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Por que motivo as grávidas devem fugir do açúcar

Ian Waldie

O médico nutricionista francês Pierre Dukan escreveu um novo livro dedicado à alimentação na gravidez. Aí, explica a importância de não comer açúcar em excesso durante a formação do feto. E detalha porque é que a cocaína é menos aditiva que este doce veneno

O último livro do médico nutricionista Pierre Dukan chama-se "Os seis meses que podem mudar o mundo" (2017) e nele chama a atenção para os perigos para o feto do consumo excessivo de açúcares brancos durante a gravidez. Muito disto acontece na altura da formação do pâncreas, ao 3º, 4º e 5º mês de gestação, que será responsável pela secreção da insulina (fundamental na regulação de doenças como a diabetes). "A formação do bebé durante a gravidez é uma sinfonia absolutamente precisa", defende o médico, "e tudo está previsto, exceto que a mãe consuma muito açúcar processado", afirma.

O último livro do médico nutricionista alerta para os cuidados alimentares a ter na gravidez

O último livro do médico nutricionista alerta para os cuidados alimentares a ter na gravidez

LOIC VENANCE

O consumo excessivo de açúcar tem como consequência não só o aumento de peso do bebé, mas também que o feto desenvolva um pâncreas mais vulnerável, que fabrica mais insulina, mais gordura e que se cansa mais. Isso explica o aumento da diabetes gestacional, mas também o aumento de crianças que desenvolvem essa doença. "Antes de 1970 não havia crianças com esta patologia", assegura o médico. A diabetes tipo 2 era uma doença de velhos. Hoje, esse índice aumentou brutalmente nos países mais desenvolvidos, a par da obesidade. E a culpa é dos alimentos processados e da indústria alimentar, cada vez mais apostada em criar alimentos viciantes e com açúcares escondidos.

Por exemplo: a lactose, presente em vários produtos lácteos (leite, iogurtes, queijo...), é um açúcar. O molho de tomate que compramos em frasco tem açúcar. Como o fiambre. E cada vez mais produtos fabricados pela indústria alimentar têm elementos processados, que são danosos para a saúde. "70% do que comemos hoje em dia é industrial", afirma o médico nutricionista. "No cérebro, temos um centro de recompensa que 'pede' açúcar e adora - é como uma droga." E cita um estudo científico realizado pelo INSERM (Instituto Nacional da Saúde e Investigação Médica de França), que realizou uma experiência no laboratório com hamsters. Esta consistia no seguinte: durante 15 dias, os ratinhos foram viciados em cocaína e, ao fim desse tempo, foi-lhes dado um biberão de açúcar. A verdade é que os roedores passaram a preferir o açúcar à cocaína...

Os truques dos alimentos processados

Um dos principais problemas é que, nas últimas décadas, a indústria alimentar empenhou-se em criar alimentos que geram dependência. Assim, tem aumentado muitíssimo a utilização de substâncias químicas que intensificam o sabor dos alimentos, como o ácido glutâmico. Batatas fritas, presunto, tomate, cogumelos ou queijo parmesão são exemplos de alimentos carregados de substâncias químicas, como o glutamato, inosinato ou guanilato, aditivos que levam ao aumento da salivação.

"Só existe uma sensação que dá mais prazer do que a comida: o orgasmo", afirma Dukan. "Mas dura 4 segundos e a produzida pela comida dura horas..." O médico francês alerta para o crescendo da diabetes no mundo e para o facto de estarmos a criar uma geração de gordos, com todos os problemas de saúde que isso implica. Recorde-se que de 1980 para cá, a incidência desta doença na população mundial quadruplicou: segundo dados da Organização Mundial de Saúde, em 1980 havia 108 milhões de diabéticos e em 2014 há 422 milhões. Em Portugal, em 2015, a diabetes tipo 1 nas crianças e nos jovens atingia 3.327 indivíduos com idades entre os 0 e os 19 anos.

Se pudesse deixar um único conselho às mulheres grávidas, alertando para os perigos do consumo excessivo de açúcar, o médico Pierre Dukan diria: "Comam como as vossas avós". No tempo em que a comida era fresca e quase nada vinha em pacotes.