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Pedro do Carmo: “Os pais de Maddie não são suspeitos. Ponto”

Em entrevista ao Expresso, o diretor-adjunto da Polícia Judiciária, Pedro do Carmo, defende que nenhuma polícia do mundo poderia garantir resultados diferentes dos que foram obtidos até ao momento em Portugal no caso do desaparecimento de Madeleine McCann. “Nunca tínhamos tido e não voltámos a ter um caso semelhante”

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

É um mistério com dez anos que ainda divide a opinião pública e intriga as autoridades portuguesas e inglesas que investigam o caso. O que aconteceu a Madeleine Beth McCann, uma menina inglesa de 4 anos que desapareceu do apartamento do Ocean Club, na praia da Luz (Lagos), na noite de 3 de maio de 2007 - faz esta quarta-feira 10 anos? A Polícia Judiciária (PJ) tem algumas suspeitas e uma certeza: não foram os pais, Gerry e Kate McCann, que fizeram mal à criança nascida em Leicester.

Em setembro de 2007, os McCann foram constituídos arguidos pela Justiça portuguesa mas no ano seguinte o processo foi arquivado, por falta de provas. Foi reaberto pela PJ em 2013 e continua a ser investigado em simultâneo com a Scotland Yard. Até hoje, porém, apesar das centenas de pistas e avistamentos de Maddie, ninguém foi acusado ou condenado e a menina, que teria (ou terá) 14 anos, nunca foi encontrada.

Até o processo ser encerrado em 2008, havia três linhas de investigação por parte da Polícia Judiciária sobre o caso. Hipótese 1: os pais mataram acidentalmente a filha e depois esconderam o corpo. Hipótese 2: Maddie foi raptada por um grupo ligado ao tráfico de menores e vendida para efeitos de exploração sexual. Hipótese 3: a criança foi morta depois de um rapto que correu mal. A reabertura do caso em 2013 fez abrir mais linhas de investigação além das três que eram seguidas nessa altura?
Sobre a investigação não posso falar. Posso dizer que a PJ continua convencida que há elementos que podem ser trabalhados e que poderão conduzir-nos a alguns resultados. Se não for possível alcançar esse resultado, pelo menos obter algumas respostas às muitas perguntas que o caso suscita. No limite, chegar a um ponto em que a PJ conclui em que já não há mais nada a fazer que permita responder a essas perguntas.

A entrada em ação da Scotland Yard no caso em 2011 deu alguns frutos?
Desde que eles também decidiram abrir uma investigação, os contactos entre a PJ e a Metropolitan Police têm sido regulares. Tem havido uma constante troca de informação, que tem sido positiva. Essa troca de informação mantém-se. Pode mesmo dizer-se que a relação entre as duas polícias é de grande proximidade e de grande colaboração.

epa

Foi uma mais-valia os ingleses também estarem a investigar no caso?
Foi, na medida em que permitiu que, trabalhando par a par, houvesse uma análise conjunta de várias situações. Constituiu uma mais-valia quer para a PJ (ter a Metropolitan Police a trabalhar consigo) como para a Metropolitan Police (ter a PJ a colaborar com eles).

A reconstituição da noite de 3 de maio de 2007, como pretendiam inicialmente os investigadores da PJ, com a presença do casal McCann e os amigos ingleses no local dos acontecimentos (mas que nunca veio a acontecer por falta de disponibilidade do grupo em voltar à praia da Luz), teria sido essencial para melhor perceber o que aconteceu à menina inglesa?
Sobre aquilo que se sucedeu até 2008 não quero falar. Isso já foi suficientemente debatido em sede própria.

Tem ideia de quantas pessoas foram ouvidas na totalidade neste caso?
Não. Mas certamente várias centenas de pessoas.

Dez anos passados sobre os acontecimentos na praia da Luz, por que razão considera que o caso continua a ser tão debatido?
Primeiro porque houve um esforço deliberado e legítimo por parte dos pais da criança em manterem o tema na agenda dos órgãos de comunicação social. Mas há também outros elementos, como as circunstâncias do desaparecimento. Dez anos depois continuamos sem saber o que se passou, o que faz com que se possa dizer, pelo menos em relação a Portugal, que se trata de um caso único. Nunca tínhamos tido e não voltámos a ter um caso semelhante. Houve outros casos de desaparecimento de crianças em que não foi possível levar os autores a responder perante a Justiça. Mas nesses casos ou se chegou a alguém ou à polícia foi possível saber o que aconteceu. Neste caso não estamos ainda em condições a dizer o que esteve na origem do desaparecimento. Isto faz que seja um caso único. E se calhar um caso extremamente raro a nível mundial.

Tem esperança que alguma vez se possa saber a verdade sobre o que aconteceu na noite de 3 de maio de 2007 na praia da Luz?
Naturalmente é isso que nos motiva. É essa esperança que faz com que continuemos a trabalhar na investigação.

Como disse numa entrevista recente, o caso Maddie é uma pedra no sapato da Polícia Judiciária?
Embora tenha usado essa expressão no meio da conversa, não se trata do termo ‘pedra no sapato’. Está no DNA da Polícia Judiciária resolver todos os crimes que lhe compete investigar. Sempre que tal não acontece é algo que não deixa, e não nos pode deixar, satisfeitos. Somos muito exigentes com o nosso trabalho. Neste caso, faz com que não estejamos satisfeitos e continuemos empenhados em resolver o caso.

A PJ ainda está a aprender com o caso, dez anos depois?
Gostamos de aprender com todos os caso e também queremos aprender com este. Mas só depois de sabermos o que se passou é que poderemos tirar ilações dele: saber o que fizemos bem e menos bem. E ainda não chegámos a esse ponto. Queremos tirar lições dele em tempo próprio.

A comunicação social inglesa volta a colocar nas entrelinhas que Portugal continua a ser um país que não consegue resolver um casos desta dimensão. Mas a polícia inglesa não tem feito melhor. A opinião pública inglesa poderá mudar vendo que a Scotland Yard também não conseguiu obter resultados?
Não somos insensíveis à opinião dos outros mas a nossa responsabilidade e compromisso é com os nossos concidadãos. Os portugueses têm todas as razões para estarem orgulhosos e confiarem na sua Polícia Judiciária, que dá todos os dias provas da sua capacidade, eficácia e competência. Casos difíceis existem em todos os países. Os resultados por vezes demoram a chegar e isso também é verdade para todos os países. A nossa expectativa é de que haja capacidade de toda a gente em compreender que assim é.

Portanto, um caso destes teria hoje os mesmos resultados em qualquer parte do mundo?
Não diria que teria os mesmos resultados. Diria é que num caso destes não haveria garantias de ter resultados diferentes em qualquer parte do mundo. Nenhuma polícia em qualquer parte do mundo poderia garantir resultados diferentes, até este momento, dos que a Judiciária conseguiu.

A PJ teria feito hoje algo de diferente nesta investigação?
Isso é uma conclusão a que só podemos chegar depois do momento em que soubermos o que se passou ou tenhamos chegado a um ponto em que não é possível fazer mais para esclarecer o caso. E ainda não atingimos a esse ponto.

Considera que foi um erro ter constituído o casal McCann como arguido, em setembro de 2007?
Não vou naturalmente responder a essa pergunta. Mas o que posso dizer, tal como o fiz em 2011 e 2013, é que os pais de Maddie não são suspeitos. Essa afirmação mantém-se: os pais não são suspeitos. Ponto.