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Caso Maddie. As peças que nunca encaixaram

foto Jeff J Mitchell/Getty

Uma menina inglesa de quatro anos desapareceu na noite de 3 de maio de um empreendimento turístico na praia da Luz, em Lagos. Investigadores falam em pistas que podiam ter sido seguidas mais a fundo e testemunhas contam pormenores novos de um pesadelo com dez anos que parece não ter fim à vista. Madeleine teria hoje quase 14 anos. Ou terá

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Rui Gustavo

Rui Gustavo

Editor de Sociedade

Há poucos mistérios tão densos como o do desaparecimento de Madeleine Beth McCann, uma criança inglesa nascida a 12 de maio de 2003, em Leicester, no Reino Unido. Na noite de 3 de maio de 2007, a poucos dias de completar os quatro anos, a menina loira de olhos claros com uma marca castanha na pupila direita, que gostava de correr com uns ténis que acendiam luzes brilhantes, desapareceu do apartamento do Ocean Club, empreendimento turístico na praia da Luz, em Lagos. Ao fim de dez anos, depois de duas investigações, uma portuguesa e outra da polícia britânica, os resultados são pouco mais do que zero. Maddie, como era chamada pelos familiares e amigos, nunca foi encontrada e ninguém pode assegurar que esteja viva. Apesar das mais de vinte pessoas consideradas suspeitas ao longo da investigação nunca ninguém foi preso, acusado ou condenado e muitas pistas ficaram por seguir, por falta de provas ou do timing certo.

“Um caso nunca resolvido deixa sempre portas abertas”, confidencia um responsável pela investigação, da Polícia Judiciária, que preferiu não dar o nome. “Teria sido determinante realizar uma reconstituição dessa noite, com todos os nove intervenientes, o casal McCann e os amigos que tinham viajado da Grã-Bretanha. Mas os ingleses nunca concordaram em fazê-la”, acrescenta.

Há seguramente dois momentos que hoje seriam encarados com um novo olhar pela polícia portuguesa. Um deles ocorreu às 21h15, cinquenta minutos antes de Kate Marie Healy, a mãe da menina, dar o alarme de que Maddie não se encontrava no quarto, onde dormia com Sean e Amelie, os dois irmãos gémeos mais novos. E que não terá sido explorado a fundo na altura.

Dor. Gerry e Kate McCann estavam a jantar quando a filha desapareceu no Algarve. Nos últimos dez anos, nunca deixaram de a procurar. Optaram por não prestar declarações ao Expresso

Dor. Gerry e Kate McCann estavam a jantar quando a filha desapareceu no Algarve. Nos últimos dez anos, nunca deixaram de a procurar. Optaram por não prestar declarações ao Expresso

tiago miranda

Foi a essa hora da noite que Jane Tanner (que fazia parte do grupo de amigos britânicos) terá visto um homem de passo apressado a cerca de cinco metros de distância a atravessar a estrada em frente à entrada principal dos apartamentos com uma criança ao colo. A gerente de marketing, então com 35 anos, assegurou que tinha acabado de passar por Gerry McCann — o pai de Madeleine fora ver os três filhos ao apartamento uns minutos antes — que conversava com Jeremy Wilkins, outro inglês que conheceram nos courts de ténis durante essas férias. Só que nenhum dos dois britânicos viu o tal homem misterioso, de quem a polícia mais tarde faria um retrato-robô, e nem sequer se lembram da presença de Jane Tanner no local.

A inglesa disse à PJ não ter dado muita importância ao assunto antes de Maddie desaparecer, já que era normal ver pais a transportar os filhos já de noite depois de os irem buscar ao infantário do Ocean Club no período noturno. Seguiu em direção ao seu apartamento para verificar se os filhos dormiam e não terá chegado a entrar no dos McCanns.

Nos depoimentos seguintes, a inglesa acrescentou alguns pormenores ao testemunho inicial realizado logo na manhã seguinte ao desaparecimento da menina: lembrou-se que o pijama da criança, que estava destapada e descalça, era de cor clara, “possivelmente rosa”. A mesma cor do de Maddie. E descreveu ao pormenor o que vestia e até o que calçava o homem: “Calças ligeiramente largas, casaco tipo anorak, sapatos com um ligeiro tacão”, assegurou à Judiciária seis dias depois. Isto apesar de se tratar de um local com uma visibilidade reduzida àquela hora, devido à fraca iluminação exterior, algo que não se alterou uma década depois. “Não significa que Jane tenha mentido. Ela vai recordando, ouvindo e a sua recordação vai ficando mais elaborada. Há toda uma investigação que assenta nesse depoimento. E depois? É um depoimento verdadeiro ou falso? E se é falso, porque foi credível inicialmente?”, diz o mesmo responsável da PJ, que não percebe por que razão as palavras da testemunha inglesa foram sempre inquestionáveis até determinada altura da investigação.

Gritos e frieza no apartamento G5A

A chegada de Kate ao apartamento G5A, depois das 22h, foi ouvida pela vizinha de cima, Pamela Isobel Fenn, também inglesa. “We have let her down” (“Nós abandonámo-la”), gritou a médica ao ver a cama da filha vazia. Em poucos segundos, o grupo de amigos e alguns responsáveis do Ocean Club chegaram ao local, e a confusão instalou-se. Gerry e Kate garantiam que tinham deixado as persianas do quarto dos filhos descidas e a janela fechada. Quando a mãe entrou, alega que deu com as persianas subidas, a janela aberta e as cortinas afastadas. Este era o lado do apartamento virado para uma estrada e que não era visível do restaurante Tapas, onde grupo de nove adultos jantara quase todas as noites desde a chegada à praia da Luz, a 28 de abril.

Durante as refeições, e para se assegurarem de que as três crianças se encontravam a dormir, Gerry e Kate costumavam entrar pela porta de correr da varanda, sempre destrancada, que dava para a zona do restaurante e da piscina. Eram os únicos do grupo que nunca trancavam a janela, apesar de o acesso não estar vedado a estranhos ao Ocean Club. Apesar de a varanda ficar a cerca de 50 metros da mesa onde jantavam, a visibilidade era prejudicada por uma cobertura opaca colocada pela gerência para proteger os clientes do vento de norte que se fazia sentir naquela altura do ano. O grupo garantiu à polícia que se revezava com regularidade (de vinte em vinte minutos) para irem aos apartamentos verificar se as crianças dormiam tranquilamente. Mas duas noites antes, Pamela Isobel Fenn garantiu ter ouvido Maddie a chorar e a chamar pelo pai durante mais de uma hora. O choro só terminou quando um dos progenitores entrou no apartamento um pouco antes da meia-noite. Na noite do desaparecimento da menina inglesa, esta vizinha falou com Gerry do terraço, e estranhou que ele lhe respondesse que a filha havia sido raptada, quando naquela altura todos os cenários estavam em aberto.

Silêncio. É quase penoso tentar avivar a memória dos principais protagonistas do caso ocorrido na praia da Luz. Os amigos do casal McCann não respondem. Kate e Gerry também não. O Expresso encontrou alguém que viveu de perto o desaparecimento da menina inglesa e que aceitou falar apenas se não fosse usado o seu primeiro nome e se fosse fotografado em contraluz

Silêncio. É quase penoso tentar avivar a memória dos principais protagonistas do caso ocorrido na praia da Luz. Os amigos do casal McCann não respondem. Kate e Gerry também não. O Expresso encontrou alguém que viveu de perto o desaparecimento da menina inglesa e que aceitou falar apenas se não fosse usado o seu primeiro nome e se fosse fotografado em contraluz

foto FILIPE FARINHA/STILLS

Pamela Fenn morreu entretanto, e já não pode confirmar o que contou à PJ, mas duas testemunhas-chave que estiveram no apartamento G5A desde os primeiros minutos do incidente, revelaram ao Expresso pormenores novos do caso. Uma delas, com responsabilidades no Ocean Club na altura, garante que se alguém tivesse entrado pela janela do quarto forçando a persiana, como alega o casal, tê-la-ia destruído completa ou parcialmente, já que o material estava algo envelhecido e deteriorado pelo sol e vento algarvios. “Se alguém entrou naquele apartamento não foi pelo quarto das crianças, mas pela varanda virada para o restaurante e a piscina que estava apenas fechada no trinco”, defende.

Outro dado que não passou despercebido a estas duas testemunhas foi a reação dos pais. “Kate estava em cima da cama como se nada se passasse e Gerry só queria falar com as televisões inglesas”, contam. Estes funcionários lembram que o Ocean Club tinha um serviço de creche gratuito durante a noite e que, apesar de as crianças frequentarem o infantário durante o dia, os pais nunca aproveitaram esta benesse do empreendimento turístico.

fotos FILIPE FARINHA/STILLS

fotos FILIPE FARINHA/STILLS

Atualidade. Uma década passada, a história de Maddie ainda é um assunto recorrente. O apartamento ocupado pelos McCanns foi vendido e os novos inquilinos não falam com jornalistas. O que aconteceu no Ocean Club? A janela do quarto de Maddie, por onde Kate admite que podem ter entrado os raptores, tem agora grades, mas as dúvidas são as de sempre

Atualidade. Uma década passada, a história de Maddie ainda é um assunto recorrente. O apartamento ocupado pelos McCanns foi vendido e os novos inquilinos não falam com jornalistas. O que aconteceu no Ocean Club? A janela do quarto de Maddie, por onde Kate admite que podem ter entrado os raptores, tem agora grades, mas as dúvidas são as de sempre

fotos FILIPE FARINHA/STILLS

Nos primeiros meses da investigação, as suspeitas de Gonçalo Amaral, então diretor da PJ de Portimão e responsável pelo caso, inclinavam-se para Kate e Gerry, constituídos arguidos em outubro desse ano depois de os cães-pisteiros da GNR detetarem odor a cadáver no apartamento, na roupa de Kate e no carro que entretanto o casal alugou. Mas uma nova equipa de investigadores vindos de Lisboa, para substituir Gonçalo Amaral, abriu mais linhas de investigação, além da possibilidade de os pais terem morto acidentalmente a filha e depois esconderem o corpo. Para a Judiciária, Maddie poderia ter sido raptada por um grupo ligado ao tráfico de menores com o objetivo de a vender para efeitos de exploração sexual. Ou sido morta durante um sequestro que tenha corrido mal. Porém, nada se veio a provar e ao fim de mais de treze meses as autoridades viram-se obrigadas a encerrar e a arquivar o caso, que veio a ser reaberto em 2013 pela PJ, um ano depois de a Scotland Yard abrir uma megainvestigação no Reino Unido.

Bater às portas do passado

Avivar as memórias dos principais protagonistas da praia da Luz é, ao fim de dez anos, uma atividade no mínimo penosa. O que se compreende, pelo menos em parte. Nenhum dos sete amigos ingleses do casal McCann respondeu aos telefonemas, bem como Kate e Gerry, que nunca deram qualquer resposta direta ou através do seu assessor, Clarence Mitchell. Na residência do terceiro arguido do caso, o também britânico Robert Murat, que fica a poucos metros do Ocean Club, ninguém responde aos toques da campainha. Só mais tarde, quando um funcionário de uma companhia de encomendas postais se encontrava em frente à luxuosa vivenda cor de tijolo, a ligar para o telemóvel da mulher de Murat, é que o portão se abriu. No entanto, o homem que nos recebe, aparentemente também de nacionalidade britânica, afugenta qualquer visita inesperada e que não esteja na agenda.

O apartamento G5A foi comprado ao Ocean Club e é habitado por outras pessoas que, aparentemente não querem falar sobre o caso. Apesar de estar alguém dentro de casa (os barulhos no interior são audíveis) não há resposta. Não insistimos. “Estão fartos de levar com jornalistas”, justifica uma pessoa próxima da família. A tal janela da frente virada para a estrada, por onde segundo Kate teriam entrado os raptores, está hoje protegida por grades. E a varanda por onde entrava Gerry para ver os filhos está coberta de buganvílias rosas que ocultam aquele lado do apartamento. Uma luz forte colocada ao cimo da porta principal acende-se durante a noite e tem um efeito dissuasor q.b. para hipotéticos assaltantes.

Processo I. Pinto Monteiro, o então procurador-geral da República, optou pelo arquivamento do caso. “Concluiu-se que não existiam elementos que apontassem, com um mínimo de probabilidade, para qualquer uma das pistas investigadas”, explica ao Expresso, sublinhando que deixou em aberto, no despacho de arquivamento, a possibilidade de o processo ser reaberto se surgirem novos elementos credíveis. O antigo PGR defende que a mediatização do processo “em nada beneficiou a investigação”

Processo I. Pinto Monteiro, o então procurador-geral da República, optou pelo arquivamento do caso. “Concluiu-se que não existiam elementos que apontassem, com um mínimo de probabilidade, para qualquer uma das pistas investigadas”, explica ao Expresso, sublinhando que deixou em aberto, no despacho de arquivamento, a possibilidade de o processo ser reaberto se surgirem novos elementos credíveis. O antigo PGR defende que a mediatização do processo “em nada beneficiou a investigação”

ana baião

Todas as testemunhas contactadas pediram o anonimato, umas alegando receio de represálias da gerência do Ocean Club, outras das autoridades, apesar de o caso já não se encontrar em segredo de justiça há muitos anos, e uma delas até do casal inglês. Algumas foram recentemente aliciadas com propostas monetárias por parte de jornalistas britânicos para falarem sobre o caso, na condição de darem a cara. Mas recusaram-se a dar entrevistas. “Este caso já me deu demasiados problemas. Prefiro estar no meu cantinho”, justifica um ex-funcionário do Ocean Club.

Ao Expresso só uma delas aceitou quebrar o anonimato, embora pedindo para ser fotografada em contraluz e na condição de que não fosse colocado o primeiro nome, pelo qual é conhecida em Lagos. Dez anos depois de tudo o que aconteceu, a empresária Paula Firmino, que se cruzou várias vezes com os McCanns antes e depois do desaparecimento da filha, revela que continua a ter conversas “mais ou menos recorrentes” com outras testemunhas do caso, que continua a marcar a sua vida. “Sabemos que não vamos a lado nenhum com isto mas vamos falando nele”, admite. Tem várias teorias para o que aconteceu naquela noite, mas prefere guardá-las só para si. “Acho que a verdade nunca será descoberta neste caso”, defende.

Da parte do Ocean Club, um funcionário alertou que tinha ordens da diretora para ninguém “abrir a boca” à comunicação social. Na Polícia Judiciária, vários protagonistas da altura também disseram “não” a uma eventual entrevista ou conversa informal. Gonçalo Amaral — que manteve um longo braço de ferro legal com os pais de Maddie por causa do seu livro “A Verdade da Mentira”, em que defende a tese de que a criança morreu acidentalmente e os pais ocultaram o cadáver — foi taxativo em relação ao pedido do Expresso: “Não dou entrevistas.” Também Olegário Sousa, porta-voz da PJ no início do processo, preferiu o silêncio. E da GNR, que fez também algumas diligências importantes, não houve vontade em falar.

Só o então procurador-geral da República, Fernando José Pinto Monteiro, aceitou responder ao Expresso. “Após realizadas as diligências que na altura se mostraram necessárias e adequadas, procedeu-se a uma análise minuciosa da prova obtida e concluiu-se que não existiam elementos que apontassem, com um mínimo de probabilidade, para qualquer uma das pistas investigadas. Teve por isso que se ordenar o arquivamento do processo. No meu despacho, ficou, contudo, expresso que o processo seria reaberto logo que surgissem factos novos, credíveis e relevantes, o que até agora, que publicamente se saiba, ainda não aconteceu, apesar dos anos já decorridos.” Questionado sobre a possibilidade de a investigação ao caso poder ir mais longe, responde afirmativamente mas adverte que para isso alguma vez acontecer, terão de surgir “factos relevantes, provas válidas, pistas credíveis” que justifiquem a continuação da investigação. “Se for para andar em círculo e chegar no fim ao ponto de partida, então não há razão para prosseguir a investigação.” O magistrado lembra que neste tipo de crimes, as primeiras horas são normalmente decisivas. “É certo que existem casos que só tiveram solução anos depois, mas são situações raríssimas”, salienta.

Processo II. Já Gonçalo Amaral, o responsável da PJ que conduziu a investigação até ser substituído por inspetores vindos de Lisboa, não quis prestar declarações ao Expresso. Esteve envolvido numa batalha judicial com os McCanns devido ao livro que escreveu e no qual defende a tese de que a criança morreu acidentalmente e os pais ocultaram o cadáver

Processo II. Já Gonçalo Amaral, o responsável da PJ que conduziu a investigação até ser substituído por inspetores vindos de Lisboa, não quis prestar declarações ao Expresso. Esteve envolvido numa batalha judicial com os McCanns devido ao livro que escreveu e no qual defende a tese de que a criança morreu acidentalmente e os pais ocultaram o cadáver

luís faustino

Dez anos depois, Pinto Monteiro considera que o desaparecimento da menina inglesa continua a deixar marcas. “O processo teve uma mediatização à escala planetária. Existindo largos milhares de casos destes em todo o mundo, não me recordo de algum que tenha tido semelhante divulgação. Mediatização, diga-se, que em nada beneficiou a investigação”, defende. Acrescenta ainda que “as enormes somas de dinheiro investidas na investigação, a notoriedade das pessoas envolvidas e a imagem de Madeleine fazem deste desaparecimento um caso único”. Junte-se a isto a publicação de livros, a realização de documentários e filmes, a continuação das notícias nas páginas de jornais e revistas faz com que, segundo o ex-PGR, “o caso permaneça vivo durante anos”.

Uma segunda 
peça solta do puzzle

A onda de assaltos que varreu aquela zona da praia da Luz nos meses anteriores ao desaparecimento de Madeleine McCann é outra peça que nunca encaixou no puzzle da investigação portuguesa, e que foi mais tarde aproveitada pelos investigadores da Scotland Yard da ‘Operação Grange’ que reabriram o caso em 2011. Um operacional da PJ próximo do processo garante que deveria ter sido dada mais importância aos depoimentos de ex-funcionários do Ocean Club e moradores que relataram furtos nos apartamentos próximos do G5A. A já citada vizinha de cima dos McCanns na praia da Luz, Pamela Fenn, garantiu que uma semana antes tinha sido alvo de uma tentativa de furto mas os alegados assaltantes nada terão levado. Também uma ex-funcionária do empreendimento, Maria da Graça, alertou a polícia de que um apartamento no bloco 5L, situado a poucos metros, tinha sido assaltado a 16 de abril numa altura em que os hóspedes haviam saído para jantar. Quando regressaram, tinha sido levado um plasma, um telemóvel e vários cartões de crédito. Também deixaram as portas fechadas apenas no trinco, como os McCanns. Ao Expresso, a escriturária não quis falar, por estar “farta do assunto”.

foto VASCO CÉLIO/AFP/Getty

Outras pessoas lembram que aquele foi também um período de “pequenos furtos” junto ao aldeamento, principalmente de casos de “roubo de sucata”, facto confirmado por uma das testemunhas-chave do processo, que falou ao Expresso. Houve ainda quem assegurasse aos investigadores da PJ ter visto pessoas a olhar fixamente para o apartamento nos dias anteriores. Um cenário que reforçaria a tese, também nunca esclarecida, de um assalto que poderia ter corrido mal e levado ao desaparecimento ou morte da menina inglesa. “Foram investigados nessa altura alguns casos de pessoas que entravam em casas de férias no Algarve com propósito sexual”, acrescenta uma fonte que fez parte do processo. Uma pista que também a Scotland Yard tentou aprofundar enquanto esteve no Algarve, mas sem sucesso.

Pistas I. O processo do desaparecimento de Maddie tem mais de 12 mil páginas distribuídas por 17 volumes e apensos. Foram ouvidas mais de 700 pessoas, formal e informalmente, e realizadas cinco centenas de buscas. Nos dias após o desaparecimento, vastas áreas da Praia da Luz foram ‘varridas’ por equipas cinotécnicas da GNR, mas sem resultados

Pistas I. O processo do desaparecimento de Maddie tem mais de 12 mil páginas distribuídas por 17 volumes e apensos. Foram ouvidas mais de 700 pessoas, formal e informalmente, e realizadas cinco centenas de buscas. Nos dias após o desaparecimento, vastas áreas da Praia da Luz foram ‘varridas’ por equipas cinotécnicas da GNR, mas sem resultados

josé caria

foto FILIPE FARINHA/STILLS

Hoje, a Polícia Judiciária trabalha em conjunto com os investigadores ingleses da ‘Operação Grange’, que têm seguido as mesmas pistas da PJ em 2007 e 2008 e não têm ido muito mais longe, apesar dos orçamentos milionários disponibilizados pelo Governo britânico.

Vinte suspeitos 
e milhares de avistamentos

As mais de 12 mil páginas dos 17 volumes do processo e apensos revelam que durante os treze meses de investigação, a Polícia Judiciária somou mais de duas mil diligências, ouviu formal e informalmente mais 700 pessoas, fez perto de 500 buscas na praia da Luz e somou cerca de duas dezenas de suspeitos.

Além do casal McCann, também os restantes sete adultos do grupo — composto por Jane Tanner e o companheiro Russel O’Brien, Matthew Oldfield e a mulher Rachel Manpilly e ainda o casal David e Fiona Payne e a sua mãe Diane Webster — estiveram naturalmente na mira da Polícia Judiciária por razões óbvias. Estavam perto do local dos acontecimentos, moravam em apartamentos próximos dos McCanns e poderiam ter motivos pessoais para fazer mal à menina de Leicester.

Pistas II. O número de suspeitos possíveis chegou às duas dezenas. O inglês Robert Murat (em baixo) foi um dos principais. Mora a 150 metros do apartamento e era presença constante junto do casal McCann nos primeiros dias após o desaparecimento. Dez anos depois, os portões da propriedade mantiveram-se fechados e Murat não quis falar ao Expresso. Dez anos depois, o mistério permanece. Onde está Maddie?

Pistas II. O número de suspeitos possíveis chegou às duas dezenas. O inglês Robert Murat (em baixo) foi um dos principais. Mora a 150 metros do apartamento e era presença constante junto do casal McCann nos primeiros dias após o desaparecimento. Dez anos depois, os portões da propriedade mantiveram-se fechados e Murat não quis falar ao Expresso. Dez anos depois, o mistério permanece. Onde está Maddie?

foto leong/afp/getty

O inglês Robert Murat, o terceiro arguido do caso, foi, além de Gerry e de Kate, um dos principais suspeitos durante alguns meses. O comportamento considerado bizarro junto de jornalistas britânicos e de testemunhas de quem ele fez de tradutor, bem como a presença ativa nas buscas para encontrar Madeleine, chamou a atenção sobre ele. Além disso, a vivenda onde ainda hoje reside não fica a mais de 150 metros do apartamento do Ocean Club, o que lhe dava oportunidade e meios para um possível rapto. Além disso, o homem misterioso que transportava uma criança ao colo, alegadamente visto por Jane Tanner, caminhava na direção daquela vivenda. A sua casa e carro foram alvo de buscas e as chamadas do telemóvel escutadas pela PJ. Mas nunca foi encontrado nada que incriminasse o residente britânico.

Um português e um russo com relações próximas a Murat foram também interrogados. Em vão, uma vez mais. Também um casal polaco supostamente interessado numa menina muito parecida com Maddie, em Sagres, chegou a ser alvo dos investigadores, mas não ficou provada qualquer ligação ao caso. Nem a de outros três homens estrangeiros, um deles um jardineiro de nacionalidade britânica, também sob escrutínio da PJ, alegadamente por terem sido vistos a vigiar o apartamento G5A, dias antes do crime.

Na Holanda chegaria a ser detido um homem por tentar vigarizar o casal McCann, com informações falsas sobre o paradeiro da filha mais velha.

As perícias do Instituto Nacional de Medicina Legal e de um laboratório britânico acabariam por deitar por terra uma outra pista quente, a do odor a cadáver detetado pelos cães-pisteiros da GNR em roupas de Kate, no apartamento e no carro alugado pelo casal.

foto MELANIE MAPS/AFP/Getty

Os alarmes falsos multiplicaram-se exponencialmente à medida que o caso ia tendo cada vez mais atenção na comunicação social. A pequena Madeleine Beth McCann foi “vista” em quase todo o mundo: estava em Odiáxere, mas também no interior de Espanha, no litoral de Marrocos, na Bélgica e até em países longínquos como Singapura ou Indonésia. No mesmo dia chegou a ser avistada em lugares com quatro mil quilómetros de distância. Mas Maddie não estava em lado nenhum. Nunca foi encontrada e dez anos depois da noite batida de vento norte na praia da Luz, as probabilidades de encontrar a menina, viva ou morta, são tão reduzidas como a de saber a verdade de um caso que continua a apaixonar e a dividir a opinião pública.

Uma das últimas diligências da Judiciária foi realizada em Lagos. Os inspetores procuravam um ex-funcionário do Ocean Club que poderia ser importante para preencher alguns espaços em branco na investigação. Poucos anos depois, também a Scotland Yard seguiu a mesma pista. Só que o homem tinha entretanto morrido. E com ele morria uma hipótese, mesmo que ténue, de haver mais respostas para este mistério. O que aconteceu afinal àquela menina britânica de Leicester? Possivelmente só os autores do crime conseguem responder a esta questão.

Cronologia do dia 3 de maio

7h30 Os McCanns levantam-se e tomam o pequeno-almoço no apartamento

9h00 Os três filhos são deixados no infantário do Ocean Club e os pais vão jogar ténis

12h30 A família almoça junta e, ao início da tarde, Maddie e os dois irmãos gémeos ficam novamente aos cuidados das amas do infantário

17h00 Os pais vão buscar as crianças, dão-lhes banho e jantam todos no apartamento

19h30 Os McCanns colocam os filhos a dormir e ficam no apartamento a relaxar e a beber vinho

20h35 Gerry e Kate chegam à mesa do restaurante Tapas. O grupo de amigos chega poucos minutos depois

21h05 Gerry entra no apartamento e verifica que os filhos dormem. O quarto está escuro

21h15 Jane Tanner deixa a mesa e vê Gerry a falar com um colega do ténis. Sobe a rua e vê um desconhecido de passo apressado com uma criança ao colo

21h20 Jane Tanner só verificou o seu apartamento já que Gerry tinha ido ver os filhos ao quarto

21h30 Outro amigo, Matthew O’Brien, entra no apartamento dos McCanns mas não no quarto das crianças. Vê os dois gémeos a dormir mas não verifica se Madeleine se encontra na cama. O quarto estaria mais claro do que esperava

22h00 Kate sai da mesa para ir ao apartamento. Vê a janela do quarto aberto e as cortinas a esvoaçar. Maddie não está na cama e Kate dá o sinal de alarme