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O verão nem sempre é azul

Quais os cuidados a ter com crianças e jovens agora que o bom tempo parece ter chegado? Até aos 18 anos, os afogamentos são um dos maiores perigos

Katya Delimbeuf

Katya Delimbeuf

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Jornalista

Carlos Esteves

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Maria José Fonseca não esquece o caso daquela menina de cinco anos. Marcou-a, embora não saiba explicar porquê. A médica neurologista pediátrica, há 22 anos no Hospital Garcia de Orta, em Almada, recebe todos os anos um ou dois casos de afogamento ou pré-afogamento de crianças em idade pré-escolar. Mas nunca conseguiu afastar da mente esta menina autista. “Era muito especial”, conta. “As crianças autistas têm uma apetência especial pela água, não têm medo dela. São imprevisíveis. Neste caso, a menina faleceu na piscina de um vizinho, que não tinha cancelas e se encontrava aberta.”

Há menos tempo, chegou-lhe às mãos uma outra criança, de dois anos, vítima de pré-afogamento. Ficou com sequelas para a vida, lesões equivalentes às de uma paralisia cerebral. O desfecho de uma tarde de verão não foi tão violento como no primeiro caso, mas nunca será possível voltar atrás no tempo. “Estava muita gente em casa, muita família, e todos pensavam que a criança estava com uma pessoa diferente.” É algo que acontece com frequência. O verão é pródigo nestas situações. Mas não só. A médica deixa o alerta: “O grande perigo dos afogamentos são as piscinas. E isso não acontece só na época balnear.”

É nos meses de férias — em particular julho e agosto — que se registam mais mortes de crianças e jovens menores de idade, nomeadamente por afogamento. Na Europa, segundo dados de 2008 da OMS, todos os anos morrem 5000 crianças e jovens até aos 19 anos por esse motivo. Em Portugal, morreram, entre 2002 e 2014, 215 menores. Mas não são só as mortes que devem preocupar. Nos últimos 13 anos, 512 crianças foram internadas na sequência de afogamentos — o que muitas vezes implica sequelas neurológicas ou motoras que as acompanham vida fora.

Por cada criança que morre afogada, mais do dobro é internada. Maria José Fonseca explica que as sequelas mais comuns, nos casos de pré-afogamentos, são os défices neurológicos. Alerta que as crianças “nunca devem estar sozinhas, devem ser ensinadas a nadar” e, no caso de serem crianças especiais, devem ser alvo de uma vigilância ainda maior. A neurologista esclarece ainda que a água do mar ou a água doce têm consequências diferentes, nos casos de afogamento: a água salgada tem muito sódio, o que faz com que entre nos alvéolos pulmonares e atraia uma grande quantidade do líquido entre as células. O tempo passado debaixo de água e o volume de água ingerido são fatores determinantes. Uma vez a água alojada nos pulmões, o órgão já não consegue fazer chegar o oxigénio às células.

Outro grupo de risco, além das crianças que ainda não sabem nadar, é o dos adolescentes. Por razões completamente distintas — desafio, rebeldia, gosto pelo risco —, são propensos a sofrerem acidentes em mergulhos perigosos, casos que disparam no verão. Que o diga a médica fisiatra Isabel Batalha, diretora do serviço de reabilitação pediátrica e de desenvolvimento do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, na área da grande Lisboa. Chegam mais rapazes, vítimas destes acidentes trágicos. Marcou-a, em particular, a história de um jovem de 17 anos, a um mês de terminar os exames do 12º ano. Num dia quente, a pedir praia, um grupo de amigos decide ir a banhos, para ganhar coragem para o fim dos estudos. “Os rapazes desafiaram-se. As raparigas assistem e, na explosão de adrenalina e testosterona, as acrobacias aparecem por magia. De repente, alguém dá um salto mortal e não volta à tona. ‘Está a brincar’, pensam os outros — mas o tempo passa e não volta a aparecer. O pânico instala-se. É urgente encontrá-lo e pedir ajuda”, conta a médica. Quando chega a Alcoitão, acompanhado pela mãe, vem “assustado, porque não consegue movimentar os braços nem as pernas”. “A mala que traz para o internamento está carregada de esperança”, partilha a médica, mas um longo caminho espera-o. Com o tempo, reconstrói um novo projeto de vida. Mas a cadeira de rodas acompanhá-lo-á para sempre. O pai sofre à distância, por não poder largar o trabalho. “O evento é brusco, dramático e devastador. Além do sofrimento direto da criança ou do jovem, há sempre uma mancha de dor e sofrimento que se estende a toda a família, nomeadamente pais e irmãos.” A médica ressalva a importância das campanhas de sensibilização, que apesar de tudo, têm reduzido os casos que chegam. Mas assume que “bombardeou” os filhos, hoje adultos, com os exemplos que lhe chegavam.

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A tendência de mortes por afogamento tem vindo a cair em Portugal, ao longo da última década. Na época balnear passada (1 de maio a 30 de setembro de 2016), a Autoridade Marítima Nacional totalizou 17 casos mortais em praias vigiadas — três vítimas eram menores. Foram ainda 1032 as situações de assistência a primeiros socorros. A tendência decrescente não significa que haja motivo para abrandar a vigilância. Afinal, é em locais não vigiados — piscinas, tanques ou praias fluviais — que ocorrem mais mortes. A idade das crianças também é um fator de risco: quanto mais novas, mais propensas a terem um acidente potencialmente fatal. Dados facultados pela Associação para a Promoção da Segurança Infantil revelam que mais de um terço das crianças que morrem por afogamento em Portugal (33,5%) tinham menos de quatro anos. Os rapazes também são mais atreitos a este tipo de acidente: 68,3% dos casos de afogamentos registados entre 2005 e 2015 ocorreram com crianças do sexo masculino.

Há conselhos que são puro bom senso, mas que nunca é demais lembrar. Quando o verão chegar, prefira as praias que têm nadadores-salvadores. Em Portugal, há 250 km de praias vigiadas e 350 km de praias não vigiadas, assegurava Nuno Leitão, presidente do Instituto de Socorro a Náufragos, o ano passado. Os 4100 nadadores-salvadores contratados asseguram, durante a época balnear, a vigilância. Se tiver crianças pequenas, não as perca de vista — só no ano passado, 36 crianças perdidas na praia foram recuperadas com sucesso pela Autoridade Marítima Nacional.

A exposição solar é outro fator a que é preciso dar muita atenção, no caso das crianças e dos jovens. Ainda para mais porque é cumulativa — ou seja, o excesso de sol que apanhamos na adolescência pode manifestar-se décadas mais tarde. Maria José Bento, coordenadora do Registo Oncológico do Norte, alerta que as projeções de cancro de pele para 2020 indicam “um aumento dos melanomas”, o que se deve, essencialmente, à “mudança do estilo de vida e ao crescendo do comportamento de risco”. Por muito que já saiba, há regras que não mudam. Evite expor-se ao sol no horário mais intenso, das 11h às 17h. Use sempre protetor solar e nunca faça mais de 1,5 hora de exposição solar seguida. Férias boas são férias seguras.