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Neste Europeu não se joga à bola, canta-se

TATYANA ZENKOVICH/ EPA

Era espetáculo que movia multidões. Todos os anos, o ritual era quase sempre o mesmo: chegava à hora do Festival da Canção, os mais novos largavam as brincadeiras de rua e corriam para casa. Em frente ao televisor, miúdos e graúdos ouviam com atenção cada uma das músicas e, alguns, desafiavam o sono ao esperar pelos resultados das votações. Nos últimos anos, as audiências do certame caíram. Apesar disso, todos os anos Sérgio, Joana e Jessica não falham a emissão. Todos eles têm 20 e poucos anos e não viveram período áureo do programa, mas isso não os impede de serem fãs. No dia em que arranca mais uma edição da Eurovisão ( e em que Salvador Sobral sobe ao palco dos sonhos), republicamos um texto com a histórias, loucuras, rituais e sofrimento do verdadeiro eurofã

Corriam os últimos dias do mês de fevereiro de 1969 quando, pela sexta vez, Portugal parava para ouvir o desfile de músicas que prometiam representar o país e arrancar uma vitória lá fora na Eurovisão. Ao início da noite, com os cabelos negros apanhados e um vestido de mangas compridas, Simone de Oliveira subiu ao palco do Teatro São Luiz, em Lisboa. “Minha palavra dita à luz do sol nascente/ meu madrigal de madrugada/amor amor amor amor amor presente/ em cada espiga desfolhada”, cantou. Quem estava na sala conseguiu distinguir cada cor, ver cada movimento e ouvir cada respiração. Em casa, através da RTP – ainda estação única e com transmissão a preto e branco -, muitos outros portugueses viram a artista alcançar o primeiro lugar do Festival da Canção. Já lá vão quase 50 anos.

Sérgio Ferreira ainda não era nascido quando a “Desfolhada” foi cantada. Tem apenas 22 anos. Para ele, aquele momento é o mais marcante da história do certame que já moveu todo um país. “É uma composição maravilhosa e a Simone foi exímia a cantá-la”, justifica.

Açoriano de São Miguel, Sérgio entrou na faculdade em Lisboa. Em 2012 rumou à capital, mas chegou uns dias mais cedo para participar no Eurovision Live Concert, um concerto anual que reúne artistas nacionais e internacionais do Festival da Canção. Nesse dia conheceu Simone.

Fascinado desde pequeno pelo mundo da televisão, Sérgio é hoje assistente de produção. Ao longo do curso, sempre que podia, arranjava forma de fazer trabalhos sobre o tema. O trabalho final foi uma análise à participação portuguesa na Festival da Eurovisão.

“Era o meu ídolo, a pessoa que gostava mesmo de conhecer. Fazia parte do programa ir jantar ao restaurante da Simone – por acaso, já nem me lembro o que comi –, e depois um concerto. Cantou o “Sol de Inverno”, a “Desfolhada” e outras… Lembro-me que foi mágico”, recorda.

Os dois trocaram umas palavras. Simone confundiu Sérgio com um dos muitos franceses que estavam presentes em peso no evento eurovisivo. Sérgio disse que era das ilhas. Ela desejou-lhe boa sorte para a faculdade. Ele agradeceu. Beijou-o na testa e despediu-se do jovem admirador.

Simone de Oliveira foi apenas o primeiro nome com quem Sérgio se cruzou. Ainda nem estava há um mês em Lisboa e já se tinha chegado à fala com “os três reis do Festival da Canção”. “Logo a seguir, fui à inauguração do busto da Madalena Iglésias em Benfica. Conhecia-a e, no mesmo dia, conheci também o António Calvário. Nos primeiros tempos já tinha valido a pena vir para Lisboa”, acrescenta em tom de brincadeira.

Sérgio com Yola, Suzy e Manuela Bravo

Sérgio com Yola, Suzy e Manuela Bravo

Imagem cedida por Sérgio Ferreira

E como surgiu toda esta paixão? Com um CD das Doce que andava perdido lá por casa. Queria saber mais. “Não sei bem porquê, deu-me na cabeça ir pesquisar mais sobre as Doce. Andei à procura e acabei por ir parar a um site chamado Festivais da Canção. Comecei a explorar, havia descrições de todos os festivais, fotografias, letras das canções… Por acaso, umas semanas depois era tempo de mais um festival. Foi a primeira vez que vi. Depois, acompanhei também a Eurovisão e fiquei apaixonado pelo espetáculo”, explica.

24 horas em Estocolmo

Maio de 2016. 6h de um sábado. Com uma pequena mala na mão, Joana Lucas estava sozinha no aeroporto Sá Carneiro, no Porto, pronta para embarcar até Estocolmo, na Suécia. Sabia que só tinha 24 horas de visita, mas esse era tempo mais do que suficiente para cumprir o sonho: ver ao vivo uma final da Eurovisão. Uma escala e mais de três mil quilómetros depois, lá estava ela. “Acho que se pode se pode dizer que isto foi um bocadinho de loucura”, comenta.

À entrada da arena onde decorreu a edição de 2016 da Eurovisão

À entrada da arena onde decorreu a edição de 2016 da Eurovisão

Imagem cedida por Joana Lucas

Não houve tempo para espreitar a cidade. Joana andou a juntar dinheiro “por mais tempo do que pensava”. Gastou perto de 500 euros, sendo que 50 foram para o bilhete que lhe garantia a entrada na arena Ericsson Globe. Chegou sozinha à fila de entrada. Instantes depois já falava com holandeses, canadianos, britânicos e espanhóis.

“Nas redes sociais há um grande entusiasmo com o festival, mas lá no local vive-se um espírito diferente. Não se sente tanto a competição mas sim a festa e a celebração. Fui com a bandeira portuguesa e uns espanhóis abraçaram-se logo a mim. Há união, amizade e as pessoas falam todas umas com as outras”, descreve. “Os dez minutos antes do espetáculo começar, que quem está em casa não vê, são brutais. Estão todos a dançar e a cantar medleys de músicas antigas. Aí, via-se o verdadeiro espírito pelo qual a Eurovisão foi criada: juntar todos à volta da música”, acrescenta.

Arrepiou-se e quase verteu uma lágrima quando soaram as primeiras notas do hino da Eurovisão. Não acreditava que estava mesmo ali. Às 6h de domingo, lá estava Joana, novamente no aeroporto e de regresso a casa.

Os Festivais da Canção e da Eurovisão sempre fizeram parte da vida de Joana. Nem ela sabe explicar como tudo começou. Lembra-se de em miúda acompanhar as emissões com os pais, e as músicas que prefere são bem mais antigas do que ela (“Playback” de Carlos Paião, em 1981, e o “Silêncio e Tanta Gente” de Maria Guinot, em1984). Associa as músicas aos anos com uma destreza incrível. Sabe quem cantou e compôs. Não hesita em atirar nomes e datas como se fosse o nome das ruas que percorre todos os dias.

Jessica Mendes, 24 anos, consegue aliar o Festival à paixão da escrita. Dedica grande parte do tempo a enriquecer o blogue “Crónicas de Eurofestivais” com notícias, opiniões, reportagens e a entrevistas. É uma das capitãs do barco.

“Com isto já tive a sorte de conhecer algumas pessoas que admiro bastante do meio eurovisivo como a Vânia Fernandes, que nos representou em 2008, o Nuno Feist ou o Ott Lepland, que representou a Estónia em 2012 e é um cantor incrível. E também já vi duas edições do Festival da Canção ao vivo”, conta entusiasmada.

Jessica Mendes com Ott Lepland, que representou a Estónia em 2012

Jessica Mendes com Ott Lepland, que representou a Estónia em 2012

Imagem cedida por Jessica Mendes

Unhas roídas, rezas, silêncio e apostas

Enquanto Sérgio vivia com os pais em São Miguel, as noites de festival eram sagradas. “Pedia à minha mãe para não falar e convidava os meus pais a verem também”, recorda. Quando saiu do conforto do lar e rumou a Lisboa para estudar, viveu sempre em residências de estudantes, o que complicava o acesso à televisão. Num ano, conseguiu “pôr a malta toda a ver a final” e noutro apoderou-se da TV em casa de uns amigos.

Relativamente ao Festival da Canção, apesar de ser obrigatório ver Joana não tem qualquer ritual ou tradição. O mesmo já não acontece com a competição europeia. Aí, há toda uma preparação: no mês anterior recusa ouvir qualquer uma das canções a concurso. Talvez para não se afeiçoar ou se fartar.

Nunca há nada marcado para o dia da final e assegura-se de que está em casa (ou ao pé da televisão e do sofá) a partir das 19h. Momentos antes do arranque, fica “numa pilha de nervos”. Fazem-se tops das melhores e piores composições a concurso. Aposta-se nos favoritos e nos derrotados da noite. Joana garante que quando as atuações que lhe são mais queridas não atingem o sucesso que espera “sofre mais do que devia”. E aconselha quem está à sua volta naquela hora de angústia a não dizer-lhe nada.

Entre os fãs, o mais comum é ter uma canção favorita e não um país. O que está em jogo é a qualidade da música e a forma como esta é espelho de uma cultura. “Em 2014, os portugueses ficaram chateadíssimos porque a Suzy não foi à final, enquanto eu estava quase em lágrimas porque Montenegro se apurou pela primeira vez e com uma música que é a essência da Eurovisão”, exemplifica Jessica.

“Sou quase uma ave rara”

Estranho, choque, ave rara e preconceito. Todas estas são palavras usadas por Jessica, Joana e Sérgio para descreverem o que os outros acham quando se apercebem que eles vibram com o mundo eurovisivo. Na opinião do trio, o desconhecimento faz a barreira.

“Em Portugal, reage-se com muita estranheza. Sou quase uma ave rara. Quem me conhece, goza às vezes mas percebe. Tento mostrar o lado bom da Eurovisão”, refere Joana. “Nunca consegui tornar um dos meus amigos fã, mas alguns veem o espetáculo e gostam das músicas, o que já é uma vitória”, acrescenta.

Para quem crítica, Jessica tem a resposta na ponta da língua: “Aquela canção chamada ‘If I were sorry’, que está constantemente passar na rádio, é da Eurovisão. Representou a Suécia em 2016 – e foi das piores que pisou aquele palco. “Can't stop the feeling”, de Justin Timberlake, foi apresentada na Eurovisão. Portugal pode não levar o concurso a sério, mas há países que o fazem. O Melodifestivalen, o Festival da Canção sueco, é sempre o programa mais visto do ano; e na Islândia, a média de espectadores da Eurovisão está sempre na casa dos 90%”.

Se outrora o Festival da Canção parava o país, agora parece que quase passa ao lado dos telespectadores. “Há um preconceito, mas não sei porquê. Talvez tenha caído um bocadinho em desuso, por participarmos há tantos anos sem ganhar”, supõe Sérgio. “A RTP é parte do problema também, pois não promove o concurso e as músicas do Festival da Canção são, no geral, horríveis”, acusa Jessica.

Em 2015, as audiências da Eurovisão atingiram os números mais baixos dos últimos anos. Em Portugal, 503.500 assistiram à competição internacional, menos de metade dos que acompanharam em 2008 (1.716.000). Em 2016, houve um ligeiro aumento, com 505.000 pessoas a seguirem a emissão.

“Claro que há má música, mas também há coisas muito boas. A Eurovisão não é igual ao Festival da Canção que se faz em Portugal. É melhor. Quero voltar a ter o mesmo nível de entusiasmo pelo Festival da Canção que tenho pela Eurovisão, porque em Portugal há qualidade”, insiste Joana

Se as pesquisas no Google contassem, já estava ganho

TATYANA ZENKOVICH/ EPA

Os primeiros sinais de o festival estava a mudar surgiram com as escolhas da organização nacional. Os compositores foram convidados e, pela primeira vez, houve canções totalmente em inglês. Luísa Sobral, Rita Redshoes, Samuel Úria, Nuno Feist e Márcia eram nomes de destaque entre o lote de criadores das letras e músicas a concurso. Entre os cantores, estavam alguns talentos nascidos em programas como “The Voice” (RTP), “Ídolos” (SIC) e “Factor X” (SIC).

Foram os Sobral que levaram a melhor. A doçura na voz de Salvador e a mestria da letra e melodia de Luísa conquistaram os portugueses.

“Há muitos hambúrgueres e a nossa canção é um tartare", descreveu Salvador Sobral numa conferência de imprensa, a 23 de março. “São canções mais pop, fáceis de agradar ao público. Só gostei da canção da Itália, ele é engraçado”, explicou.

Depois da onda de amor em Portugal (e de alguma polémica), os irmãos Sobral parecem ter caído nas graças da Europa. As expectativas são altas. A julgar pelas apostas e pelas reações que têm sido difundidas nas redes sociais ou o destaque dado ao cantor pelos meios de comunicação social estrangeiros, este poderá ser um dos melhores resultados de sempre (Portugal nunca conseguui melhor do que um 6.º lugar com Lúcia Moniz e “O meu coração não tem cor”, em 1996).

Um estudo realizado pelo Google News Lab mostra que Salvador Sobral ficaria bem acima da média se o sistema de pontos da Eurovisão se baseasse nas pesquisas feitas no Google por cada artista. Conseguiria alcançar o 5.º lugar entre os 36 países a concurso.

Esta terça-feira arranca mais uma Eurovisão com a primeira semifinal. É a 62.ª edição. Salvador Sobral sobre ao palco já esta noite. “Amor pelos dois” será a nona música ouvida em Kiev (e também em toda a Europa). Curiosamente, é o único tema da noite que não será cantado em inglês.

A transmissão de ambas as semifinais (terça-feira e quinta-feira) e da final (sábado) são asseguradas pela estação pública. Na primeira meia-final, em que Portugal participa, a transmissão é em direto e começa pelas 20h. Já a segunda meia-final será transmitida em diferido, pelas 22h.

Na final, também emitida em direto pela RTP (20h), há lugar para os 20 qualificados nas semifinais, os “Cinco Grandes” (França, Alemanha, Itália, Espanha e Reino Unido) e ainda para o país anfitrião, a Ucrânia.

Programa:

9 de maio - Primeira semifinal:

Canção 1: “I Can't Go On”, Robin Bengtsson (Suécia)
Canção 2: “Keep The Faith”, Tamara Gachechiladze (Geórgia)
Canção 3: “Don't Come Easy”, Isaiah (Austrália)
Canção 4: “World”, Lindita (Albânia)
Canção 5: “City Lights”, Blanche (Bélgica)
Canção 6: “Space”, Slavko Kalezić (Montenegro)
Canção 7: “Blackbird”, Norma John (Finlândia)
Canção 8: “Skeletons”, Dihaj (Azerbaijão)
Canção 9: “Amar pelos Dois”, Salvador Sobral (Portugal)
Canção 10: “
This is Love”, Demy (Grécia)
Canção 11: “Flashlight”, Kasia Moś (Polónia)
Canção 12: “Hey Mamma”, Sunstroke Project (Moldávia)
Canção 13: “Paper”, Svala (Islândia)
Canção 14: “My Turn”, Martina Bárta (República Checa)
Canção 15: “Gravity”, Hovig (Chipre)
Canção 16: “Fly With Me”, Artsvik (Arménia)
Canção 17: “On My Way”, Omar Naber (Eslovénia)
Canção 18: “Line”, Triana Park (Letónia)

11 de maio - Segunda semifinal:

Canção 1: “In Too Deep”, Tijana Bogićevic (Sérvia)
Canção 2: “Running On Air”, Nathan Trent (Áustria)
Canção 3: “Dance Alone”, Jana Burčeska (Macedónia)
Canção 4: “Breathlessly”, Claudia Faniello (Malta)
Canção 5: “Yodel It!”, Ilinca ft. Alex Florea (Roménia)
Canção 6: “Lights and Shadows”, OG3NE (Holanda)
Canção 7: “Origo”, Joci Pápai (Hungria)
Canção 8: “Where I Am”, Anja (Dinamarca)
Canção 9: “Dying to Try”, Brendan Murray (Irlanda)
Canção 10: “Spirit of the Night”, Valentina Monetta and Jimmie Wilson (São Marino)
Canção 11: “My Friend”, Jacques Houdek (Croácia)
Canção 12: “Grab The Moment”, JOWST (Noruega)
Canção 13: “Apollo”, Timebelle (Suíça)
Canção 14: “Story of My Life”, Naviband (Bielorrússia)
Canção 15: “Beautiful Mess”, Kristian Kostov (Bulgária)
Canção 16: “Rain Of Revolution”, Fusedmarc (Lituânia)
Canção 17: “Verona”, Koit Toome & Laura (Estónia)
Canção 18: “I Feel Alive”, IMRI (Israel)