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Vestida de Papa

A papisa Joana dando à luz. Ilustração que consta na tradução germânica do livro sobre mulheres célebres, “De Mulieribus Claris” (de 1374) , impressa em 1474

d.r.

Ao longo dos tempos, têm surgido inúmeras histórias em que a protagonista é uma mulher disfarçada de homem, mas a mais universal é, sem dúvida, a da Papisa Joana, cujo nome não consta, porém, do rol dos 267 Papas que já governaram a Igreja de Roma. Este artigo foi publicado originalmente na revista do Expresso de 8 de maio de 2010

E desde essa data, para que não haja outra Papisa, os candidatos são sujeitos a um ritual de descodificação do género... São sentados numa cadeira com um buraco no centro, através do qual dois diáconos se certificam, pelo tato, de estar em presença de um exemplar masculino, para poderem gritar: “Temos Papa!” Terá sido assim desde 855 até ao ano da entronização de Leão X, em 1513. Ou talvez não. A cadeira existiu, aliás havia duas durante a cerimónia no Palácio de Latrão, antiga morada dos governantes da Santa Sé, mas também é admissível outra explicação: as cadeiras eram perfuradas para facilitar os banhos dos romanos e foram escolhidas para o ritual, dado o seu valor histórico.

Agnés, Gerberta, Gilberta, Joana, Isabel, Margarida, Doroteia ou Justa, conforme o autor e a língua, veio ao mundo em 814, ano em que morreu o primeiro Imperador do Sacro Império Romano, Carlos Magno, o responsável pela saída de Inglaterra dos progenitores da futura Papisa. Joana - chamemos-lhe assim, já que foi João o nome escolhido quando se transformou em homem - nasceu perto de Mayence, hoje cidade de Mainz, numa aldeia onde o pai, padre inglês enviado para a Alemanha para participar na conversão do povo ao cristianismo, se refugiou com a menina que engravidara e raptara.

Bela e inteligente

Em terras germânicas, foi educada até se tornar numa rapariga que aliava a beleza à inteligência, deixando de boca aberta alguns doutos da época. Mas a vida não é só estudo, nem mesmo nestes tempos remotos do século X, e Joana apaixonou-se por um rapaz inglês que por si se encantou. O problema é que o amor não era livre, muito menos para uma mulher, muito menos quando se tratava de uma paixão por um frade... Consciente da falta de alternativa (e também da vulgaridade da fuga e do rapto por amor, como fora o caso de sua mãe), resolve fugir da casa paterna e seguir o seu amado.

Um jogo difícil de suportar

O destino escolhido situava-se perto, era a abadia de Fulda, onde o seu frade beneditino vivia e estudava. Para ali entrar, apresentou-se Joana com trajes masculinos e cabelo a condizer, conseguindo enganar o futuro arcebispo de Mainz, Rabanus Maurus Magnentius, na altura o abade que acolheu mais um pupilo, satisfeito e sem desconfianças. Em pouco tempo, e apesar de ainda serem muito novos para os parâmetros atuais, os amantes não suportaram o jogo que mantinham e resolveram pôr-se a caminho de Inglaterra, levando na ideia a continuação dos estudos onde e como era possível, ou seja, sem se desligarem da Igreja e revelarem o disfarce.

Também em terras inglesas, na altura ainda uma série de pequenos reinos, não se mantiveram muito tempo. Impelidos pelo desejo de conhecer outras gentes, outros usos e costumes, andaram por França, surpreendendo religiosos eruditos. Em Marselha, embarcaram rumo a Atenas, em busca das tradições da antiga Grécia, tinha Joana 20 anos e o frade poucos mais.

Aprendendo e ensinando, ali permaneceram uma década, até uma doença súbita matar o jovem apaixonado que, segundo alguns autores, se chamava Foro e era filho do Papa Leão IV. Na tentativa de apagar o desgosto, a futura Papisa deixa os helenos e segue para Roma, onde se impõe com alguma facilidade.

A Papisa Joana, com o filho ao colo, numa gravura retirada da “Crónica de Nuremberg”, de Hartmann Schedel, publicada em 1493

A Papisa Joana, com o filho ao colo, numa gravura retirada da “Crónica de Nuremberg”, de Hartmann Schedel, publicada em 1493

d.r.

Engano até... às dores de parto

"O seu procedimento era tão recomendável como os seus talentos. A modéstia dos seus discursos e das suas maneiras, a regularidade dos seus costumes e a sua piedade, brilhavam como uma luz aos olhos dos homens", escreveu o cronista Marianus Scotus (que morreu em Mainz em 1082 e foi um dos primeiros a contar a história de Agnés), citado pelo editor francês Maurice Lachatre, no livro "História dos Papas: Mistérios e iniquidades da corte de Roma: crimes dos reis, rainhas e imperadores através dos séculos" (1893).

Joana foi-se insinuando, cativando religiosos influentes - e quando o Papa Leão IV morre, no ano de 855, consegue ser eleita para ocupar o "trono" da Igreja de Roma.

Com o nome de João III, mantém o cargo - dizem os seus biógrafos, sempre contrariados pelos partidários da lenda - dois anos, sete meses e quatro dias, até... à hora da procissão das Rogações, quando as dores de parto a fazem cair do cavalo, numa das ruas de Roma. A Papisa dava à luz um filho do seu amante, um cardeal, e os padres que a rodeavam, incrédulos, terão sufocado a criança logo ali e ela sucumbido ao parto, entre o Coliseu romano e a Igreja de São Clemente, onde se ergueu uma capela que se diz ter sido destruída tempos depois para apagar quaisquer vestígios da existência de uma mulher num lugar em que só se queriam homens.

Depois, alguns contaram a história da Joana que foi João III e muitos outros a desdisseram.

A dada altura, por volta do século XVI, até alimentou uma guerra entre católicos e protestantes, com os primeiros a acusarem os segundos de serem os seus inventores só para denegrir a igreja de Roma.

A falta de base das acusações, perante os manuscritos antigos sobre o assunto, veio reforçar a tese dos partidários da Papisa. Já recentemente, o respeitado teólogo brasileiro Estêvão Bettencourt, beneditino, dizia que o episódio da Papisa "é uma alusão às tristes condições em que se achava o Papado no século X: vários Pontífices caíram então sob a influência de três mulheres prepotentes em Roma: Teodora, esposa de Teofilacto, e suas filhas Teodora e Marócia". Mas essa é mesmo outra história...