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Valdir morreu pouco antes de mudar de vida

Estava prestes a completar 32 anos. Um dia de praia acabou por ser fatal. Valdir Tavares entrou pelo mar da Costa de Caparica para ajudar um casal. “Ele era assim, corajoso”, conta um amigo. Valdir tinha-se despedido do trabalho e dos colegas na sexta-feira: em breve, ia regressar a Cabo Verde, onde nasceu, para começar um novo desafio profissional. Além de Valdir, mais três pessoas morreram nas praias portuguesas esta segunda-feira

Valdir Tavares, 31 anos, foi uma das quatro pessoas que morreram nas praias portuguesas esta segunda-feira. Tinha ido até à Costa de Caparica, em Almada, para passar um bom bocado com os amigos. Aproveitar o feriado e o bom tempo. Eram 13h quando entrou no mar.

“Os surfistas aperceberam-se que estavam três pessoas na água e foram socorrê-las. Quando se aproximaram, quem estava em melhores condições físicas era o homem que viria a morrer. Foram puxados pela corrente”, diz ao Expresso o capitão do Porto de Lisboa Paulo Isabel. “As testemunhas no local indicaram que o homem [Valdir] tentou salvar o casal que estava na água”, acrescenta.

Com o aparato dentro de água, os surfistas aproximaram-se. Conseguiram resgatar o casal, mas perderam Valdir de vista por uns minutos. Quando o reencontraram, estava em paragem cardiorrespiratória. No areal, tentaram a reanimação. Foi levado para o Hospital Garcia de Orta, mas Valdir não resistiu. Às 15h40 foi dado como morto.

“Sei que morreu heroicamente a tentar salvar um casal. Não vou procurar mais detalhes porque não é o mais importante”, conta ao Expresso João Narciso, amigo de Valdir. “Morreu fiel aos seus princípios, gostava de ajudar os outros e, perante uma situação daquelas, o Valdir era incapaz de ficar quieto. Tinha muita coragem física e psicológica.”

Há meses que Valdir falava no regresso a Cabo Verde. As saudades de casa apertavam e a vontade de abraçar uma nova aventura profissional era enorme. Pediu uma licença sem vencimento, que foi aceite - trabalhava na área de recursos humanos na Administração Central do Sistema de Saúde. Tinha-se despedido dos colegas de trabalho na sexta, viu o Benfica no sábado.

“Talvez a razão por ele ainda estar cá era o aniversário. Queria passar a data com os amigos aqui e depois ia embora. Já tinha emprego lá”, refere João Narciso.

Formado em Gestão de Recursos Humanos em Economia Monetária e Financeira, estava em Portugal desde 2003, quando veio para se licenciar. Foi aí que Valdir e João se conheceram.

“Jogávamos futebol na equipa da universidade, foi o capitão da equipa. Ficámos amigos a partir dessa altura. Era uma pessoa a alegre, bem-disposta e que nunca se queixava da vida. Era muito chegado à família e católico. Bom aluno, bom colega, bom amigo colega, desportista e atleta”, recorda. Os dois estiveram juntos pela última vez há uma semana.

Valdir era o mais novo de seis irmãos (os pais e dois irmãos viviam em Lisboa). Era filho de Benvindo Tavares, um antigo funcionário do Conselho Nacional do Partido Africano de Independência de Cabo Verde e sobrinho de António Mascarenhas Monteiro, presidente do país entre 1991 e 2001. Mas Valdir “não gostava de falar disso”.

Naquele que foi o primeiro dia da época balnear em muitas praias portuguesas, 1 de maio, ficou marcado por quatro mortes. Além de Valdir, também um casal de espanhóis e uma mulher austríaca foram vítimas do mar. O homem e a mulher com cerca de 60 anos afogaram-se na praia da Nazaré. Ao início da noite, a austríaca, que passeava com o marido à beira-mar, foi arrastada por uma onda na Póvoa de Varzim.

“É preciso lamentar quatro mortes nas praias portuguesas. O único apelo que posso fazer é que as pessoas tenham cuidado. O tempo está magnífico, mas ir ou estar próximo do mar envolve riscos que todos temos de respeitar”, disse aos jornalistas o ministro da Defesa, Azeredo Lopes.

  • A morte de uma mulher numa praia na Póvoa do Varzim eleva para quatro o número de vítimas fatais nas praias portuguesas esta segunda-feira, depois de um casal de espanhóis ter morrido na Nazaré e um homem português ter morrido depois de tentar salvar um casal numa praia da Costa da Caparica