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Irmã Lúcia viveu em Espanha com o nome de Doris para não ser reconhecida

Nuno Botelho

Lúcia, já com 18 anos e o desejo de ser religiosa, fugiu à curiosidade que as “aparições” de 1917 suscitaram. Fugiu para a cidade espanhola de Pontevedra onde, em 1925, se iniciou como postulante na Casa da Congregação de Santa Doroteia

A história da irmã Lúcia não se escreve apenas em Portugal, também tem um capítulo em Espanha, país onde se refugiou sob o nome de Doris para não ser reconhecida e onde terá tido, pelo menos, três “aparições”.

Lúcia, já com 18 anos e o desejo de ser religiosa, fugiu à curiosidade que as “aparições” de 1917 suscitaram. Fugiu para a cidade espanhola de Pontevedra onde, em 1925, se iniciou como postulante na Casa da Congregação de Santa Doroteia, hoje conhecida como Santuário das Aparições e local de peregrinação porque terá sido aí que teve duas aparições do Menino Jesus, uma delas com a presença de Nossa Senhora.

Um ano depois, em 1926, Lúcia ingressa no noviciado das Doroteias em Tui, cidade não muito longe de Pontevedra, local onde fez os votos perpétuos, teve uma visão e esteve até 1948, data em que entrou para o Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra, onde viveu em clausura até à sua morte, em 2005.

Em Espanha, a irmã vivia sob o pseudónimo de Doris (Dolores) para não ser identificada e fora-lhe atribuído pelo facto de ela carregar as dores de Nossa Senhora.

A sua passagem e permanência em Espanha é bem mais visível em Pontevedra do que em Tui, apesar de ter estado mais anos nesta cidade.

Cidade de paragem no Caminho Português de Santiago, Pontevedra atribui-lhe o nome de uma rua “Rúa Sor Lucía”, uma rua estreita e sombria, mas onde se ergue o Santuário das Aparições com uma fachada em pedra e um portão verde que, a toda hora, se abre para receber os turistas e curiosos.

Logo à entrada, que é totalmente gratuita, está a imagem de Nossa Senhora de Fátima e dos três pastorinhos, duas fotografias da irmã Lúcia e uma capela.

No andar de cima, está o local mais importante: a Capela das Aparições que, outrora, fora o seu quarto e que, por estar desprovido de bens, ela lhe chamava de “tambor” pelo eco que fazia, confidenciou à agência Lusa uma das três freiras que, atualmente, cuidam do espaço.

Terá sido nessa capela que Lúcia teve duas aparições do Menino Jesus, uma delas com Nossa Senhora, que lhe terá pedido para consagrar o mundo ao Imaculado Coração de Maria.

À saída da capela, a Lusa apanhou um grupo de cerca de 20 mexicanos que, em peregrinação pelos locais de passagem da vidente, referiram que não houve apenas uma irmã Lúcia, mas sim três.

Um dos peregrinos, Angel Diaz, de 56 anos, acredita que a Lúcia que morreu no Carmelo de Coimbra não é a vidente original, tendo sido substituída, algo que justifica com base nas suas alterações morfológicas, nomeadamente os dentes, nariz e queixo.

Antes dessa, tinha havido outra, mas não aquela a quem Fátima “apareceu”, acrescentou.

Em Tui, onde esteve 17 anos, a presença de Lúcia é muito mais discreta, havendo apenas uma placa à entrada das Doroteias a falar na sua presença, entrando nem uma fotografia, uma referência, absolutamente nada.

Em conversa com a Lusa, o bispo jubilado Inácio Dominguez, de 81 anos, revelou que nesta cidade galega “muitíssima pouca” gente sabe que a vidente viveu lá e teve como visão a Santíssima Trindade que, na sua opinião, é de todas a mais importante do ponto de vista teológico.

“Na altura, o bispo de Portugal disse que a Lúcia estava demasiado exposta, algo que não era conveniente, e decidiram que fosse para Coimbra”, explicou.

A capela onde Lúcia teve a aparição já não tem hoje o mesmo altar, revelou Inácio Dominguez, criticando o facto de não ter nenhuma alusão a este acontecimento.

O padre referiu ainda que há três aparições descritas em Espanha, mas as suspeitas é de que foram “bem mais”, apesar de não terem sido reveladas para o exterior.

Apesar disso, há quem saiba por onde ela passou, como é o caso de David Perez, que, vindo do México para Portugal por ocasião dos cem anos das "aparições" de Fátima, afirmou ter interesse em saber como as outras culturas recebem a mensagem da mãe de Jesus.

“A sua mensagem propõe um caminho que pode ajudar a humanidade a abrir-se à vida, num momento em que há muitas mortes e guerras”, entendeu.