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12 de maio de 1982: o ataque falhado a João Paulo II contado pelos seguranças que o salvaram

O padre espanhol Juan Fernandez Krohn tinha nas mãos uma baioneta mas foi detido a tempo pelo corpo de segurança do Papa João Paulo II

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Operacionais da PSP revelam como defenderam o Papa do ataque do padre espanhol, Juan Khron

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Noite da procissão das velas, em Fátima. O corpo de segurança do Papa João Paulo II, composto por trinta homens, fazia um cordão humano que o protegia da multidão na escadaria do Santuário. “Ouvi mais do que uma vez um indivíduo a dizer repetidamente: ‘Quero beijar el Papa’. De início não dei grande importância pois todos queriam beijar o Papa”, recorda o subintendente da PSP, David de Azevedo, responsável pela segurança pessoal do Sumo Pontífice.

Era a primeira visita de Portugal de Karol Wojtyla, que vinha agradecer a proteção do ataque cometido pelo turco Ali Agca, na Praça de São Pedro, em Roma, no ano anterior. João Paulo II, que esteve em perigo de vida, garantiu que Nossa Senhora de Fátima o ajudou a manter vivo.

No Santuário, já quando o Papa se preparava para entrar na basílica, onde ia celebrar a missa, um homem com trajes escuros de sacerdote lançou-se contra a comitiva papal. “Atirou-se contra nós. Imediatamente largámos os braços uns dos outros para ele perder o equilíbrio e acabou por cair no chão”, lembra o subintendente, hoje com 78 anos.

Coronel Bívar de Sousa: “O padre espanhol Juan Fernandez Krohn foi agarrado na altura própria.”

Coronel Bívar de Sousa: “O padre espanhol Juan Fernandez Krohn foi agarrado na altura própria.”

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O atacante tinha nas mãos uma baioneta de uma espingarda Mauser com que ainda tentou atingir o sacerdote polaco. “A ponta do sabre ficou a 20 centímetros dos pés do Papa”, assegura David de Azevedo, que ainda se recorda das palavras de Juan Fernandez Krohn, um padre integrista espanhol de 32 anos, que tinha viajado de Paris com a missão de matar João Paulo II: “Não me deixem linchar.”

Aquela passagem de Karol Wojtyla por Portugal, que também esteve em Lisboa, Braga, Coimbra e Vila Viçosa, está gravada na memória do ex-comandante da Divisão de Segurança da PSP de Lisboa, o coronel Bívar de Sousa, que acompanhou o Papa nas viagens de helicóptero e de carro pelo país e até dormia no quarto do lado do Sumo Pontífice. “No cortejo de carro, junto ao aeroporto, as pessoas mandavam objetos na nossa direção. As intenções eram boas mas havia o risco de acertarem no Papa”, conta o militar, que ia ao lado do condutor no Mercedes branco sem proteção à prova de bala (ainda não havia Papamóvel). A comitiva foi atingida com terços, pequenos santos “e até um pão”. Nessa altura, o coronel foi obrigado a levantar-se do lugar e a colocar-se entre a multidão e o Papa para não haver ferimentos.

O dispositivo policial em Fátima estava preparado para todo o tipo de cenários, inclusive para um ataque semelhante ao de Juan Fernandez Krohn. “Na altura não havia computadores, mas todos os elementos da segurança comunicavam por rádio.” Bívar de Sousa não considera sequer que tenha existido qualquer tipo de tensão antes, durante e depois da tentativa de homicídio em Fátima. “O padre espanhol foi agarrado na altura própria.”

Subcomissário Ramalhete: “Os meus colegas agarraram-no e tiraram-lhe o sabre da mão. Eu só evitei que o Papa fosse apunhalado.”

Subcomissário Ramalhete: “Os meus colegas agarraram-no e tiraram-lhe o sabre da mão. Eu só evitei que o Papa fosse apunhalado.”

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Outro interveniente importante da noite de 12 de maio foi o subcomissário Ramalhete, o homem que coordenava as equipas de segurança do então primeiro-ministro, Francisco Pinto Balsemão. Foi ele quem desviou o braço quando o padre integrista tentou romper a barreira de segurança que protegia João Paulo II. “Os meus colegas agarraram-no e tiraram-lhe o sabre das mãos. Eu só evitei que ele fosse apunhalado”, diz o subcomissário que em poucos segundos foi atrás do Papa para o proteger, que era a sua missão.

O ex-operacional da PSP, então com 35 anos, conta que quando João Paulo II se apercebeu do que acontecera voltou atrás e abençoou Juan Fernandez Krohn, que pouco antes gritava frases como “Abaixo o Papa e o Vaticano II”. E a visita papal prosseguiu.

Anos depois, um responsável do Vaticano lançou um livro a contar que o Papa tinha sido apunhalado. Algo que de acordo com o subcomissário não corresponde à verdade: “O único sangue era do dedo do subchefe Moura, que fez um corte pequeno ao retirar o sabre.”

O padre espanhol foi detido e condenado a seis anos e meio de prisão pelo tribunal de Vila Nova de Ourém. Vive atualmente em Bruxelas.