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Dupla fé (ou até mais) em Fátima

josé carlos carvalho

Em Fátima, a fé vai além da Nossa Senhora, dos Pastorinhos ou do Papa Francisco. A alta probabilidade de o Benfica se sagrar campeão no sábado, dia 13, o da canonização de Jacinta e Francisco Marto, faz aumentar o nervoso miudinho dos milhões que comungam o vermelho e branco da Luz. Em Fátima há também um local de culto para estes adeptos, onde até se pode beber uma imperial “à Eusébio”. No Santuário, a fé também é dupla para dois casais que vieram da Irlanda e do Reino Unido

Hugo Franco

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Jornalista

Mariana Lima Cunha

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José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

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Fotojornalista

Só há um sítio em Fátima onde se pode comer um bacalhau 'à Luisão' ou um lombo 'à Gaitan', beber uma imperial de 3,5 litros, batizada 'Eusébio', ou encontrar ao almoço o jogador de futebol Renato Sanchez. É um local de peregrinações dos No Name Boys e de adeptos mais ou menos famosos do clube que se prepara para ser campeão no próximo 13 de maio. N' O Fanático, a dois passos do Santuário, todos acreditam que o Benfica leva o tetra para casa no mesmo dia em que ali ao lado o Papa canoniza Jacinta e Francisco Marto. “Vai ser um dia de dupla fé”, antecipa Cristina Agostinho, dona do café/restaurante.

O patriarca da família, Rui Lá Féria, que surge em vários retratos nas paredes do pequeno estabelecimento comercial ao lado de ex-atletas e ex-treinadores do clube da Luz, não está presente, mas a mulher e um dos quatro filhos do casal, Rui Agostinho, que também gerem o negócio, com 22 anos, padecem da mesma benfiquite aguda. “Prevemos que este sábado seja um inferno, um pandemónio, aqui no restaurante”, vaticina o jovem empresário, de 31 anos.

josé carlos carvalho

A fé, no Benfica, mas também no Centenário das Aparições, está à vista. O teto está forrado de cachecóis encarnados e as prateleiras cheias com 5 mil peças (garrafas, emblemas, galhardetes, fotografias) ligadas ao clube. Num dos vidros foi pintada há poucos dias uma imagem do Papa Francisco, da autoria de uma artista francesa que por ali passou, que lhes cobrou 25 euros. “Este é o Papa do povo, o nosso Papa”, resume Cristina, que garante: “Se alguém vier aqui pedir-nos comida, não sai daqui de estômago vazio.”

No próximo sábado, e tal como já vem sendo tradição nos últimos anos em que o Benfica se sagrou campeão nacional, os donos d' O Fanático oferecem as imperiais, embora a previsível invasão de adeptos e fiéis possa deixar os barris vazios ainda antes de o jogo começar. “No último sábado já foi uma loucura quando tivemos o Renato Sanches a almoçar aqui com a mãe”, lembra Rui Agostinho. Não é exagero de comerciante. As imagens gravadas em vídeos de telemóvel provam o que diz. A jovem estrela do Bayern de Munique, que ganhou nome na Luz, foi “engolida” por dezenas de fãs à espera do autógrafo e da foto da praxe.

Apesar da proximidade do Santuário ninguém da família foi alguma vez ver a passagem dos Papas anteriores (João Paulo II e Bento XVI) por Fátima. “Tentámos, mas não dá. Há demasiada gente e muito trabalho para fazer por aqui”, justifica Cristina. Este ano não será diferente. A fé vai ficar n' O Fanático.

Todos à procura do terço

A quatro dias da chegada do Santo Padre a Portugal, as lojas de recordações em Fátima ainda estão a meio gás. Ainda assim, há um produto que se encontra esgotado em quase todas elas: o terço comemorativo do Centenário das Aparições de Fátima, produzido pelo Santuário de Fátima, a Associação Empresarial Ourém-Fátima e a Casa da Moeda. É difícil encontrá-lo, apesar de estar à venda desde junho do ano passado. Na loja I Love Maria, só há um exemplar mas está reservado a uma emigrante portuguesa que telefonou de propósito para os donos há algumas semanas para ter um exemplar para ela, assim que chegar à Cova da Iria.

josé carlos carvalho

Um quarteirão ao lado, na loja Santo André, a gerente, Dina Gomes, é uma das poucas que os tem à venda. “Guardámos um stock de inverno para agora termos terços disponíveis para os clientes”, explica. O preço em todas as lojas é de 12 euros. Embora um pouco menos populares, as t-shirts, lenços, ímanes e até panos do centenário, também se vendem bem.

Ali perto, duas turistas entram na loja Glamouros Aparição, aberta há cinco anos. O passo é apressado, o pedido é firme: querem uma t-shirt igual à que veste Maria Manso, de 72 anos, a dona da loja, que exibe na roupa as figuras da Basílica e do Papa com o título do centenário logo por baixo. O tamanho que querem já esgotou. “Não gostam com os pastorinhos?”, pergunta a neta da comerciante, futura herdeira da loja. “Com os pastorinhos não...”.

O Papa é a figura principal de vendas, embora as duas assegurem que “para o alarido que é, o negócio está muito fraco”. Esperam que a situação mude quando chegarem mais peregrinos para ver o Papa, altura em que dormirão ali mesmo, em colchões no chão da loja. Nesta altura é impossível voltar a casa, a 5 quilómetros dali – com o marido cego e acamado há cinco anos, Maria desdobra-se em esforços na loja para vender os produtos que tem, dos lenços comemorativos do Centenário, que já esgotaram, aos pacotes de chá do Santuário.

josé carlos carvalho

Constantes são as vendas das velas com formas de partes do corpo humano (do fígado ao pulmão, passando pelo útero ou pelo ouvido) ou com figuras de crianças, casas ou até cães. “Quando as pessoas querem pedir ajuda por causa de uma doença específica, ou por causa de uma criança, por exemplo, vêm cá para oferecer as velas ou para agradecer a Nossa Senhora”. São clientes regulares para quem a visita papal não é o motivo principal para uma vinda a Fátima – as promessas de fé cumprem-se em qualquer altura do ano.

“Isto não vem da cabeça, vem do coração”

Só a força da promessa justifica o esgar de esforço que Joaquim Botelho, de 53 anos, suporta quando se arrasta pelo chão do Santuário, armado de joelheiras, cotoveleiras e da água que a mulher, Maria, lhe passa para a mão de vez em quando. As veias salientes ilustram o esforço e fazem saltar à vista as tatuagens de Joaquim, que vive com a mulher no norte da Irlanda mas faz questão de voltar regularmente a Fátima para cumprir o que prometeu há treze anos.

josé carlos carvalho

Foi uma altura difícil para o casal – depois de ter sofrido um acidente, Maria arriscava-se a perder uma perna e o marido agarrou-se à fé, prometendo arrastar o corpo até à Capelinha das Aparições quantas vezes fosse preciso. Não vão ver o Papa, porque a altura é de enchente e a devoção mantém-se o ano todo. “Sou obrigado a acreditar, casei-me com uma Fátima”, graceja Joaquim, antes de se lançar ao caminho que o obrigará a tirar o crucifixo que leva ao pescoço e parar várias vezes para descansar.

Mesmo com as paragens ocasionais, Joaquim chega a ultrapassar outro peregrino, que percorre o mesmo caminho ajoelhado e responde num português esforçado. Divyesh, de 31 anos, fala em português, ao contrário da mulher, Sushma, que o acompanha de pé, porque foi ele que viveu em Portugal antes de se mudar para Londres, há 16 anos. Depois conheceu-a

Os nomes têm de ser explicados letra a letra, porque ele nasceu na Índia e ela no Nepal. São hindus, mas Divyesh conta que o regresso a Fátima é inevitável: toda a sua família, que também viveu em Portugal, acredita que este lugar é especial e cumpre promessas neste Santuário. Afinal, apesar dos escassos cinco anos que passou em Portugal, Divyesh assegura que se “sente português” e por isso o lugar certo para expressar a sua devoção é Fátima: “Isto não vem da cabeça, vem do coração”.