Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Depois da Matemática, é a Inglês que os alunos mais chumbam

Marcos Borga

Estudo inédito do Ministério da Educação revela notas obtidas pelos alunos no 2º ciclo do ensino básico a cada uma das nove disciplinas obrigatórias. Entre 26% a 30% tiveram negativa a Matemática em 2014/2015. Educação Física foi a que causou menos dificuldades

Ainda que ‘apenas’ 10% dos alunos do ensino público fiquem retidos no 6º ano, só 66% conseguem terminar o 2º ciclo com aproveitamento a todas as disciplinas. Um terço dos jovens passa para o 7º ano com pelo menos uma negativa. A Matemática é onde mais tropeçam, logo seguida do Inglês.

De acordo com os dados inéditos agora divulgados pelo Ministério da Educação, que desagregam os resultados por disciplina, 26% dos alunos do 5º ano e 30% dos alunos do 6º acabam o ano letivo com negativa a esta disciplina. A segunda a causar mais dificuldades a estes alunos é o Inglês, ainda que a uma distância considerável (14% e 15% de negativas, respetivamente).

Apesar de algumas diferenças de valor entre o 5º e o 6º anos, o ranking das disciplinas que são obrigatórias neste ciclo de ensino, ordenadas da maior para a menor taxa de retenção, é idêntico: Matemática, Inglês, Português, História e Geografia, Ciências Naturais, Educação Visual, Educação Musical, Educação Tecnológica e Educação Física. Nesta última, a percentagem de negativas ficou-se pelos 2%.

Os dados dizem respeito a 2014/2015 e mostram ainda que as classificações finais negativas foram mais frequentes entre os alunos do 5º ano do que entre os do 6º ano. Aconteceu em todas as disciplinas, salvo Inglês e Matemática, lê-se no estudo disponibilizado no site da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência.

Outra das informações agora conhecida é a percentagem de alunos que não têm qualquer negativa e dos que tiveram uma, duas, três ou mais classificações abaixo dos 3 valores. Tanto no 5º como no 6º ano, é elevado o número de jovens que não consegue ter um percurso ‘limpo’: 35% e 39%, respetivamente.

O mais comum entre estes é apresentarem apenas uma negativa, mas no 5º ano chega a haver 12% de alunos com classificações de 1 e 2 valores a três ou mais disciplinas. Sobretudo de 2, já que a nota mais baixa raramente é atribuída pelos professores, revela-se neste estudo. Apenas a Matemática no 6º ano é que o valor assume alguma expressão, ainda que residual (3% de notas 1).

A decisão de passar de ano depende não só do número de disciplinas mas também da sua natureza. Por exemplo, um aluno pode passar com duas negativas, a menos que se trate de Matemática e Português em simultâneo. Feita esta salvaguarda, refira-se que dois em cada três alunos (66%) terminam o 2º ciclo com aprovação em todas as disciplinas; 19% passam para o 7º ano com uma negativa e 15% com duas.

Ao nível do 5º ano, 70% transitaram com positiva a todas as disciplinas e 30% com pelo menos uma negativa, dos quais 5% com três ou mais negativas.

Recuperar é difícil

Uma equipa do Ministério da Educação seguiu individualmente o percurso de todos os alunos que, no final de 2013/14, passaram para o 6º ano com negativa a alguma das nove disciplinas para perceber se conseguiam recuperar no ano seguinte ou se mantinham a negativa nas mesmas disciplinas em que anteriormente tinham "tropeçado".

No caso da Matemática, a esmagadora maioria (79%) dos alunos que conseguiram passar de ano mesmo com negativa àquela disciplina voltaram a ter negativa no 6º ano e só 21% conseguiram recuperar. A Inglês, a taxa de recuperações foi de 34%, o que significa que 66% dos alunos voltaram a ter negativa à disciplina no ano seguinte.

Já em disciplinas como Educação Visual e Tecnológica, por exemplo, é muito frequente os alunos conseguirem recuperar: 85% dos que passaram de ano com negativa à disciplina conseguiram passar para a positiva no 6º ano.

"Estes resultados sugerem que, em certo sentido, obter uma classificação final negativa a Matemática é um problema mais sério do que obter uma classificação negativa noutra disciplina, pois a probabilidade de posterior recuperação é muito menor da que na generalidade das outras disciplinas", refere a equipa do Ministério. "Chega-se à preocupante conclusão que Matemática é não só a disciplina na qual mais alunos chumbam, como é também, precisamente, a disciplina em que é mais difícil recuperar uma negativa anterior", acrescenta o estudo.

Pelo contrário, a grande maioria dos alunos que transitaram do 5º para o 6º ano com classificação máxima (5 numa escala de 1 a 5) a uma disciplina conseguiram manter esse desempenho no ano seguinte - uma percentagem que varia entre os 60% a Português e os 72% a Ciências Naturais. No caso da Matemática, 67% dos alunos que tiveram 5 no 5º ano voltaram a tê-lo no 6º.

Talentosos a Educação Musical e Educação Física

Se a classificação de 3 valores é a mais comum na generalidade das disciplinas, há excepções à regra. Os professores parecem mais generosos ou os alunos mais talentosos a Educação Musical e Educação Física, matérias nas quais a classificação 4 é a mais frequente. Na primeira disciplina concentra-se o maior número de notas máximas, com praticamente um em cada quatro jovens a conseguir um 5.

Na nota de apresentação do estudo, o Ministério aproveita para reforçar algumas das ideias que tem vindo a defender, como a “ineficácia da retenção” e a “necessidade de agir aos primeiros sinais de dificuldade”. Além disso, a conclusão de que existe uma correlação entre baixo nível socioeconómico e baixos desempenhos escolares “confima a necessidade de introduzir no sistema autonomia e flexibilidade para que se possa gerir o currículo de forma adequada a cada contexto”.

  • Alunos pobres chumbam duas a três vezes mais

    Estudo inédito sobre as classificações dos alunos no 2º ciclo de escolaridade mostra o efeito das condições económicas nos resultados. Ministério da Educação admite que o sistema de ensino não está a ser "suficientemente eficaz" para combater as desigualdades