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#Porto. O amor e uma varanda

A Avenida dos Aliados vista de uma varanda do Hotel Intercontinental Porto - Palácio das Cardosas

d.r.

O bom de passar tanto tempo sem ir ao Porto é que descubro uma cidade nova a cada visita.

Regresso ao Porto muito menos do que devia desde que vim para Lisboa há seis anos. De início, ia uns três fins de semana por mês, mas, de tanto tempo passado na estrada, voltava mais cansado do que tinha ido e sentia que não pertencia a lado algum. Agora, não vou mais de meia dúzia de vezes por ano e em todas elas parto com o peso da culpa de não dar a devida atenção à família e aos amigos. Invariavelmente, acabo por acreditar que vou regressar mais depressa do que depois acontece.

O bom de passar tanto tempo sem ir ao Porto é que descubro uma cidade nova a cada visita. Acabo sempre por me apaixonar de novo, como se tivesse mil oportunidades para um amor à primeira vista. Como no “Porto Sentido”, que o Carlos Tê escreveu para o Rui Veloso, “é sempre a primeira vez em cada regresso a casa”. Só por isso, já vale a pena.

Numa das últimas vezes que lá fui, no Natal, fiquei trancado à noite numa varanda do Hotel Intercontinental - Palácio das Cardosas. Enquanto o frio me enregelava o corpo e eu pensava se devia usar o robe para dar um murro no vidro, foi como se a cidade me segredasse ao ouvido: “Relaxa. Não estás bem aqui?”. Só então, olhando a Praça da Liberdade aos meus pés e vendo os Aliados estenderem-se até à Câmara Municipal, percebi que há coisas piores do que ficar fechado na varada de um dos mais bonitos e luxuosos hotéis da cidade e poder apreciar o tanto que ela mudou em tão pouco tempo.

A Rua das Flores é um dos melhores exemplos da renovação que o Porto sofreu nos últimos anos

A Rua das Flores é um dos melhores exemplos da renovação que o Porto sofreu nos últimos anos

Lucília Monteiro

A recuperação do antigo Convento dos Loios, onde o hotel está instalado, é uma boa metáfora do Porto de hoje: uma cidade que preserva as suas raízes históricas, mas que lavou a cara, engalanou-se e se exibe mais orgulhosa do que nunca. O “Porto Sentido” continua a ser uma das mais bonitas declarações de amor à Invicta, mas a cidade de que o poema fala é hoje uma memória distante. Da Ribeira até à Foz há cada vez menos pedras sujas e gastas e já nem os lampiões são tristes e sós. Até a luz da cidade se tornou menos sombria.

Para o perceber nem é preciso ir muito longe. Basta descer a renovada Rua das Flores, em direção à Ribeira, e ver como os edifícios outrora cinzentos deram lugar a fachadas coloridas e a negócios que nos convidam a entrar ou, simplesmente, a ficarmos sentados numa esplanada e deixarmos o tempo correr sem pressa. Há duas semanas, entrei por acaso na Cantina 32 e já lá voltei duas vezes. Andava distraído, porque até o “New York Times” já a descobriu. O espaço é um encanto e a comida uma garantia de regresso: a abrir há pão com manteiga de banana e flor de sal, a fechar um cheesecake de bolacha Oreo e banana caramelizada. Não estranhe se depois de o pedir lhe trouxerem à mesa um pequeno vaso com uma planta. Arrisque. Vai ver que é imperdível.

O restaurante Cantina 32 é ponto de paragem obrigatório na Rua das Flores.

O restaurante Cantina 32 é ponto de paragem obrigatório na Rua das Flores.

Rui Duarte Silva

Alguns amigos alertam-me para os efeitos da “turistificação” do Porto – descaracterização, perda de autenticidade, rendas e imóveis mais caros, etc. –, à semelhança do que vem acontecendo em Lisboa e, muito antes, noutras grandes cidades europeias. E ainda que seja prudente não ignorar os avisos, sempre que os ouço sinto-me como o Woody Allen em “Manhattan”: “O meu psicanalista avisou-me, mas eras tão bonita que arranjei outro psicanalista”.