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Marcelo volta a ser diretor 
de jornal

PR editou a “Cais” de maio e não larga bandeira dos sem-abrigo. Governo já pediu para se juntar

O editorial do PR 
é um desafio aos jovens. 
O filme recomendado 
é sobre os pobres 
da troika

O editorial do PR 
é um desafio aos jovens. 
O filme recomendado 
é sobre os pobres 
da troika

Jose Carlos Carvalho


Marcelo Rebelo de Sousa nem pestanejou quando o convite lhe chegou. Aceitou de imediato voltar ao local onde foi feliz: dirigir um jornal, no caso a edição de maio da revista “Cais”. O Presidente da República mata, assim, dois coelhos de uma cajadada só: faz o gosto ao dedo (embora sem o prazer de mergulhar numa redação, porque todo o trabalho foi feito por e-mail); e dá visibilidade ao tema que recentemente escolheu para “desígnio nacional” (acabar com os sem-abrigo até 2023) e que já espicaçou o Governo de António Costa.

Ao que o Expresso apurou, o Ministério da Segurança Social já manifestou à Presidência da República o seu interesse em acompanhar Marcelo de perto nas próximas incursões no terreno. E o chefe de Estado, que embora não queira aproveitamentos políticos em ano de autárquicas tenciona volta à carga em maio, espera que o Governo não arrume o tema na gaveta. Para já, sob a sua pressão, o Conselho de Ministros aprovou as grandes linhas do que virá a ser uma estratégia concreta para quem vive na rua (os últimos números oficiais falam de cerca de cinco mil). Após as autárquicas, e porque o grosso da execução deste plano passará pelas autarquias, o Presidente dará gás ao assunto.

Diálogo com António Costa: “Rosa? Não, roxo”

Como diretor da “Cais” — o número de maio vai ser entregue em Belém no dia 4 e será posto à venda no dia 8 —, Marcelo Rebelo de Sousa escolheu conteúdos otimistas-realistas (como gosta de se definir a si próprio em contraste com o “otimista irritante”, nome que esta semana voltou a chamar a António Costa que o PR diz que “vê violeta-rosa onde há roxo” e com quem assume ter uma divergência de fundo: “Não, é roxo. Não, é rosa”). As fotos dos sem-abrigo escolhidas pelo diretor Marcelo são duras. Os testemunhos de quem viveu na rua são duros, embora com portas de saída. Os textos são sobre o desafio de dar a volta. O Governo está desafiado a alinhar.

O tema de fundo é a juventude — a revista inclui um encarte com um retrato dos jovens portugueses feito numa parceria Conselho Nacional da Juventude/Pordata. E, no editorial, o Presidente lança dois desafios aos jovens: que construam “um futuro que consiga prevenir e evitar os fenómenos de marginalização e exclusão social”, ainda que “contra a corrente, dinâmico, inventivo, capaz de se reinventar, apostado na independência”; e que assumam o compromisso da solidariedade — “que o exemplo de voluntariado de todos os que colaboram nesta revista seja inspirador e que o nosso desígnio de futuro passe por nos tornarmos um país onde todos contam”.

Boas notícias

O diretor Marcelo gosta de boas notícias. E a revista abre com números, bons números, sejam as 11 mil novas empresas que foram criadas em Portugal em 2016 nas áreas do alojamento, restauração, imobiliário e construção; sejam os 4% de previsão de crescimento do mercado automóvel em 2017; seja a taxa média anual de 10% de crescimento na produção de Ciência em Portugal entre 2005 e 2015.

O diretor Marcelo gosta de pessoas. E Olívia Silva, 67 anos, natural de Vieira do Minho e vendedora da “Cais” em Coimbra, conta em entrevista como às vezes é “um bocado nervosa”, gosta de “filmes de ação e de cowboys” e em criança sonhava ter sido “médica”. A pobreza não a impediu de escolher para lema de vida “Encará-la com satisfação”.

O diretor Marcelo gosta de debates e convidou um desportista — Nelson Évora — e um professor universitário — Adriano Moreira — para confrontar pontos de vista sobre “Que desafios traz o futuro aos jovens?”. E porque adora fotografia, Marcelo escolheu um fotógrafo jovem e com trabalho feito entre os sem-abrigo — Mário Cruz, da Lusa — e selecionou uma série de fotos sobre “pessoas que sobrevivem em locais abandonados”. O título do trabalho é “Roof” (teto).

Quando Marcelo Rebelo de Sousa dirigiu jornais (o Expresso e o “Semanário”), a reportagem era um espaço nobre no jornalismo e o diretor Marcelo escolheu para tema da reportagem da “Cais” de maio os jovens “Nem-Nem”. São jovens que não trabalham, não estudam e não estão em formação. São cerca de 300 mil em Portugal. Edgar Marques tem 24 anos e conta: “Começamos a ver a nossa estabilidade a desaparecer e entramos em pânico. Nunca sabemos quando voltamos a arranjar emprego.”

Mas porque o diretor Marcelo gosta de desafios e vive a intercalar angústias e alegrias, a (sua) revista também conta a história de três jovens que participaram no projeto Gap Year e relatam os oito meses em que pararam estudos e trabalho e viajaram à volta do mundo. É “muito mais do que turismo”, “a confiança estabelecida com perfeitos desconhecidos leva a fazer ações de que nem os próprios antes se julgavam capazes”.

A troika e a “História 
Natural da Estupidez”

Porque em maio é o Dia da Mãe, Marcelo puxou pelo tema das mães solteiras com carências sociais e publica um texto sobre a Casa de Proteção e Amparo de Santo António. E porque o voluntariado internacional tem um papel nisto tudo, publica-se um texto sobre uma das instituições internacionais no terreno, os Médicos sem Fronteiras. O testemunho é obrigatório na “Cais” e o deste mês é de um homem que sofreu abusos físicos e fala da capacidade de superar dificuldades.

O diretor Marcelo também gosta de cultura e escolheu para sugestão cinéfila do mês o filme “São Jorge”, que trata de casos de dificuldades socioeconómicas agravados durante a intervenção da troika em Portugal. Na agenda cultural, sugere-se o “Fátima”, de João Canijo, um concerto de guitarra de Pedro Caldeira Cabral e o álbum “In Mind” dos Real Estate. O livro sugerido é “A História Natural da Estupidez”, do húngaro Paul Tabori, que foi publicado em Portugal pela primeira vez nos anos 60, com 2/3 do conteúdo censurado. A edição sugerida na revista do diretor Marcelo é a primeira edição integral em língua portuguesa.