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“O racismo é sempre um projeto político”

Negros vistos como animais exóticos, o erotismo da mulata, a dureza dos traços fisionómicos dos judeus a acossarem Jesus — armas da guerra colonial transformadas em obra de arte integram a exposição que se inaugura hoje no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa. “Racismo e Cidadania”, organizada pelo historiador e professor do King’s College Francisco Bethencourt, confronta os visitantes com a ferida da colonização portuguesa e questiona o papel da Europa num mundo cada vez mais miscigenado e acossado por nacionalismos

Christiana Martins

Christiana Martins

(entrevista)

Jornalista

Porquê uma exposição sobre racismo e cidadania?
Essa tensão existe em todo o mundo. Qualquer expansão envolve subordinação. Portugal foi uma potência colonial e participou da expansão europeia que desencravou do isolamento muitas regiões, mas resultou também numa hierarquização dos continentes, identificados com tipos humanos, em que a Europa aparece numa posição superior, criando um lastro que se arrastou até ao final do século XX.

Diz que o racismo não é inato. Não sendo, porque não desaparece? Está a renascer?
O racismo resulta de preconceitos quanto à descendência étnica, combinados com ação discriminatória. É sempre desencadeado por projetos políticos, não é inocente e quer excluir minorias e monopolizar recursos por parte de alguns grupos étnicos ou sociais. A globalização trouxe insegurança e o problema fundamental hoje não é a desigualdade, que continua a crescer, mas a insegurança no emprego. A robótica precisa cada vez menos do trabalho humano e a estagnação da economia cria espaço para o surgimento de movimentos que transformam refugiados e imigrantes em alvos. Mas o grande problema da Europa é a perda de peso político e económico devido ao declínio demográfico. Só pode resolver-se pela imigração e Portugal é um caso típico: o país mais envelhecido e com menor natalidade da Europa.

Os novos nacionalismos são um racismo não cromático?
Os nacionalismos bebem muito do racismo. As teorias das raças desenvolveram-se a partir do século XVI, com a ideia da população autóctone homogénea, o que não é verdade porque as populações europeias são miscigenadas. Este é este o lado sombrio do nacionalismo. E da democracia, porque na segunda metade do século XIX desenvolveu-se um nacionalismo de base liberal, em que o problema era saber quem era definido como cidadão e quem era excluído, esbarrando sempre nas minorias.

A exposição confronta os portugueses com o lado sombrio da colonização?
As expansões têm um lado sombrio e a forma saudável de lidar com o passado não é varrê-lo para debaixo do tapete.

Como quando não se diz que a miscigenação promovida por Portugal se baseou em violações?
A melhor maneira de lidar com o passado é tomar consciência e libertarmo-nos dele.

Em visita ao Senegal, o Presidente não assumiu o passado esclavagista de Portugal.
Ele tem uma visão otimista do país e do passado, que só lhe fica bem, mas a minha função é diferente. Devo mostrar as várias dimensões do passado.

Os EUA elegeram um Presidente negro, Portugal tem um primeiro-ministro de origem goesa. O Brasil, onde se diz não existir racismo, nunca teve um Presidente negro. Como perceber a cor na política?
Desde 1974 houve em Portugal um movimento de integração, que embora longe de refletir as minorias do país, trouxe avanços. A eleição de Obama foi um marco histórico, cujo preço estamos a pagar. O Brasil é o caso mais complicado, com um problema de continuidade da elite colonial.

O racismo irá aumentar?
Os processos históricos são precários, é impossível prever. Vivemos um momento muito difícil de transição. Os nacionalismos aproveitam-se da revolução tecnológica, das dificuldades económicas e nas transições há sempre grupos sociais que perdem. É fundamental que os governos apoiem a economia social e reciclem os trabalhadores, por questões éticas e económicas, porque a exclusão não contribui para o desenvolvimento. Os países que melhor absorvem a imigração são os que se têm desenvolvido melhor.