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Obrigado, ZX Spectrum!

O som agudo do gravador de cassetes; as riscas às cores a invadir o ecrã do televisor; o eterno código mágico: LOAD“”… Há 35 anos, milhões de miúdos (e graúdos) entravam no maravilhoso mundo do ZX Spectrum. O pequeno computador, que na sua versão 48 K foi, claramente, o iPhone dos anos 80, fez anos este domingo. A 23 de abril de 1982, Sir Clive Sinclair começou a produzir o pequeno computador em massa. O homem que tinha inventado a primeira calculadora de bolso continua a ser um inovador (e um grande jogador de póquer que até vence competições abertas a celebridades) e apoiou, em 2014, o lançamento de uma campanha de crowdfunding para a criação do ZX Spectrum Veja Plus, uma consola homenagem que vem com mil jogos carregados. A consola continua sem dar sinal de vida e a Indiegogo (um dos maiores sites de crowdfunding do mundo) já não aceita mais apoios por parte da comunidade. Ou seja, o regresso antecipado do ZX Spectrum parece estar enfermo da capacidade de produção da empresa que teve a ideia para o dispositivo. Mas façamos uma viagem no tempo.

O ZX Spectrum chega a Portugal distribuído pela Triudus e pela Landry, duas das primeiras empresas a especializar-se na comercialização de dispositivos eletrónicos. O país ainda não tinha comemorado uma década de liberdade e o dinheiro continuava a escassear no bolso de muitos portugueses. Por isso, dar mais de duas dezenas de contos (o equivalente a 100 euros) por um pequeno computador não estava ao alcance de muitos. Experimentei o 48 K (como lhe chamávamos) em casa de um amigo. A entrada neste universo mágico foi a destruir os extraterrestres de Space Invaders. Que momento inesquecível. Tive de esperar mais de um ano para ter o meu. O que implicou um presente conjunto de pais e avós.

Afinar a cabeça do gravador

Com 11 anos liguei o meu Spectrum e comecei a jogar. A jogar muito. Na altura, ia comprar jogos ao Imaviz, a uma pequena loja que os copiava às centenas. Era tempos de verdadeira “terra de ninguém” onde não existia qualquer enquadramento legal que impedisse a cópia dos jogos. Não existiam milhares de jogos disponíveis (como hoje acontece para os smartphones). As centenas que chegavam a Portugal eram copiadas entre nós com as habituais dicas sobre a afinação da cabeça do gravador e, claro, com os truques para conquistar alguns níveis.

Aliás, passar os níveis impossíveis de Arkanoid ou R-Type dava direito a título de “herói” entre os amigos. Esperar longos minutos para jogar e a fazer figas para que não aparecesse o “loading tape error” mortal, deu-me, e a todos os jogadores de Spectrum, uma capacidade de resistência que, tenho a certeza, deve ter tido alguma influência na nossa formação como pessoas.

A cola de uma geração

Foram tempos inesquecíveis. Despertava, em conjunto com milhares de miúdos portugueses, para o fenómeno da computação. No meu caso, limitei-me a jogar. Mas tive amigos que começaram a programar algumas rotinas e a ganhar o gosto pelas “máquinas”. Tenho a certeza que os muitos milhares de engenheiros portugueses que preenchem hoje as empresas e que tenham sido contemporâneos ao 48 K reconhecem no pequeno computador parte do rastilho para o seu percurso profissional.

O Spectrum funciona, até, como uma cola invisível que une toda essa geração. Junte-se dois tipos (senhoras, desculpem, mas este mundo primordial é muito masculino) que gostem de videojogos e de tecnologia e que tenham idades entre os 40 e os 50 anos; ao fim de alguns minutos a conversa bate, invariavelmente, no universo do 48 K. Há histórias pessoais que se partilham com o mesmo fervor com que se evoca o momento em que o clube do coração ganhou um título importante.

Morte oficial no início da década de 90

O pequeno computador acabou por morrer, oficialmente, no início da década de 90. No entanto, o Spectrum continua vivo. Seja, nos milhares de jogos que existem “à solta” na Internet (são disponibilizados ilegalmente), seja nos emuladores (sistemas que permitem reproduzi-los).

Em dia de comemoração, tenho de confessar: o meu 48 K foi traído… por mim! Depois de milhares de horas de diversão acabei por condená-lo ao esquecimento. Foi preterido por um Commodore Amiga 500 – um computador muito mais potente e com gráficos e som inesquecíveis. O Spectrum ficou no purgatório (na arrecadação) até que o enviei para a “terra” - para perto de São Pedro do Sul, onde foi animar os dias dos meus primos mais pequenos. Perdi-lhe o rasto. Espero, desejo, que tenha passado para outras mãos. Aliás, que ainda hoje continue a animar os dias de um qualquer saudosista. Alguém como eu que, 35 anos depois, ainda recordo o toque único daquelas teclas de borracha. Parabéns, ZX Spectrum!