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Luís Sottomayor: “Nem o Barca Velha é um vinho perfeito”

O enólogo, responsável pelos vinhos da Sogrape no Douro, acaba de mudar a história do Barca Velha. Declara legítimo o rótulo de 1955, reconhecendo que, afinal, existem 19 colheitas do mítico vinho. A última recebeu agora a mais importante pontuação alguma vez atribuída a um tinto português

Ana Sofia Fonseca

d.r.

A história do Barca Velha mudou esta semana?
Mudou. Há uns tempos que sabíamos de uma garrafa de 1955, um ano de que nunca tínhamos ouvido falar. Com a confirmação que a tal garrafa mistério é verdadeira, reconhecemos que há mais uma colheita de Barca Velha. Em 65 anos de vida, o vinho tem afinal 19 edições.

Está então resolvido o mistério da garrafa de 55?
A existência desse ano está, mas continuamos a pesquisa. Apareceram algumas saídas de garrafas, não percebemos como é que não entrou no circuito comercial.

Como é que se explica não ter sido declarado Barca Velha?
Não há explicação, continuamos a pesquisar. Suponho que o senhor Fernando Nicolau de Almeida [criador do Barca Velha] não o tenha feito por se tratar de uma quantidade muito pequena.

Há duas semanas achava que 1955 não era Barca Velha. O que é que o fez mudar de ideias?
Nessa altura, tinham aparecido alguns registos de saída de vinho de 1955, mas com uma característica — nenhuma venda, só ofertas para amigos e administradores da empresa. Um registo para o embaixador António Pinto Mesquita, na Noruega; outro para um jantar de beneficência na Granja; outro para o engenheiro Jorge Ferreira e um para D. Jaime Olazabal. O facto de não haver vendas fez-me pensar que ele engarrafara e pusera rótulo, mas que à última hora verificara que não estava no patamar de excelência do Barca Velha. Parecia ser um predecessor do Reserva Especial [designação criada em 1960 para o vinho feito para Barca Velha mas que não atinge a qualidade exigida]. Agora, apareceram vendas, ainda que poucas, e isso muda tudo.

A colheita de 1955 faz lembrar o filho desconhecido que acaba registado.
Sim, aqueles filhos que aparecem à hora da morte e recebem o nome. É estranho nunca se ter ouvido falar deste vinho e agora aparecerem garrafas. Devíamos ter começado a procurar quando apareceram as primeiras, mas pensou-se que era impossível, só quando surgiram mais é que iniciámos uma pesquisa exaustiva. São tantas folhas, tantos documentos...

Em 65 anos há mesmo 19 colheitas?
Sim, passam a 19. São surpresas que vão aparecendo...

E podem aparecer mais?
Espero que não, mas depois desta saga com 1955, já não digo nada. Para nós, foi uma surpresa enorme.

Terá a qualidade dos restantes, dos declarados?
Para ser Barca Velha tinha de ter qualidade. O mais antigo que provei foi o 57. Bebi-o há 10 anos e estava extraordinário. As garrafas que encontrámos de 55 estavam muito em falta, não dão para prova. Mas conhecendo o senhor Nicolau de Almeida, não acredito que fosse brincar com o Barca Velha.

Cem pontos. Como é que recebeu a notícia da classificação atribuída pela “Wine Enthusiast”, uma das mais prestigiadas revistas da especialidade?
É ótimo! Mas, sinceramente, depois do Barca Velha 2004 ter recebido 99 pontos, tinha a secreta esperança de que fosse possível. O 2008 é ainda mais completo.

Porque é que o considera o mais misterioso?
Não é um vinho para toda a gente, mas um provador que se demore a olhá-lo e a apreciá-lo vai perceber a qualidade. O Roger Ross recebeu uma garrafa e, ao invés de a classificar, pediu outra. Isso deu-me mais esperança, é um vinho que precisa que fiquemos a conversar com ele.

É o único enólogo português com um vinho não fortificado classificado com 100 pontos na “Wine Enthusiast”.
Mas não é para isso que vivo.

Vive para quê?
Até há uns anos, era facílimo o Barca Velha ser espetacular. Hoje não é, há milhares de vinhos do Douro espantosos. O meu maior desafio é manter o perfil do Barca Velha e conseguir que esteja ao nível dos melhores do mundo.

Como é que soube dos 100 pontos?
Recebi uma mensagem do Fernando Guedes [CEO da Sogrape], que estava na Nova Zelândia, a dizer parabéns. Ao princípio não percebi, ninguém fazia anos...

A quem contou primeiro?
Ia a caminho do trabalho, contei às pessoas com quem trabalho que são quem se empenha no vinho, os que estão comigo na sala de provas e aos que tratam da viticultura. Ainda estava sob embargo, por isso não pude fazer a festa que gostaria.

O que é que representa esta classificação?
É mais uma preocupação! O anterior teve 99 pontos, ainda havia margem para melhorar. E agora? Vamos ter de ser mais exigentes com o vinho e com a declaração. Vai haver mais medo, a responsabilidade é enorme. Se o próximo tiver 98, não ficaremos contentes...

O que é um vinho perfeito?
Felizmente, ainda não existe. Nem o Barca Velha que teve 100 pontos é um vinho perfeito. Ainda bem, senão fechávamos a porta.

Tem esperança de conseguir 100 pontos noutras publicações?
Ainda não saíram as pontuações, vamos ver.

Anda há 28 anos a fazer vinhos. Qual foi o pior e o melhor momento?
O pior foi a vindima de 93.

Para toda a gente que andava no Douro.
Nem Esteva fizemos! A única coisa boa desse ano foi o nascimento do meu filho mais velho.

E o melhor?
Há tantos marcos importantes... O Papa Figos ultrapassar um milhão de garrafas foi fortíssimo, por exemplo.

Como é que vê o futuro do vinho português?
Depois destes 100 pontos, acredito que é ainda mais promissor. Sou suspeito, mas acho que o Barca Velha continua a ser o grande vinho português, mas há vinhos que estão muito próximos dessa qualidade em diferentes regiões, por isso, o futuro só pode ser bom. Em qualidade e nunca em quantidade, claro.

E o seu futuro?
Tenho mais 15 anos até à reforma, espero ainda fazer muitos vinhos.

Qual é o vinho que lhe falta fazer?
No Douro, ainda podemos fazer um Barca Velha dos brancos. Também falta um colheita tardia e um espumante.

A maior parte das pessoas nunca provou Barca Velha. Como é que lhes apresentaria o vinho?
Pensem numa pessoa por quem tenham respeito e consideração. Alguém a quem reconheçam carácter, personalidade e, ao mesmo tempo, sentimentos. É assim o Barca Velha.

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