Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Uma em cada dez pessoas ainda vive com menos de 1,90 dólares por dia

Em duas décadas, a pobreza extrema no mundo diminuiu para mais de metade. Um avanço pouco consolador, já que uma em cada dez pessoas ainda vive com menos de 1,90 dólares por dia e mais de metade dos pobres tem menos de 14 anos

Luciana Leiderfarb

Luciana Leiderfarb

texto

Jornalista

Carlos Esteves

Carlos Esteves

infografia

Infografico

Há no mundo em que vivemos vitórias que são derrotas. E o mapa da extrema pobreza a nível global representa um exemplo flagrante desta contradição — de um avanço estrondoso que se revela pouco consolador: entre 1990 e 2013, o número de pessoas abaixo do limiar de pobreza caiu para menos de metade. Isto quer dizer que em cerca de duas décadas houve uma diminuição de pessoas a viverem com menos de 1,90 dólares por dia (€1,75) — a uma média de 50 milhões de pessoas por ano a escaparem a essa situação. Porém, um em dez indivíduos no mundo ainda subsistem com essa quantia. Não há alegrias absolutas.

O relatório “Taking on Inequality — Poverty and Shared Prosperity” do Banco Mundial mostra-o com clareza. A pobreza extrema decaiu de 35% para 10,7%, mas é uma corrida de longo curso ainda sem vencedores. E está intimamente relacionada com a forma como cada região do globo lida com a desigualdade, em especial no que toca ao rendimento, e com o aumento daquilo a que o documento denomina de “prosperidade partilhada”, isto é, a melhoria das condições de vida dos 40% da população mais pobre em cada país.

“A desigualdade tem consequências e uma delas é a pobreza. Não é por acaso que as sociedades mais igualitárias são também as menos pobres. E a diminuição da desigualdade significa sempre o incremento dos escalões mais baixos”, comenta Nuno Nunes, investigador do Observatório das Desigualdades, ligado ao Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa. Por outro lado, para este professor, a redução da desigualdade tem maior impacto sobre o crescimento económico do que o aumento do rendimento dos mais ricos. “Uma noção a reter é que a desigualdade não beneficia ninguém: uma sociedade desigual produz impactos negativos que incidem, em maior ou menor grau, sobre todos os que a compõem.”

Segundo o Banco Mundial, de 2008 a 2013, em 60 dos 83 países monitorizados registou-se um aumento do salário dos 40% da população mais pobre, mesmo apesar da crise financeira. Entre estes, a República Democrática do Congo destaca-se por ser aquele em que isto aconteceu de forma mais rápida e acentuada, com um crescimento de 9,6% anual nos escalões mais baixos. A seguir estão a Bielorrússia, a China, a Mongólia e o Paraguai, com taxas de 8% — nos três primeiros, a melhoria salarial dos 40% mais pobres supera até a da média da população. No extremo oposto, a Grécia demonstrou uma contração na ordem de -10% nesse mesmo grupo, que coincide com os piores anos da crise económica no país. Houve ainda casos, como o do Camboja e dos Camarões, em que o crescimento anual se situou acima dos 3,5%. Contudo, o Camboja incrementou o rendimento dos escalões mais baixos em 6,5% enquanto os Camarões apenas o fez em 1,3%, significando que o primeiro combateu melhor a desigualdade do que o segundo.

A geografia da pobreza modificou-se em 20 anos. Deslocou-se do Leste da Ásia e do Pacífico para a África Subsariana, onde se concentram 389 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema — 50,7% do total —, seguindo-se o Sul da Ásia, com 33,4%. O que não se alterou é o perfil desta franja: os pobres são maioritariamente jovens, vivem em zonas rurais, trabalham no sector da agricultura e têm pouca educação formal. Mais de metade são crianças com menos de 14 anos, 52% das quais vivem na África Subsariana e 30% na Índia. “Não podemos olhar para a diminuição da pobreza com total otimismo. É apenas uma parte da realidade”, diz Nuno Nunes.

Por outro lado, existem vários níveis de aferição da pobreza e da desigualdade: o global, que mede o fosso entre os mais ricos e os mais pobres; o regional, que serve de comparação entre países; e o nacional, que se refere ao interior de cada país. “Tem de se perceber a importância dos contextos, pois um pobre no Canadá pode auferir um rendimento que na Índia é considerado acima da média”, sublinha o professor. Da mesma forma, ao estabelecer o limiar abaixo ou acima do qual se vive na pobreza extrema — de 1,90 dólares por dia — é preciso ter em conta “o que esta quantia representa em cada país”. Como é necessário atender também à imensa quantidade de pessoas que a ultrapassam por muito pouco, falseando as estatísticas.

É possível erradicar a pobreza?

Conceptualmente, o Banco Mundial diz que sim. Em 1990, os economistas concluíram que os custos do aumento de rendimentos acima dos 1,90 dólares diários representariam 1% do produto interno bruto global. Em 2013, essa percentagem baixava para uns irrisórios 0,2% — metade do que o mundo perde anualmente por via da evasão fiscal. Porém, como nota o relatório aqui analisado, estes cálculos apenas servem para “recordar que os montantes que nos separam de um mundo em que a totalidade dos rendimentos estivessem acima da linha internacional de pobreza são insignificantes em comparação com as flutuações do dinheiro na atual economia global”. Ou seja, que os custos de uma ação cabal contra a pobreza extrema “não são proibitivos”.

Na prática, a matemática concorre com outras variantes. Nuno Nunes cita o caso africano, onde a globalização como modelo de desenvolvimento “não está a surtir efeito”. “Trata-se de uma tentativa de transferência de modelos de desenvolvimento assentes numa economia de mercado que não tem ligação com a realidade destes países”, assevera, argumentando a favor de uma “estrutura económica adaptável de cooperação e não de usurpação“. O especialista dá o exemplo de um dos países mais pobres do mundo, ao qual paradoxalmente não faltam recursos naturais. “A Nigéria tem petróleo e, graças ao extrativismo de recursos, não ganha nada com isso”, explica. Multipliquemos a Nigéria por quinhentos e teremos como resultado não só a geografia da pobreza mas também da responsabilidade.