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Quis abrir uma conta bancária e não conseguiu. Tinha anos a mais

Uma mexicana com 116 anos ficou três meses sem acesso à pensão, porque o sistema informático do banco aceitava clientes centenários... mas não tanto

Era uma vez uma menina mexicana, María Félix Nava, que em 1901, quando ainda usava fraldas, ficou orfâ e sem familiares. Dois anos depois de vaguear pelas ruas de Laguna Grande (Monte Escobedo, Zacatecas, centro do México), aqui e ali ajudada por vizinhos, acabou recolhida das ruas por uma família que a adotou. Nunca estudou, não sabe ler nem escrever.

A vida foi correndo e, aos 22 anos, Maria casou-se. Segundo relata o "El País", dessa união resultaram 10 filhos (seis já falecidos), 20 netos, 56 bisnetos e 23 trisnetos. Hoje, aos 116 anos e após uma vida repleta de adversidades, vive com os 1200 pesos (cerca de 58,5 euros) que recebe de apoio social, o seu único sustento económico, por ser ter mais de 65 anos e viver em situação de grande vulnerabilidade. Uma mudança burocrátrica no esquema de pagamento desse apoio social obrigou-a a abrir uma conta bancária e obter um cartão multibanco. Um incómodo para alguém já mais de um século de vida e cujos 116 anos, no caso de Maria, se apresentaram também como um obstáculo informático instransponível.

Até janeiro desta ano, o dinheiro era depositado numa conta conjunta, onde os 50.000 beneficiários do programa dispunham mensalmente da quantidade acordada. Mas a normativa mudou e todas essas pessoas tiveram de criar uma conta bancária individual para poderem receber o seu dinheiro. E foi neste passo que tudo se complicou para Maria: o sistema informático do banco não aceitava pessoas com mais de 110 anos.

Citado pelo jornal espanhol, o banco Citibanamex justifica-se com uma lacuna do sistema informático quanto à emissão de novos cartões. "Era a primeira vez que uma pessoa com 116 anos idade solicitava um cartão", justitificou-se Francisco Cabellero, assessor de imprensa do banco, salientando que "o sistema foi corrigido e a idade dos futuros clientes já é ilimitada".

Foi através dos media locais que o caso de Maria chegou ao conhecimento do governo de Jalisco. O responsável dos assuntos sociais diz ter acompanhado o processo, mas reconhece que este caso "é um exemplo da burocracia", não apenas dos bancos "mas também nossa, das autoridades". Além de Maria, outras 55 pessoas não puderam receber a ajuda financeira em tempo devido.

Até receber a quantia em atraso, María contou com a ajuda dos seus netos e bisnetos e de uma associação sem fins lucrativos. Outro apoio chegou de um posto de venda de doces improvisado, que foi montado todos os dias à porta de casa da idosa.

"Apesar da sua idade ivançada, ela é completamente independente", garante Fernanda, uma amiga de família, citada pelo "El País". Apesar de todas as vicissitudes, Maria continua com otimista: "Estou bem, apenas rezo para que tudo continue igual".