistema, que também não bombeia externamente o sangue porque “uma pressão artificial suave pode sobrecarregar fatalmente um coração subdesenvolvido”, o feto é apoiado durante um máximo de 670 horas ou 28 dias, conseguindo que nestes casos o feto se mantenha saudável, com uma respiração normal, a abrir os olhos, com um crescimento e amadurecimento dos órgãos expectável para aquele tempo de gestação.

“Sistema potencialmente muito superior ao que os hospitais podem fazer”

Com o sucesso da experiência em animais, o principal autor do estudo prevê que daqui a uma década os bebés extremamente prematuros corram menos riscos de saúde e até de vida, podendo continuar a desenvolver-se depois de nascer neste tipo de dispositivos, e não em incubadoras, ligados a ventiladores. “Este sistema é potencialmente muito superior ao que os hospitais podem neste momento fazer por um bebé de 23 semanas. Isto pode estabelecer um novo padrão de cuidados para este segmento de bebés extremamente prematuros”, assegura Flake, cuja equipa continuará a aperfeiçoar o sistema e a diminuir o tamanho do dispositivo – afinal, os fetos humanos têm cerca de um terço do tamanho dos fetos animais usados para estes testes.

Segundo detalha a XXS – Associação Portuguesa de Apoio ao Bebé Prematuro no seu site oficial, a duração normal de uma gravidez é de 37 a 42 semanas, pelo que os bebés que nascem antes deste período são considerados prematuros. O Serviço Nacional de Saúde explica que o bebé prematuro se caracteriza pela “imaturidade do seu organismo, tornando-o mais vulnerável a determinadas doenças e também mais sensível a determinados fatores externos, como a luz e o ruído. Os principais problemas médicos dos recém-nascidos prematuros estão relacionados com a sua imaturidade respiratória e metabólica. A pele também é mais fina do que a do recém-nascido de termo”.

É por isso, diz a XXS, que se torna necessário criar condições para que estes bebés possam “amadurecer biologicamente e sobreviver fora do ambiente protetor que é o útero da mãe”.

A mesma associação escreve que nem todos os casos são iguais no que toca à prematuridade: existe o pré-termo limiar, que nasce entre as 33 e as 36 semanas de idade gestacional e/ou tem um peso à nascença entre 1500 gramas e 2500 gramas; o prematuro moderado, que nasce entre as 28 e as 32 semanas de idade e tem um peso entre 1000 e 2500 gramas; e o prematuro extremo, que nasce antes de ter completado as 28 semanas e/ou pesa menos de 1000 gramas – o caso mais grave, e também aquele que o estudo liderado por Alan Flake visa resolver.

Se nos Estados Unidos um décimo dos bebés nasce de forma prematura e, destes, 37 mil nascem extremamente prematuros, em Portugal multiplicam-se as notícias que dão conta de que o país está entre os países com maior número de bebés prematuros. Os últimos dados do INE indicam que em 2014 nasciam 17 bebés prematuros por dia, o que representa 7,7% dos nascimentos, ainda assim um número mais baixo do que em 2009, quando a percentagem chegava aos 8,7%.

Quanto à potencial solução apresentada pelos autores do estudo norte-americano, Joana Saldanha, presidente da Sociedade Portuguesa de Neonatologia, aconselha calma na análise dos resultados da investigação de “muito difícil execução”. “Nas últimas décadas houve grandes avanços nomeadamente com a administração de corticoides à mãe para indução maturativa do feto, a administração de surfactante logo após o nascimento, técnicas de ventilação menos agressivas e melhoria da alimentação entérica e parentérica. No entanto, nada consegue ser tão fisiológico como permanecer no útero materno”.

“O que os autores deste artigo estão a tentar será criar um ambiente pós-natal que se aproxime o mais possível do ambiente intra-uterino o poderia fazer diminuir a mortalidade e evitar várias sequelas da prematuridade nomeadamente respiratórias, digestivas e do sistema nervoso central”, explica Joana Saldanha ao Expresso. “No entanto, e não querendo ser pessimista, não podemos esquecer que ainda muito se terá de evoluir, estudar e avaliar até se poderem aplicar estas técnicas a recém-nascidos humanos. Muito dificilmente será num curto espaço de tempo”.