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A escrever materializo os meus medos e os meus ódios”

joão lima

O livro “Pianista de Hotel” tem lançamento marcado para 16 de maio. Sobre a solidão e a ausência, tem a música como fio condutor. Um princípio de conversa que levou o jornalista a assumir angústias e desejos

Não, Rodrigo Guedes de Carvalho não vai formar uma banda nem vai passar a tocar guitarra por aí. Mas o hobby da música está cada vez mais aceso numa vida de corrupio em que relaxar se tornou indispensável ao seu equilíbrio. E é a própria música, a que voltou a entregar-se depois de o filho Rodrigo decidir seguir a carreira de baterista, que serve de fio condutor ao seu mais recente romance, “Pianista de Hotel”, que o Expresso já leu e que serve de ponto de partida para a entrevista em que o pivô da SIC fala de jornalismo, do futuro e do passado e da sua vida privada, no estúdio que tem alugado ao mês bem perto de Queijas.

A música é muito importante para si. Que paixão é essa?
Foi a minha primeira paixão. Quis aprender guitarra por volta dos 9 anos. Em casa, nessa altura, estava-se a viver o grande boom da música dos anos 70. E eu fazia playbacks. É preciso ver que os meus pais tiveram-me muito cedo e que fui filho único durante bastante tempo. De certa forma, fui o irmão mais novo do meu pai. A minha infância foi por isso passada entre adultos, os meus tios incluídos. Havia muita música, muitos discos. Tudo isso mexia comigo, e apaixonei-me.

Chegou a ter aulas?
Sim. Pedi à minha mãe, e ela procurou alguém que me ensinasse. Era uma antiga professora do Conservatório, velhinha. Eu ia às aulas sozinho, e aquilo correu mal. A senhora era muito exigente, eu aprendia guitarra clássica pura e dura, quando queria era tocar rock. Chegou um momento em que não aguentei mais, porque ela batia-me com uma vareta nos dedos quando eu falhava uma nota. E, um dia, antes de entrar em casa, parti a minha guitarra. Jurei que nunca mais tocaria.

Mas continuou a ouvir música.
Sim, muita e ao longo de toda a minha vida. Depois, mais tarde, a vida apanhou-me, porque tive um filho que desde cedo quis ser músico e aprender música. Através do diálogo com ele ressurgiu a minha própria paixão.

Ele foi influenciado por si?
Claro que foi. O meu filho tem hoje 25 anos, mas a grande paixão dele são os Led Zeppelin. Portanto, bebeu muito de mim e da música que eu ouvia. Os filhos vão beber mais às nossas ações do que aos nossos sermões.

Os filhos mudam uma vida?
Sem dúvida. Acho que é literalmente a zona de fronteira da nossa vida. Ter filhos trouxe-me duas coisas: descobrir a capacidade, para mim inquestionável, de dar a vida por alguém e, por outro lado, potenciar os nossos medos. O medo da perda, a nossa própria mortalidade, torna-se um assunto mais importante. Uma das coisas que achei estranho depois de ter filhos foi passar a ter medo de andar de avião. É pura e simplesmente porque há qualquer coisa que nos diz que a nossa mortalidade os vai afetar.

Os seus filhos já são crescidos.
Sim, têm 25 e 23 anos. Estou muito feliz, porque eles têm percursos académicos bastante diferentes, a Benedita com muito sucesso, o Rodrigo sem sucesso nenhum. Mas o meu grande orgulho é o facto de serem boas pessoas. Cada vez mais aprecio as boas pessoas, que vão rareando.

A família é para si um laço que não se quebra?
A família é muitíssimo importante. A minha desintegrou-se de alguma forma com a morte do meu avô. Ele era o agregador da vida familiar. Era o elo que unia toda a gente e tudo se passava em casa dele. Quando ele morreu, em 2005, aconteceu o que pressenti que ia acontecer: não havia na família outro patriarca natural, e a vivência em família desapareceu. O que me magoou imenso. Ainda hoje trago essa dor. Estou a tentar, agora, com os meus filhos, que a nossa relação de proximidade não se quebre nunca.

De qualquer forma, tem uma ligação forte com o seu irmão, Tiago Guedes, com quem já trabalhou em projetos conjuntos, por exemplo nos filmes “Coisa Ruim” ou “Alta Fidelidade”, sendo seu argumentista.
E até mais. Estamos a falar de cinema, e no cinema, por cada dois projetos que se conseguem, há cinco ou seis que ficam na gaveta por falta de financiamento. Mas, sim, dou-me muito bem com o meu irmão, apesar de termos uma diferença de idades de quase uma geração. São oito anos: quando ele tinha 12 e estava a brincar na escola, eu tinha 20 e estava na faculdade a beber copos e a apanhar bebedeiras. Encontrámo-nos mais em adultos. Não fazia a mínima ideia de que ele seguiria uma área artística. Isto apesar de termos passado a vida a ver filmes, a nossa mãe é uma grande cinéfila. Ele, miúdo, cresceu encostado a mim a ver cinema. Não estranhei depois que quisesse ser realizador.

Foi uma descoberta para si a escrita do argumento? Como é que chegaram à conclusão de que um poderia trabalhar com o outro?
Foi ele quem me desafiou. De facto, escrevi o meu primeiro livro com 20 anos, “Daqui a Nada”. Ele sabia que eu escrevia e que queria continuar a fazê-lo. O Tiago começou na publicidade como copywriter, mas sempre teve o sonho de ser realizador. Sabia que queria realizar, mas não sabia o quê. Foi confrontado com a importância de ter uma história para contar e foi aí que me desafiou. Percebi a lógica dele, mas nunca acreditei que uma pessoa que escreve romances, literatura, poesia, fosse necessariamente um bom argumentista. Nada nos garante que, se Saramago tivesse sido convidado a escrever um argumento para cinema, o tivesse feito. Há toda uma técnica que aprendi, mas esse passo não era lógico. Aceitei o desafio, e dois já foram filmados, faltam mais alguns que temos na calha.

E a escrita, foi uma necessidade ou uma paixão?
Comecei a ler cedo, e ninguém me disse para ler. Havia muitos livros em casa do meu avô. Eu era uma criança fechada, introspetiva, sem que isto signifique qualquer sofrimento. Gosto da minha solidão e não a vejo como algo mau. Num mundo de adultos, via-os a ler, tinha livros à disposição e comecei a ler. De repente, estava apaixonado pela leitura. À medida que fui crescendo, surgiu pelo menos a interrogação: conseguirei ser mais do que um leitor?, conseguirei fazer esta arte de que tanto gosto? Ia arranhando umas coisas e sempre tive elogios das professoras de Português, a redação era o que gostava mais de fazer — era quando ensaiava perante os outros saber se gostavam da forma como escrevia. Mas obviamente que quando se é adolescente a escrita é imberbe, a maturação não existe.

O que lia então?
Lia os clássicos que o meu avô tinha. Lembro-me de que os primeiros romances que li foram do Vergílio Ferreira e do José Cardoso Pires. A minha introdução à poesia não foi com Fernandos Pessoas ou coisas do género, como fica muito bem dizer, mas sim com o poeta de que o meu avô mais gostava, José Gomes Ferreira. Estranhei, mas depois tudo começou a fazer sentido. Tal como a música, a poesia fazia tinir qualquer coisa que não sabia identificar. Recordo que teria talvez 14 anos quando li o primeiro romance que mexeu comigo, no sentido de me fazer questionar como era possível que uma coisa que são apenas letras impressas num papel me abanasse tanto. Foi “Servidão Humana”, do Somerset Maugham, um livro grande, espesso, que me fez sentir coisas, angústia, asco, expectativa... Quando acabei o romance, fiquei fascinado com a quantidade de sensações que um livro me podia transmitir. Esse desejo de querer escrever e provocar sensações nas pessoas ficou guardado em mim.

Música. Nos tempos livres, o jornalista opta por relaxar a tocar guitarra. Um instrumento que desistiu de aprender a tocar quando era criança. Na foto, Rodrigo no estúdio que aluga em Queijas

Música. Nos tempos livres, o jornalista opta por relaxar a tocar guitarra. Um instrumento que desistiu de aprender a tocar quando era criança. Na foto, Rodrigo no estúdio que aluga em Queijas

joão lima

Não demorou assim tanto tempo...
Não, não demorou. Mas é nesse interregno que o António Lobo Antunes assume uma importância vital para me fazer arrancar. Um tipo lê o Vergílio Ferreira, o Somerset Maugham, o Graham Green, o Joseph Conrad, o Scott Fitzgerald, e há ali um peso institucional para uma criança, que considera aquilo inalcançável. “Isto são senhores que sabem muito...” E um belo dia a minha mãe traz para casa o “Memória de Elefante”. Li-o de rajada e tive uma sensação que nunca soube descrever e que encontrei recentemente num documentário sobre as entrevistas do Truffaut ao Hitchcock, quando o intelectual francês decide mostrar a grandiosidade do cineasta, considerado até ali como um homem de filmes fáceis. Nesse documentário, há vários realizadores que falam sobre o Hitchcock, um deles é o Martin Scorsese, que diz exatamente aquilo que senti quando li o Lobo Antunes: “Andava à procura de fazer filmes, estava esmagado pelos grandes mestres, descobri o Hitchcock e percebi que aquilo se podia fazer.” Uma certa transgressão e um sentido que tem mais a ver comigo e com o novo tempo. Quando me dou conta daquela escrita nua, confessional, na primeira pessoa... desse abrir de alma e daquela forma de escrever aparentemente simples, mas cheia de nervo e de sangue, pensei o mesmo que o Scorsese. Isto pode fazer-se.

O Lobo Antunes também é um mestre.
Sim. Mas na altura não era. Estávamos perante um novo escritor português. E é a reboque do Lobo Antunes que me vem a vontade de experimentar, de ver se conseguia, já que se podia ir para aquela escrita despojada e cheia de sentimentos e que não estava nos romances que admirava em termos de linguagem. Foi, de facto, o motor para eu arriscar a escrever. Foi assim que nasceu o “Daqui a Nada”.

Passou muito tempo até escrever o segundo livro, “A Casa Quieta”, porquê?
Porque se meteu aquilo a que chamo a vida. Meteu-se a faculdade, os namoros, o casamento, o filho, a procura do emprego...

O jornalismo aparece por coincidência ou por vocação?
Não foi vocação. Sabia que tinha de tirar um curso superior, porque era um desígnio de família. Somos da média, alta burguesia portuense, mas sem muito dinheiro, temos pergaminhos e pelos vistos sangue azulado e nada mais. Uma das coisas que o meu avô sempre incutiu nos filhos foi a necessidade de tirar um curso superior como uma defesa para a vida. Quando estou a acabar o liceu, entro numa angústia enorme em relação à cidade do Porto.

Sente-se fechado?
Sim, bastante fechado. Já lia muita coisa, via muito cinema, percecionava a quantidade do mundo que existia e queria um pouco desse mundo. Olho à minha volta e vejo que, dentro das minhas características, o curso que me serviria era Direito. Penso no futuro e imagino-me a tirar o curso no Porto, a casar, a exercer advocacia na cidade... Era um destino que não me estava a apetecer ter. E a minha prioridade passou a ser sair do Porto.

Surge então a comunicação social?
Exato. Quando me fui inscrever para a faculdade, vejo que há um curso superior de Comunicação Social, e só há em Lisboa.

Era a desculpa perfeita?
Nem mais. Mas depois tive de passar pela justificação da escolha perante o meu avô. “Que raio, o que é e desde quando há um curso de Comunicação Social?” Os meus pais compreenderam que eu quisesse sair do Porto, apesar de se ter colocado a questão financeira. Fui para Comunicação Social para experimentar outros mundos, conhecer outras pessoas. Já sentia algum tédio em relação às conversas que tinha com os meus amigos, era sempre a mesma coisa, andávamos à volta das mesmas pessoas e dos mesmos temas. Depois é que comecei a pensar para que serviria o curso e pensei seguir publicidade, criar outros mundos...

A chegada a Lisboa foi um marco?
Foi. Lembro-me perfeitamente do meu primeiro dia na faculdade, 5 de novembro de 1983. Ainda não tinha 20 anos e chego no seguimento de uma adolescência inteira dedicada ao desporto, rugby. Tinha um cabedal impressivo, vestia uma t-shirt dos Led Zeppelin preta e entrei na sala. Os meus queridos colegas eram pessoal da barbicha, da boina, da maleta de couro à tiracolo, aquilo que se costuma associar à ideia do intelectual... A coisa foi de tal maneira que no primeiro dia ninguém falou comigo. No segundo dia, o Celso Filipe, jornalista e alentejano de Grândola, convidou-me para beber uma cerveja. E, claro, percebeu quem eu era. A dez metros tenho um ar fechado, talvez seja uma defesa, mas assim que falam comigo sou alguém absolutamente normal. A partir daí foi fantástico.

Quando é que percebeu que queria seguir jornalismo?
Foi o jornalismo que me escolheu de uma forma muito pragmática. Estou no último ano e sei que a RTP vai abrir vagas no seu centro de formação. Havia lugar para 24 formandos, e eu sou um dos que é selecionado. É nesse curso que conheço a Cândida Pinto, a Márcia Rodrigues, a Margarida Pinto Correia... Durante o curso, eu e a Cândida demos nas vistas, nas provas finais fizemos uma entrevista ao Carlos Pinto Coelho, que gostou de nós e começou a passar palavra. Deram-me oportunidade para fazer um estágio na editoria de desporto, e tudo começou por aí, a conhecer os meus ídolos, o Ribeiro Cristóvão, o Gabriel Alves, o Rui Tovar... O resto é história. Quando dei por ela, já não havia tempo para perceber o que é que queria ser. Em 1991 surgiu o convite do Emídio Rangel, que praticamente me triplicou o ordenado, e eu fui para a SIC, até hoje.

Como jornalista, o que mais o preocupa?
Preocupa-me sobretudo o jornalismo. Acho que estamos muito dentro da máquina de lavar para percebermos o que se está a passar. É preciso algum tempo, algum afastamento. No entanto, creio que já não é possível alhearmo-nos deste fenómeno das redes sociais e da comunicação absolutamente global e arbitrária. No Grupo Impresa, o Balsemão acordou cedo para a necessidade de acompanharmos as novas tecnologias, disse sempre que é preciso lá estarmos. Percebo-o perfeitamente, embora ache que a televisão, tal como existe hoje, não vai terminar. Mas, sim, temos de estar atentos ao que se está a passar nesse mundo. Mas a minha pergunta é se o jornalismo que estamos todos a fazer não está ao contrário, ou seja, completamente contaminado por esse mundo? Estamos a ser vítimas tantas vezes das fake news... Em televisão, tenho sempre medo da pressa e da urgência, que por vezes são más conselheiras. Tomam-se decisões porque determinada notícia já está em todo o lado, e acho que esse não deve ser o nosso único critério. Esta febre da rapidez com que temos de fazer as coisas, porque temos de acompanhar o que está a dar, merecia uma reflexão profunda de toda a classe. Sempre tentei estar na minha profissão com a maior seriedade possível, apesar de achar que o jornalismo, por tratar só da realidade, é uma caixa demasiado fechada para mim, daí o escape da criação, e essa seriedade deve ser o farol. No dia em que vier um press release do Partido Socialista para o meu computador e eu o puser tal e qual esvaziei a minha própria profissão. A nossa ação de mediação tem de existir a bem do público. Não nos podemos demitir dela. Sobretudo num momento em que estão a acontecer coisas como Trump, Erdogan, Kim Jong-un...

Falou na necessidade de um escape, da criação. Não teve medo de arriscar quando decidiu escrever?
Tive um medo terrível. Perante o produto acabado, a sensação é terrível. Entram literalmente nos nossos ombros o anjo e o diabo. As pessoas só podem ser hipócritas se ao acabarem uma coisa, que revêm com cuidado, disserem que não gostam do que fizeram. Gostam naturalmente do que fizeram. Mas ao mesmo tempo o diabo diz assim: “Olha que as pessoas vão dizer que isto é uma merda.”

Esse diabo não se torna mais firme devido ao facto de ser uma figura pública? Como lida com isso?
Não me lembro de não ser figura pública. São 31 anos, não me lembro. É uma condição que me é natural. Aprendi a lidar com isso muito cedo. Não é stressante, mas tem algum peso saber que não posso estar em nenhum momento completamente relaxado. As pessoas olham para a maneira como me visto, para a minha atitude, se disse boa-tarde ao empregado do café ou não disse... Estou sob escrutínio total.

Quer dizer que separa completamente o mundo do jornalismo do da escrita?
Exato. Há jornalistas que acabam por escrever sobre a sua matéria ou sobre a sua profissão. Mas, no meu caso, não há nada no meu universo da escrita que derive da minha profissão. É verdade que toda a gente me conhece, mas aquilo que escrevo é uma coisa que as pessoas vão perceber, para o bem ou para o mal, quando se dispuserem a ler. Se me disser que há uma franja de leitores que compra o meu livro porque me conhece e que depois tem um baque e larga aquilo porque não gosta ou não se interessa porque não estou a contar o que acontece nos bastidores da SIC, admito que sim. Tenho de confiar no julgamento das pessoas.

Mas cada pessoa tem uma ideia diferente de si.
Como é óbvio. E neste livro falo um pouco disso. O nosso corpo chega sempre aos outros antes de nós. Isso é absolutamente verdade e é tão esmagador que não posso pensar nisso. Se pensar que impressão têm de mim, dou em maluco.

Essa condição não pode ser prejudicial?
Sim. Muitos jornalistas que se ocupam da crítica veem a figura pública como algo negativo, pejorativo até. Mas é curioso, ainda ontem estava a ver um ranking sobre as pessoas mais famosas do país, e a pessoa mais famosa do país é o xodó da intelectualidade portuguesa, o Ricardo Araújo Pereira. À frente do Ronaldo e do Marcelo. O Ricardo Araújo Pereira lança um livro e não há uma referência à figura pública. Mas na maior parte das vezes, quando se fala em figura pública, tenta-se associá-la a uma certa mediocridade.

É disso que foge?
Não fujo nem deixo de fugir. Mas não admito que isso seja colado à criação que produzo. Vejo nos escaparates livros de figuras públicas que confessam até nas entrevistas que os escreveram a convite das editoras, que querem cavalgar o facto de elas serem figuras públicas. Então escrevem sobre a sua experiência de vida, ou sobre a D. Leonor de Lencastre, ou um livro de autoajuda, ou seja o que for, mas a forma como chegam ao produto livro nasceu apenas dessa condição pública. Eu sou o jornalista, ponto. E eu sou o romancista, ponto.

O romancista vive um ato solitário, contrário ao do jornalista. Sente-se melhor nessa condição?
Sem dúvida. E, nesta altura, a um ponto quase clínico. Estou com 53 anos, quase 54, mas desde criança comunguei com os adultos de uma entrada precoce nas preocupações do mundo. O mundo preocupa-me, sou muito angustiado com o que vejo.

Este livro, “Pianista de Hotel”, é uma prova cabal dessa preocupação.
Sim. Tenho uma relação estranha com a psiquiatria e com a psicologia, e acho que vou continuar a escrever sobre isso. Sou cáustico e cínico com as profissões que lhes estão associadas. Não acredito e já várias vezes pensei recorrer a elas. Pensei estar num ponto de angústia tal que precisaria de ajuda. Nunca o fiz porque escrevo. Escrever está a substituir isso muito bem e com a vantagem de evitar qualquer tentação que tivesse de recorrer a uma terapia para serenar a minha inquietude sobre o mundo.

O livro, porém, avança muito pela psicologia de cada personagem. Há sinais óbvios de depressão, de solidão, de inquietação e, ao mesmo tempo, a narrativa avança em tom de suspense com as histórias cruzadas que cria e com uma estética que fura a sintaxe. O que há de si neste romance?
Há muito. Não pensei na forma do romance, comecei a escrevê-lo e depois reparei que faço pela primeira vez a figura do narrador clássico.

Você é o grande narrador que deixa que as pessoas falem...
Exatamente. Nos outros livros não. Talvez seja uma escola antoniana em que as personagens interpelam diretamente o leitor, tudo é escrito na primeira pessoa, há uma exposição total. E, nesse sentido, as personagens são mais claras quanto ao que são e ao que sentem. Neste livro, o meu papel alterou-se, sou o narrador e estou entre o leitor e as personagens, estou sempre a chamar a atenção para isto e aquilo, mas nunca justifico o porquê.

Há uma razão para isso?
Porque sou totalmente contra a arte demasiado exposta e explicativa, é a chamada arte para totós. Eu tenho de deixar espaço para o leitor fazer a sua leitura, literalmente. Limito-me a fazer a ponte.

Além disso, há uma ligação constante entre o passado e o presente, entre os vivos e os mortos... É um livro sobre a ausência. Concorda?
Sim. E sobre a solidão também, e iria até mais longe, é um livro com passagens violentas e um livro que tem filhos da puta. É que eu muitas vezes escrevo contra. Materializo os meus medos e os meus ódios. Quando escrevo, desenho um saco de boxe onde possa dar murros.

PESSOAS. Rodrigo Guedes de Carvalho assume que é acima de tudo um leitor de pessoas, e é sobre elas que diz querer escrever sempre

PESSOAS. Rodrigo Guedes de Carvalho assume que é acima de tudo um leitor de pessoas, e é sobre elas que diz querer escrever sempre

joão lima

Há também o aflorar de vários crimes, assédio, violação, pedofilia...
É isso, e é tudo muito violento, muito cru e muito rápido. É o tal escrever contra, como acho que acontece aos grandes escritores e aos grandes cineastas. Nos meus livros, estes filhos da puta têm de estar lá. Eles são fortes do ponto de vista dramático e preciso de lhes dar porrada porque os odeio. Odeio os medíocres, os dissimulados, e hei de sempre escrever contra eles. Vão estar lá feios como são, com as suas ações terríveis e com os nomes todos, com o foda-se e o caralho... É assim que os quero lá.

Mas depois há o contraponto com as outras personagens, que acabam por ser as vítimas.
Depois há o contraponto. No limite, a apetência máxima de todo o criador é o belo. Ansiamos pelo belo, queremos viver rodeados pelo belo, o sublime, o arrebatador.

Fala da perfeição?
Não, tudo isto são palavras ligadas ao amor, não à perfeição. No fundo, estamos sempre a escrever sobre duas coisas: amor e morte. Não escrevemos sobre outra coisa.

Este livro é claramente o amor e a morte.
Sim. É a ânsia de um e o medo de outro. É uma história de amor. O amor é uma força arrebatadora que nos faz superarmo-nos, esquecermo-nos de nós. Podemos senti-lo por um familiar, por um amigo, por uma causa, por um animal...

Que ideia quis dar ao leitor com a arquitetura do livro, construído quase como um puzzle?
Quis dar a ideia de que há um comboio a partir da estação A e outro que está a partir da estação B. O que é que vai acontecer? Como nos exercícios de matemática.

É uma escrita cerebral.
Apenas no sentido em que determinei que o percurso seria este. Não posso escrever ao deus-dará. De facto, depois de escrever 30 páginas, escrevi o fim do livro. Gostei daquele tom mais confessional, mais do escritor do que do narrador. E a seguir fui então ligar as duas partes. Sabia onde queria chegar.

Aqui temos uma profusão de personagens que têm na música o elo de ligação. A música que surge como uma espécie de harmonia, de equilíbrio ou até de salvação para cada uma delas. É propositado?
A música aqui nasce da minha grande paixão. Mas também por ser um elemento dramático de tão indizível. Ela entra aqui acima de tudo por via de uma experiência pessoal. Um dia estava no Chiado e vi um puto a tocar violino muitíssimo bem, e ninguém lhe estava a ligar nenhuma. “Porque é que as pessoas não estão a escutá-lo?”, interroguei-me e decidi que era sobre isso que ia escrever.

A música no livro é mais do que isso, é um refúgio.
Certo. E isso tem a ver com o seu lado sensorial. A felicidade que seria criarmos sem nada, sem precisarmos de escrever uma única palavra, sem precisarmos de dar uma única pincelada num quadro. Preciso de trabalhar para provocar uma sensação, o pintor também, mas o músico toca um acorde de Mi menor e arrepia-nos. Essa quase inveja do poder da música foi o que tentei pôr no papel. Escrevi sobre o escape sensorial que se traduz no belo que a música transporta.

Escreve no livro que “os escritores não têm de sentir nada, ou querer significar nada, têm é de escrever”. É assim?
É. Li recentemente uma entrevista do Bruno Vieira Amaral em que ele dizia o mesmo: se és escritor, senta-te e escreve. O que ele quer dizer é que não podemos arranjar desculpas. Temos é de pensar em provocar no leitor um sentimento. O problema é que as estantes das livrarias estão cheias de livros que não são literatura. A literatura é uma estética.

E tem muito cuidado com isso...
Sim. A minha estética literária é para provocar uma visão cinematográfica. Não classifico como literatura um trabalho que não aposte na estética. Mas também não aposto no estilo esvaziado de sentido.

A família e o lugar de onde vimos fazem aquilo que somos no presente, como as suas personagens parecem provar?
Sim. Todo o ambiente onde crescemos e aquilo que nos rodeia constroem o que somos. Às vezes traumatiza-nos e paralisa-nos, outras faz-nos aprender a lição. Mais do que um escritor, sou um leitor de pessoas. É o meu passatempo que depois se transformou na escrita. A única coisa que quis fazer, uma vez que optei por ser o narrador, foi apresentar as personagens num presente e dar-lhes um passado para dar mais pistas ao leitor para que ele faça a sua ideia da sua construção.

E para lhe dar densidade, não?
A minha preocupação são as pessoas e só vou escrever sobre as pessoas, não vou escrever sobre mais nada.

O livro também é de uma tristeza enorme. O mundo é assim tão triste?
Sim. E isso nunca me sai da cabeça sem me paralisar. Ajuda-me a balizar o meu lugar no mundo pensar que esse mundo é triste, e triste no sentido em que nunca me esqueço das pessoas que realmente sofrem. Penso sempre nos que estão pior do que eu e nos que são melhores do que eu.