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Sociedade

Relato da negociação que acabou em greve

Na próxima semana, nos dias 10 e 11, os médicos 
estão em greve

Ant\303\263nio Pedro Ferreira

Governo admite que “não há condições” para reduzir horas na urgência. Médicos avançam para a greve e criam vídeo motivacional no Facebook. Um ano e 16 reuniões depois, a negociação fracassou

“Infelizmente, a greve mantém-se.” A mensagem que o líder do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), Jorge Roque da Cunha, enviou para o grupo de WhatsApp que partilha com os outros dirigentes da estrutura sindical, às 12h24 de quinta-feira, ainda dentro da sala onde decorreu a reunião no Ministério da Saúde, dava conta do fracasso das negociações. E era o sinal para que os colegas intensificassem o apelo aos médicos para aderirem à greve que decorre na próxima semana, nos dias 10 e 11, véspera da vinda do Papa.

Apesar das tentativas de aproximação, o Ministério da Saúde (MS) revelou na reunião a grande preocupação do Governo: as urgências. Os dois secretários de Estado da Saúde presentes, Manuel Delgado e Fernando Araújo, admitiram que “não há condições” para diminuir de 18 para 12 o número de horas semanais dos médicos na urgência, por se recear a rutura dos serviços. Uma confissão que não constava tão taxativamente na proposta enviada aos sindicatos a 18 de abril, onde o MS propunha uma “ponderação da redução progressiva, num horizonte de três anos, para 12 horas do trabalho normal semanal nos serviços de urgência, interna, externa, unidades de cuidados intensivos e de cuidados intermédios”. Agora, na última proposta ministerial remetida aos sindicatos na quarta-feira à noite, o ministro da Saúde reconhecia que não podia assumir a medida, pedia tempo e dizia estar disponível para “estudar” uma redução faseada durante a legislatura. Mas os sindicatos recusaram, insistindo que os médicos têm de fazer apenas 12 horas, mais outras 12 pagas como extra, em vez de 18 horas, mais 6 extra.

Katy Perry no apelo à greve

“Esta, como outras medidas, foi acordada em 2012 com o ex-ministro Paulo Macedo para o período de vigência do programa de ajuda financeira, que já terminou”, alega Mário Jorge das Neves, presidente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM). Por isso, os sindicalistas não aceitam esperar mais e estão a partilhar no YouTube e no Facebook um vídeo, inédito, de motivação à greve, ao som da música de Katy Perry ‘Chained to the Rhythm’. Com o título ‘Vamos, Colega?’, o vídeo de incentivo à participação na paralisação foi feito por uma pediatra do Hospital de Viana do Castelo e dirigente do SIM.

“Os números de adesão à greve vão ser decisivos para determinar as futuras negociações”, explica fonte ligada ao processo. Aliás, segundo o líder do SIM, os sindicatos já informaram o ministro da Saúde que estão disponíveis para retomar as reuniões a 12 de maio e avisaram que, caso elas “não sejam retomadas, estão dispostos a avançar para outra greve”.

O ministro da Saúde, por seu lado, vai enfrentar a sua primeira greve médica. Um dos promotores, Mário Jorge das Neves, já esteve ao seu lado, nos tempos de universitário, na direção da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa.

Adalberto Campos Fernandes tem noção da fragilidade das datas escolhidas: uma quarta e quinta-feira, véspera da sexta-feira em que há tolerância de ponto por causa da vinda do Papa. Mas, segundo fontes próximas, nos últimos dias, o ministro foi-se preparando. No seio da equipa ministerial corre, aliás, a ideia de que os sindicatos já estavam “decididos a ir para greve”. E estavam. Na véspera, após receberem a proposta da tutela, os líderes sindicais combinaram que iriam à reunião fazer uma ‘declaração de guerra’, e discretamente o vídeo feito pela pediatra entrou na internet.

Os elementos da equipa do MS tiveram a certeza de que as negociações tinham fracassado ainda antes da última reunião, quando perceberam que no 3º andar do Ministério da Saúde — onde decorreu o encontro — apenas estavam Mário Jorge e Roque da Cunha, sem a equipa de sindicalistas que os costuma acompanhar. E, dentro da sala, nem o facto de na mesa retangular estarem duas técnicas das Finanças e uma da Administração Pública, cuja presença tinha sido exigida pelos sindicatos, alterou o destino.

Ao longo de mais de um ano e 16 reuniões estiveram em cima da mesa cerca de 25 medidas, mas os sindicatos focaram as exigências na redução da carga de trabalho: corte nas horas de urgência, por semana, e das horas extra, por ano, e redução das listas de utentes dos médicos de família. No último encontro, o Governo ainda os tentou convencer, recordando que algumas imposições estavam satisfeitas, mas, ao fim de 50 minutos, as negociações terminaram. Antes de se despedirem, os secretários de Estado deram os parabéns ao líder do SIM, que fazia 57 anos e que, como médico de clínica geral e familiar, fez greve duas vezes na vida: uma na época de Leonor Beleza e outra na de Paulo Macedo. Agora será a terceira.