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Os medos que as paredes do Coliseu do Porto confessam

As coberturas, o revestimento da fachada e a torre do Coliseu do Porto enfrentam um inverno rigoroso, num espaço a completar 75 primaveras, mas a precisar de uma revitalização urgente. Rui Moreira equaciona repensar modelo de gestão

André Manuel Correia

A completar 75 primaveras, o Coliseu do Porto faz das tripas coração para sobreviver e enfrenta um outono rigoroso entranhado nas paredes.

Eduardo Paz Barroso, presidente da Associação dos Amigos do Coliseu, pede obras estruturais urgentes e Rui Moreira admite repensar um modelo de gestão. Os principais acionistas da sociedade gestora (Câmara Municipal do Porto, a Área Metropolitana do Porto e o Ministério da Cultura) manifestam-se incapazes para suprir as necessidades do espaço.

Reconduzido, na passada quinta-feira, para um novo mandato, Eduardo Paz Barroso voltou a tornar públicas as dificuldades estruturais do edifício. As coberturas, a torre da sala de espetáculos, bem como a necessidade de climatização do espaço, são as principais preocupações do gestor.

Investimento entre 4 e 10 milhões de euros

Para que a regeneração do equipamento cultural aconteça, poderá estar em cima da mesa a necessidade de um investimento entre quatro a dez milhões de euros. Esta terça-feira, em reunião do executivo autárquico, Rui Moreira assegurou que o Coliseu não se encontra em “risco iminente de ruína”, mas reconhece a “vetustez” e reconhece a necessidade de “repensar” o modelo de gestão.

De acordo com o presidente da Câmara Municipal do Porto, tanto a autarquia como a Área Metropolitana do Porto estão de mão atadas para financiar a requalificação da emblemática casa de espetáculos da Invicta.

Em resposta à pergunta levantada pelo vereador Ricardo Almeida (PSD) sobre a urgência e o investimento de tais obras, Rui Moreira frisou acompanhar as preocupações manifestadas por Paz Barroso e admite a necessidade de “encontrar novas formas de resolver um problema que tem a ver com o envelhecimento do edifício, da sua torre e da sua cobertura”.

O autarca começou por manifestar a satisfação pelo trabalho efetuado pelo presidente do Coliseu do Porto ao longo do último mandato. “Reduziu a zero o endividamento bancário que há três anos era superior a 200 mil euros”, notou Rui Moreira, salientando o esforço efetuado, “sem que haja possibilidade dos principais sócios contribuírem para a sustentabilidade da Associação”, uma vez que, lembra, estão “impedidas de subsidiar”.

O presidente do Coliseu do Porto considera a situação do edifício “especialmente preocupante” e dá como exemplos as condições deficitárias das coberturas, do revestimentos das fachadas, da climatização e ainda a consolidação de estuques, problemas identificados e pré-orçamentados em colaboração com a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.

“Com a ausência de medidas consistentes”, alerta Paz Barroso”, a atividade do Coliseu pode, em breve, ficar comprometida". O dirigente assegura que o Coliseu não dispõe de meios para proceder à revitalização do espaço e vinca que "o Estado, seguramente com a participação do município do Porto, têm de desempenhar um papel importante na reabilitação do edifício".

O que o Estado tem feito “não serve para resolver o problema”

Com o atual sistema repartido de gestão a não conseguir dar resposta às necessidades, a solução “pode passar por um novo modelo administrativo”, afirma Rui Moreira. “O que o Estado tem feito, através do Ministério da Cultura”, assegura o autarca, “são dotações para um conjunto de atividades culturais muito pertinentes, mas que não servem para resolver os problemas do edifício”.

Com a atual lei, “é impossível a Câmara Municipal do Porto ou a Área Metropolitana do Porto resolverem” o problema, preso numa encruzilhada administrativa. Em outubro de 2016, o presidente da CMP tinha admitido a hipótese de delegar para o Estado a tutela do Coliseu, perante a impossibilidade de a autarquia apoiar financeiramente a sala de espetáculos. Agora o discurso é diferente. “Não estou a ver”, acredita Rui Moreira, “que o Ministério da Cultura queira assumir a tutela, porque sabemos também que tem feito das tripas coração para resolver os problemas dos seus próprios equipamentos”.

Reabilitação com 11 anos

Apesar de também reconhecer a utilidade de melhorar a climatização do equipamento cultural – que faria com que um possível investimento de quatro ou cinco milhões fosse duplicado –, Rui Moreira nota que “às vezes, nem tudo se consegue”. Mas, “é importante que o presidente do Coliseu do Porto sinalize à cidade e aos associados que mais cedo ou mais tarde vão ter de se encontrar formas de resolver esta questão”.

A última operação de reabilitação na sala de espetáculos ocorreu após o incêndio de 1996. Desde então, nada mais foi feito de significativo para retirar o Coliseu deste estado de degradação e o espaço resiste, como pode, com os medos que as paredes confessam.

A sala que acolheu, na passada semana, o brasileiro Caetano Veloso em concerto duplo, recebeu, em 2016, 151 espetáculos que movimentaram 255 mil espectadores.