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Mulheres sozinhas já engravidam em Portugal

GETTY IMAGES

No Serviço Nacional de Saúde, as primeiras candidatas à Procriação Medicamente Assistida, sem companheiro, ainda esperam por consultas, mas já há solteiras grávidas no privado

“Eu falo com os babes, aviso-os de que vou tomar banho, de que vou dançar. Eles já fazem parte da minha vida”. É assim, entusiasmada e sem auto defesas para o caso de algo ainda poder correr mal, que Aida Eugénio fala dos gémeos de 14 semanas que aconchega carinhosamente na pequena barriga. Magra, alta, são os seios de grávida que mais chamam a atenção. Aos 40 anos, será provavelmente a primeira mulher sem companheiro em Portugal a gerar crianças ao abrigo da legislação que permite, desde janeiro, a mulheres sozinhas engravidarem com recurso à Procriação Medicamente Assistida.

Os dados do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA) ainda são muito preliminares mas já permitem perceber que havia mulheres à espera da publicação da legislação para iniciarem os tratamentos. O alargamento dos beneficiários arrancou, na prática, no início deste ano e, em cerca de quatro meses, 16 tratamentos foram comunicados ao organismo a quem cabe pronunciar-se sobre as questões éticas, sociais e legais da PMA.

Nem todos os procedimentos resultarão em gestações viáveis e nem todas as mulheres serão mães à primeira tentativa, mas os números provam que não quiseram perder tempo. Contactado pelo Expresso, o CNPMA alerta que os dados “têm de ser analisados com muita reserva, pois com toda a certeza não representam a totalidade dos ciclos realizados”. Ou seja, há mais mulheres sozinhas a submeter-se a tratamentos reprodutivos em Portugal. A razão para a ausência de números é que o prazo máximo para o registo dos procedimentos efetuados este ano acaba a 31 de março de 2018. Até lá, será impossível perceber qual o real aumento da procura.

Dos 16 tratamentos reprodutivos comunicados, sete foram inseminações artificiais, realizadas em mulheres solteiras, mas dos nove procedimentos mais complexos (fertilizações in vitro e injeções intracitoplasmáticas), apenas um foi feito a uma mulher divorciada, sendo as restantes oito, solteiras. Aida Eugénio está a ser acompanhada na IVI, clínica privada com sede em Espanha, onde iniciara o tratamento em 2015, quando ainda não era possível às mulheres sozinhas tentarem engravidar em Portugal. E, apenas neste centro em Lisboa, 40 mulheres sem parceiro masculino estão a ser tratadas, sendo que, mensalmente, desde a aprovação da legislação na Assembleia da República em junho do ano passado, há cerca de 30 mulheres que querem realizar as primeiras consultas.

Outro dos grandes centros privados de reprodução do país, a AVA, de origem finlandesa, disse ao Expresso ter também “dezenas de mulheres em tratamentos reprodutivos”. No SNS, o ritmo é mais lento. No Centro Hospitalar de Lisboa Central, onde está integrada a Maternidade Alfredo da Costa, 20 mulheres sem parceiro inscreveram-se para a Consulta de Apoio à Fertilidade. As primeiras consultas terão lugar este mês. No Hospital de Santa Maria, com uma lista de espera de cerca de dez meses, as candidatas ainda não foram às primeiras consultas, segundo Carlos Calhaz Jorge, diretor do Centro de Procriação Medicamente Assistida do Centro Hospitalar Lisboa Norte – Hospital de Santa Maria.

Devagar, devagarinho

Acostumada a uma vida preenchida por uma carreira intensa na área financeira e por muita diversão, entre viagens e idas a discotecas, Aida Eugénio acordou um dia, depois da morte repentina do pai, e percebeu que queria mais. Muito mais. Divorciou-se do homem que namorara cinco anos, com quem vivera joutro ano e com quem estivera casada por meia década. Percebeu que chegara a hora de ser mãe. Sozinha. Tinha 37 anos. “Era um projeto individual”, conta.

Sem companheiro do sexo masculino, mas nunca solitária. Aida assumiu a maternidade acompanhada pela família: a mãe, as duas irmãs e a sobrinha de 16 anos. Tomada a decisão, pesquisou tudo o que encontrou na internet, começou a fazer psicoterapita para preparar a parte emocional e escolheu onde seria tratada. “Quis o melhor, poderia ter ido a Londres ou à Noruega, mas optei por Madrid”, afirma. E, em maio do ano passado submeteu-se a uma inseminação artificial.

“Não é fácil, cheguei a picar-me cinco vezes num mesmo dia, mas nunca pensei desistir”, partilha, sempre bem disposta. Passados 12 dias da inseminação, estava no trabalho, quando recebeu uma chamada de Madrid. Não atendeu, não teve coragem. “Não estava preparada para ouvir a notícia”, desabafa Eugénia, que acabou por ver num email que aquela gravidez não iria evoluir.

Falhada a primeira tentativa, Aida voltou à carga. “Qualquer pessoa que começa um processo destes pensa que terá sucesso à primeira”, desabafa. O verão de 2016 foi de forte depressão até que a coube à sobrinha dar-lhe a boa nova: “Tia, já não precisas ir a Madrid, foi aprovada a lei que permite às mulheres sozinhas engravidar em Portugal!” O processo foi transferido para Lisboa e em setembro recomeçou a tentar.

A primeira medida foi colocar as emoções em ordem, através de um intenso trabalho de psicoterapia. E, mal completara 40 anos, decidiu, com a equipa médica, que a melhor opção passaria por realizar uma “acumulação de ovócitos”, ou seja, antes de avançar com nova técnica de implantação, promover uma selecção dos melhores gâmetas por ela produzidos.

Durante o processo e reconhecendo que seria ajudada por alguém que lhe daria os espermatozóides, autorizou que os embriões que não viesse a utilizar poderiam ser doados. E como em Espanha tinha feito um teste de compatibilidade genética, para despeitar qualquer eventual doença, recorreu ao dador de Espanha e os gâmetas masculinos para os seus bebés vieram de avião. A 16 de janeiro, tudo estava pronto e Aida submeteu-se a uma fertilização in vitro. Dois embriões foram implantados no seu útero e ainda lá estão.

É difícil limitar o perfil das mulheres sozinhas que vão aos centros reprodutivos em Portugal, mas terão mais de 36 anos, carreiras profissionais consolidadas e a quem o relógio biológico desperta a urgência de uma maternidade. Catarina Godinho, ginecologista da IVI, tem acompanhado várias destas mulheres, que chegam ao centro acompanhadas pelos pais, mães, a melhor amiga ou até sozinhas e, conta, até já surgiram virgens, que nunca encontraram o parceiro ideal, mas não abrem mão do sonho da maternidade.

Assim que chegam ao centro, têm de passar por uma bateria de exames de avaliação geral, colocar sobre a mesa da equipa médica os antecedentes pessoais, desenhar o perfil hormonal e, no caso da clínica de origem espanhola, dependendo da idade da candidata, passar por um exame de permeabilidade das trompas. Os custos rondam os 1500 euros para as mulheres que recorrem às inseminações e cinco mil euros para os procedimentos mais complexos.

Informadas, conhecem a legislação e, quando não sabem, descobreme que não poderão escolher as características do dador de esperma. A norma é respeitar os traços da mulher que se submete aos tratamentos. Aida é alta, magra e diz ter sido loira até à juventude. Assim, os seus gémeos poderão ter cabelo claro e nascer com olhos “castanho mel verdosos”.

Quando não se tem parceiro, a pressão emocional pode aumentar e as mulheres sozinhas têm de estar preparadas para lidar com as taxas de sucesso destes procedimentos. A IVI diz que nas inseminações artificiais intrauterinas a eficácia é “um pouco superior a 20%”, nas fertilizações in vitro (FIV), ronda 45%, se incluídas todas as faixas etárias, e nas FIV com doação de ovócitos, 65%.

Aida não está preparada para falar em falhanços. Focada no sucesso, trocou as discotecas por bares tranquilos e acabou, para já, com as viagens. Contou no trabalho, vai se acostumando a um corpo mais arredondado e conversando com os “babes”. E grava tudo o que lhe acontece para contar às crianças.