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Isto cheira-me a cancro

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Na semana em que os cães estiveram nos noticiários nacionais por maus motivos, fomos aos Arquivos Expresso resgatar um artigo sobre cães que se destacam por motivos opostos. Num centro de investigação em Londres estão a ser usados para detetar vários tipos de cancro, como mostrava a reportagem publicada originalmente na Revista de 1 de novembro de 2014, que contava como o labrador “Parker” se fixou num eczema de um membro da família dos donos e que se descobriu ser afinal um carcinoma basocelular ou como “Daisy” sinalizou o cancro da mama da dona, antes de ela saber que o tinha

Paulo Anunciação

Paulo Anunciação

em Londres

Correspondente em Londres

Em abril de 1989, um artigo publicado na revista médica "The Lancet" chamou a atenção do cirurgião ortopédico John Church. O artigo contava a história de uma doente que tinha um sinal numa das pernas e descrevia a forma como o cão dela começara a comportar-se de forma estranha, cheirando insistentemente a zona afetada. Numa das ocasiões, o cão chegou mesmo a morder a perna da dona, tentando arrancar-lhe o sinal. A mulher nunca se preocupou, mas a obsessão do cão levou-a a procurar um dermatologista.

O sinal foi extraído. O exame histológico posterior revelou que se tratava de um melanoma maligno ainda no estádio inicial, mas já com uma espessura de 1,86 milímetros. Esta história, contada como uma curiosidade médica nas páginas de uma das revistas mais prestigiadas do mundo, ficou a martelar a cabeça de John Church.

Este antigo cirurgião, de 83 anos, teve desde sempre um interesse muito grande pelas chamadas bioterapias - tratamentos feitos através de substâncias vivas como larvas, o veneno das abelhas ou as lombrigas intestinais (Church ainda hoje é considerado uma sumidade na terapia larval, que consiste na introdução de larvas vivas em tecidos humanos).

No início do século, ele voltou a cruzar-se por acaso com uma história de um cão que teria farejado um cancro. No final de uma palestra em Wellington College, um imponente liceu privado a 60 quilómetros de Londres, um aluno veio ter com ele. "O miúdo tinha 16 ou 17 anos e contou-me que o cão dele, um labrador amarelo chamado 'Parker', começara subitamente a ter um comportamento estranho, cheirando persistentemente um eczema que o pai sempre tivera na parte de trás da coxa esquerda. O pai foi ao médico. Uma biopsia acabaria por revelar que se tratava de um carcinoma basocelular", conta Church.

A história do labrador 'Parker' renovou em definitivo o interesse de John Church pelo potencial do olfato canino como instrumento de diagnóstico médico. Em setembro de 2001, o cirurgião publicou uma carta na revista "The Lancet".

"Este fenómeno de alguns cães serem aparentemente capazes de detetar odores singulares de determinados cancros da pele", escreveu ele, "merece uma investigação séria, com experimentação controlada de forma rigorosa". O médico continuou a recolher relatos similares de outros cães no país e no estrangeiro. Numa entrevista à BBC, John Church repetiu as histórias e fez um apelo: será que alguém me quer ajudar a treinar um cão na deteção de cancro?

ALERTAS GRITANTES

A sede da instituição sem fins lucrativos Medical Detection Dogs (MDD) ocupa hoje dois pavilhões prefabricados no final de uma estrada no campo nos arredores de Milton Keynes, a norte de Londres.

Os corredores estão bem iluminados e o silêncio de laboratório é interrompido aqui e ali por latidos de cães. Numa das salas principais, o mobiliário é praticamente inexistente: uma pequena mesa com computador, mais alguns monitores e câmaras de vídeo. O centro da sala é ocupado por uma espécie de carrossel metálico, com oito braços mecânicos. Cada um deles segura um pequeno recipiente de vidro onde foi colocada uma amostra minúscula de urina humana.

Quando o treinador Rob Harris traz 'Daisy' - uma cadela labrador, de nove anos - para a sala, ela dá saltos e agita a cauda com excitação. Rob dá-lhe uma guloseima.

'Daisy' sabe que a sessão diária de trabalho vai começar. Os cães da MDD trabalham todos os dias entre as 9h e as 16h em sessões de 20 minutos. "Seek, seek!" [Busca, busca!], manda o treinador.

'Daisy' caminha determinada em direção ao carrossel e cheira cada uma das amostras, gastando menos de um segundo com cada uma delas. Quando chega ao braço identificado com a letra F, no entanto, 'Daisy' cheira repetidamente o recipiente - uma, duas, três vezes - e permanece imóvel, de rabo espetado, não tirando os olhos do pequeno vaso de vidro.

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'Daisy' detetou cancro na amostra F e espera pelo sinal do treinador.

"Linda menina!", diz ele, ao mesmo tempo que lhe dá mais um snack.

Nos últimos quatro anos, 'Daisy' assinalou 551 casos de cancro num total de mais de seis mil amostras farejadas.

A MDD emprega atualmente 12 pessoas, tem 300 voluntários e 14 cães como 'Daisy', treinados para fazer a chamada biodeteção.

Esta instituição, única na Europa, é o resultado imediato daquele apelo que o médico John Chur ch lançou no final da entrevista à BBC. "A minha colega de trabalho Gillian Lacey ouviu a entrevista na rádio e falou-me deste médico que afirmava que os cães podem detetar o cancro. Entrámos em contacto com ele. Por sorte morávamos todos muito perto uns dos outros", conta Claire Guest, atual presidente e diretora executiva da MDD.

Guest, de 50 anos, é uma mulher alta e enérgica, que fala sem rodeios. Ela fez um mestrado em psicologia, especializou-se em psicologia animal (sobretudo canina) e no treino de cães. Os cães, aliás, fizeram sempre parte da vida dela, desde criança. A amiga e colega Gillian tinha um interesse ainda mais direto nesta matéria: alguns anos antes Gillian sobrevivera a um cancro na pele depois de ser alertada por 'Trudii', o cão dálmata da família. Trudii começara a lamber e a cheirar insistentemente um sinal que ela tinha na barriga da perna. Alguns dias após a entrevista à BBC, John Church reuniu-se com Claire Guest e Gillian Lacey. Em 2003, com o apoio de um hospital público local, os três lançaram um programa de treino de cães para a deteção de cancro.

No ano seguinte publicaram um primeiro estudo nas páginas do "British Medical Journal". A MDD nasceria um pouco mais tarde, em 2008.

SUPERNARIZES

Os cães têm um sistema olfativo muito superior ao de todos os outros animais - incluindo, naturalmente, os seres humanos. Alguns cães têm mais de 220 milhões de células olfativas (o homem tem apenas cinco milhões). O olfato canino é geralmente 10 a 100 mil vezes superior ao dos seres humanos.

Por essa razão, os cães são utilizados diariamente por caçadores ou pela polícia, pelas forças militares e outras autoridades na deteção de pessoas, drogas, explosivos, alimentos ou materiais tão específicos como o nitrato de amónio, as baterias de lítio ou peças em marfim.

Os tubarões são capazes de cheirar uma gota de sangue dentro de um tanque de 100 litros.
No campeonato dos supernarizes, no entanto, os cães não têm par: eles conseguem detetar uma partícula entre biliões (segundo um estudo de L.P. Waggoner, de 1998, os cães conseguem detetar um determinado composto orgânico numa concentração de 0,001 por milhão). "É um mundo que nos ultrapassa e que temos dificuldade em entender", explica o professor universitário John Bradshaw, autor de vários livros sobre comportamento animal e colaborador próximo da MDD. "Nós, seres humanos, temos olfactos muito fracos e nem conseguimos imaginar o que o apuradíssimo olfato dos cães consegue identificar." A utilização do odor como forma de diagnóstico não é um fenómeno novo. Algumas doenças são associadas historicamente com certos cheiros (por exemplo, a presença de gangrena numa ferida).

Muitos especialistas afirmam que determinados tipos de cancro produzem compostos orgânicos voláteis que depois de entrarem no circuito sanguíneo e serem excretados - na urina, nas fezes ou mesmo na respiração - podem ser identificados pelos narizes caninos.

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Treinar os cães na deteção destes compostos, no entanto, não é uma tarefa fácil. "Quando treinamos um cão para encontrar determinada coisa - por exemplo, um saquinho de cocaína -, nós temos essa coisa nas nossas mãos", explica Claire Guest. "Então dizemos ao cão: quero que encontres esta coisa! E isto transforma-se num jogo. O cão adora encontrar [a coisa] porque sabe que se isso acontecer terá uma recompensa: uma guloseima, uma bola de ténis ou uns minutos de brincadeira, por exemplo. Depois usamos quantidades cada vez mais pequenas.

O cão sabe que se encontrar esta quantidade minúscula de cocaína poderá brincar connosco e com a bola de ténis." Nenhum animal é tão leal e tão pouco exigente como o cão.
O contacto humano e a atenção prestada pelo dono ou treinador são, em geral, motivações suficientes.

"Os cães pedem muito pouco de volta. Só querem agradar, mesmo que a recompensa seja apenas uma bola de ténis atirada para longe", diz ainda o professor Bradshaw.

O treino dos cães na deteção do cancro é uma tarefa que Claire Guest descreve como sendo "feita de trás para a frente". Ao contrário do que acontece com uma amostra de um determinado produto - a cocaína, por exemplo -, uma amostra de urina, sangue, fezes ou ar exalado tem naturalmente uma multiplicidade de odores. Não é fácil ensinar o cão a identificar um cheiro em particular. "As amostras têm sempre milhares de odores que podem ter origem na alimentação da pessoa ou em bebidas, medicamentos, outras condições médicas, uso de tabaco, álcool, desodorizantes, perfumes ou drogas.

O treino sem recurso a uma 'fonte pura' é por isso extremamente difícil", diz.

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A doutora Guest gosta de explicar o que faz através de um exemplo visual: "O que dizemos ao cão é o seguinte: 'Olha para este quadro de Monet. E depois para este. E mais este. Os quadros são complexos e em alguns deles por vezes há uma papoila encarnada.

Se encontrares um quadro com uma papoila encarnada recebes um prémio. Se não encontrares, não recebes nada." Os quadros de Monet, claro, são as amostras de urina. Os quadros com a papoila encarnada são as amostras de doentes com cancro.

Os resultados daquele primeiro estudo clínico envolvendo seis cães treinados pela MDD - publicado no "British Medical Journal", em 2004 - foram de certa forma desapontantes. Os cães foram inicialmente treinados na deteção de cancro da bexiga através de amostras de urina de doentes. Depois passaram ao teste propriamente dito, com a análise de 54 amostras (45 eram de pessoas saudáveis, nove eram de doentes com aquele tipo de cancro). O diagnóstico feito pelos cães da MDD estava certo em apenas 41% dos casos.

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Este teste apresentou, no entanto, um resultado intrigante. Um dos cães usados no estudo chamava-se 'Tangle' e identificou como cancro, de forma repetida e persistente, uma amostra oferecida por uma pessoa saudável (a pessoa em questão fora sujeita anteriormente a cistoscopia e ultrassonografia, com diagnósticos negativos). 'Tangle', curiosamente, fora o cão com melhor performance naquele estudo, atingindo níveis de acerto de 56%. O médico especialista ficou suficientemente alarmado com a reação de 'Tangle' e mandou repetir os testes médicos na pessoa em causa. Descobriram-lhe um carcinoma no rim direito.

Num estudo mais recente, publicado em 2011 no jornal médico "Cancer Biomark", os quatro cães da MDD usados na deteção de cancro (igualmente da bexiga) registaram uma taxa de acerto de 64% - um progresso significativo relativamente aos resultados de 2004. Um dos cães, chamado 'Oak', acertou em 73% dos casos. Alguns cães, de facto, são muito melhores do que outros. "Os nossos [cães] foram doados, outros foram resgatados.

Por vezes procuramos determinado cão porque sabemos que tem parentes com faros muito refinados. Mas o elemento-chave é a 'treinabilidade' do cão", explica o treinador Rob Harris, diretor do departamento de biodeteção da MDD. Em geral, os cães selecionados são cachorrinhos de dois meses.

'DAISY', A ESTRELA

Os cães de caça são bons a farejar, mas são também mais difíceis de treinar. De fora ficam, igualmente, as raças mais excitáveis, nervosas ou barulhentas. Bons cães de trabalho, inteligentes, simpáticos e obedientes - como os labrador, springer spaniel ou collies, por exemplo - constituem a maior parte da equipa de superolfatos caninos ao serviço da MDD. A estrela da companhia é a cadela 'Daisy', que vive com a diretora Claire Guest desde as oito semanas de vida. Nas triagens de cancro da bexiga, 'Daisy' apresenta com regularidade resultados de 93% na sensibilidade (isto é, pessoas doentes corretamente identificadas pelo cão como doentes) e de 95% na especificidade (isto é, pessoas saudáveis corretamente identificadas pelo cão como saudáveis).

"No outro dia uma delegação de sul-coreanos ofereceu-nos 80 mil libras [cerca de 101 mil euros]. Queriam clonar 'Daisy' e fazer um programa para a televisão", conta Guest. 'Flint', um labrador simpático que é sobrinho de 'Daisy', integrou recentemente os quadros da MDD.
A relação de Claire Guest com 'Daisy' tem claramente um carácter muito especial. Ela está convencida que a cadela lhe salvou a vida. No final de um dia de muito trabalho no laboratório, diz, Claire abriu a mala do carro para deixar sair todos os cães - mas 'Daisy' recusou-se a sair com os outros.

"Ela parecia transtornada e ansiosa e não parava de saltar sobre a minha cara. Depois ['Daisy'] atirou-se contra o meu peito e senti uma área dolorida, como se fosse uma área machucada", relembra.

Guest foi ao médico e descobriu que tinha um tumor num estádio muito inicial. Submeteu-se a seis meses de radioterapia após a cirurgia para remover o nódulo minúsculo e profundo num dos peitos. "No início fiquei um bocado perplexa com a atitude de 'Daisy'.

Mas se ela não me tivesse avisado, o meu prognóstico seria certamente diferente. O nódulo era muito profundo. Provavelmente só o descobriria quando ele já estivesse muito avançado, muito mais tarde - talvez tarde de mais".

Os estudos com "cães médicos" realizados pela MDD, de forma sistemática, nos últimos anos - tal como outros realizados esporadicamente por equipas de investigação em países como o Japão, a França, a Itália ou os Estados Unidos -, têm sido recebidos com ceticismo. Os resultados são pouco conclusivos, dizem os críticos. Ou não passam de meras coincidências.

Outros assustam-se com a ideia de ver um cão a trabalhar num consultório médico ou num instituto oncológico.

Claire Guest fica visivelmente irritada com estes comentários.

"Nunca falámos em ter cães nas clínicas ou em contacto direto com as pessoas. Os nossos cães detetam o cancro através de amostras [de urina ou ar expirado] no nosso centro de treino e de análise", explica.

O grande objetivo da MDD é a criação de uma rede de unidades satélite espalhada pelo Reino Unido onde os cães possam ser utilizados numa espécie de triagem secundária para determinado tipo de cancros - como os da próstata ou do pâncreas, dois dos mais difíceis de diagnosticar.

O Ministério britânico da Defesa já utiliza, aliás, um sistema muito semelhante, chamado RASCO, na deteção de drogas e explosivos nas cargas armazenas em aeroportos (amostras de ar recolhidas dentro dessas cargas são colocadas em tubos em vácuo que depois são enviados para um centro de "deteção por olfação canina").

"No caso da próstata, por exemplo, o teste do PSA poderá sugerir - mas nunca confirmar - a presença do cancro. Segue-se, em geral, uma biópsia retal, um procedimento invasivo e doloroso, igualmente falível", diz Guest. "Se disser a um homem: olhe, há um terceiro teste que poderemos fazer, só precisamos de uma amostra de urina e um cão da MDD dirá - como uma exatidão que atualmente ultrapassa os 80% - se tem ou não tem cancro da próstata. Qual o homem que recusaria esta possibilidade? Os cães podem ajudar as pessoas a evitar testes não essenciais ou recomendar a realização de biópsias nos casos realmente necessários".

CÃES HERÓIS

A Medical Detection Dogs é uma instituição de beneficência que conta com o apoio de vários hospitais e universidades, mas depende em grande parte dos patrocínios, das doações e do voluntariado para cumprir a sua missão principal: a investigação na área da deteção do cancro. "Estamos a trabalhar neste momento em projetos multidisciplinares novos que nos darão respostas sobre a possibilidade de cães diagnosticarem o cancro da mama através de uma amostra de ar exalado", explica Claire Guest.

Outras parcerias com equipas académicas envolvem, neste momento, o estudo do cancro da próstata.

A investigação e desenvolvimento, claro, custam muito dinheiro.

O treino de um cão demora entre 12 e 14 meses e pode custar cerca de 11 mil libras (quase 14 mil euros). Por essa razão, a MDD estendeu a sua ação, nos últimos anos, para outras áreas que garantem algumas receitas ou, pelo menos, maior visibilidade para a instituição. A MDD treinou cães, por exemplo, na deteção de percevejos nas camas e nos colchões - um serviço muito procurado pelos hotéis, preocupados com os prejuízos e com os danos na reputação que uma eventual praga deste tipo pode causar (o serviço tem a vantagem de ser discreto e aparentemente muito mais rápido e eficaz do que os olhos humanos das empresas de desinfestação).

Outra área em expansão é a dos cães de assistência e alerta médico. A MDD treinou até hoje 48 destes cães que ajudam no dia a dia de pessoas com condições médicas complexas como a narcolepsia, a doença de Addison, a diabetes ou as alergias muito severas.

Os cães são treinados na identificação de mudanças de cheiro que estão associadas, por sua vez, a complicações médicas graves. A esmagadora maioria destes cães de assistência vive com doentes diabéticos. A MDD recebe novos pedidos quase todas as semanas.

Nos últimos anos, a vida da enfermeira Claire Moon - que sofre de diabetes tipo 1 desde criança - transformara-se num verdadeiro pesadelo. "O corpo deixou de me avisar para as variações dos níveis [de açúcar no sangue]. As quedas e perdas de consciência eram constantes.

Acordava muitas vezes no chão de casa rodeada de vizinhos e paramédicos", diz. "Chegou a um ponto em que eu tinha medo de adormecer. Receava não acordar mais. Ficava acordada e testava o nível de açúcar a todas as horas - pelo menos 20 vezes por dia. A minha qualidade de vida era zero", diz Claire, casada e mãe de dois filhos adolescentes.

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Em setembro de 2013, a família acolheu 'Magic', um labrador treinado pela MDD para alertar Claire Moon sempre que os níveis de glicose dela descem (abaixo dos 4,5 mmol/l) ou sobem (acima dos 12 mmol/l) para níveis preocupantes.

O cão foi treinado para "cheirar" essas situações de hipo ou hiperglicemia.

'Magic' está sempre com a dona. Dorme no quarto dela. Mas mesmo quando se encontra num quarto próximo ou noutro andar da casa, consegue detetar o odor associado com a queda abrupta do nível de glicose e corre para Claire avisando-a: "Começa a lamber-me, empurra-me ou por vezes traz-me mesmo o kit de controlo da glicemia", diz. Em troca recebe uma guloseima de bacon ou salsicha.

Graças a 'Magic', Claire voltou a dormir seis ou oito horas por dia e passou a ter uma vida (quase) normal. "'Magic' foi uma mudança radical na minha vida. Voltei a ser a pessoa que costumava ser", diz.

Outro dos objetivos da MDD é ajudar os cientistas que trabalham atualmente no desenvolvimento de sistemas eletrónicos (os chamados 'E-noses', ou narizes eletrónicos) para deteção precoce do cancro através de testes baratos e não invasivos. O nível de precisão dos 'E-noses' não é comparável, por enquanto, ao dos supernarizes caninos da equipa da MDD. No futuro, no entanto, essa relação poderá inverter-se. 'E-noses' desenvolvidos em Israel registaram recentemente níveis de acerto de mais de 80% na deteção do cancro da garganta e do pulmão através da análise de amostras de ar expirado.

"O cancro tem um cheiro? Há nove anos, quando começámos a treinar 'Daisy' na minha sala de jantar, retirando amostras guardadas no fundo do meu congelador, não sabíamos ao certo", diz Claire Guest, entre risos. "Hoje, isso parece ser mais ou menos pacífico". O cancro tem mesmo cheiro.