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“Espero que tenham orgulho no meu mandato como primeira mulher presidente da Gulbenkian”

Luís Barra

Isabel Mota, a nova presidente da Fundação Gulbenkian e primeira mulher no cargo, assumiu esta tarde um novo compromisso com a instituição, com o futuro, os mais vulneráveis, a educação e a arte

A imagem da tomada de posse da nova responsável máxima da Fundação Gulbenkian rompe com as anteriores e ficará na história. Pela primeira vez, uma mulher chega ao lugar cimeiro da instituição. "Sei que rompo com a tradição coimbrã. Sou mulher, formada em economia e de Lisboa." Até aqui, todos os presidentes foram homens e formados em direito.

Ciente da simbologia do momento, Isabel Mota faz questão de o salientar. "Quero aqui deixar uma mensagem às minhas netas, a carreira é apenas e só uma parte importante da nossa vida." Grata à família por ter chegado onde chegou, Isabel Mota sublinha que embora a conciliação de tarefas seja uma responsabilidade "também para os homens", tem sido mais exigida às mulheres.

O longo caminho da igualdade subiu esta quarta-feira mais um degrau. E Isabel Mota espera ser um exemplo dessa mesma igualdade. "Espero que tenham orgulho no meu mandato como a primeira presidente da Fundação Calouste Gulbenkian." A frase com que terminou o discurso mereceu ovação de pé.

Mãe de quatro filhos e avó de 10 netos, a nova presidente da Gulbenkian, que foi secretária de Estado no tempo de Cavaco Silva, é um caso raro de conciliação de família e vida política. As estatísticas e exemplos nacionais e internacionais mostram que a maioria das mulheres que chegaram a cargos de chefia abdicaram da maternidade.

Ao Expresso, momentos antes da tomada de posse, Francisco Mota, um dos filhos, fez questão de sublinhar que a mãe sempre foi presente. "Foi sempre um exemplo de mãe. É merecido este cargo, independentemente de ser mulher."

Agradecida pelo apoio e confiança dos colegas e aos mestres que a guiaram até aqui, Isabel Mota mantém os compromissos da Fundação: acompanhar o futuro, apoiar os mais vulneráveis, incentivar a cultura, arte e educação. "Vejo a Fundação como uma instituição filantrópica única e uma que constrói a identidade na diversidade da sua função", afirmou a nova presidente. E citando as palavras de Sophia de Mello Breyner, no Parlamento em 1975, frisou: "A cultura não existe para enfeitar a vida mas para a transformar".

Luís Barra

Uma pessoa da casa

Na Fundação desde 1999, Isabel Mota conhece bem a estrutura que agora lidera. "É uma belíssima escolha e uma escolha natural", diz Guilherme D'Oliveira Martins, nome também falado como possível sucessor de Artur Santos Silva.

"É uma pessoa da casa, que conhece a Fundação como poucos. Além de a acompanhar, acompanha também toda a projeção social e carências da população. E fá-lo com muita inteligência", afirma D. Manuel Clemente, bispo cardeal de Lisboa.

Já Valente de Oliveira, o ministro que reparou nela e a convidou para o primeiro cargo político, mostra o orgulho e sublinha a capacidade de trabalho e preparação que a tornam capaz de enfrentar todos os desafios da instituição. "É uma mulher de fibra. Não chega a este cargo por ser mulher", diz.

Manuela Ferreira Leite, também antes do discurso da nova presidente, não dava importância ao simbolismo do momento. "As mulheres têm acesso a tudo o que têm capacidade para fazer."

A modernidade como desafio

"O grande desafio é tentar adaptar a Fundação aos tempos de hoje", disse Marçal Grilo antes da cerimónia. No seu discurso, a nova presidente não esqueceu o compromisso com o futuro, as novas gerações e as novas lideranças. "Projetar a fundação como um todo e aumentar o impacto social das atividades", trabalhar na coesão e na resolução de problemas dos portugueses são prioridades da nova agenda.

Luís Barra

Santos Silva distingido

No fim do discurso, Isabel Mota convidou Marcelo Rebelo de Sousa a subir ao palco e dizer umas palavras. Um momento que não constava do guião, mas o surpreendido acabou por ser Artur Santos Silva, o presidente cessante. O chefe de Estado surpreendeu-o e agraciou-o com a Grande Cruz da Ordem de Santiago de Espada.

Isabel Mota tem 65 anos e só vai cumprir um mandato, já que a Gulbenkian impõe um limite de idade de 70 anos para o presidente da instituição.