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Madie McCann. O que tem sentido é a tese de rapto, diz Rogério Alves

Tiago Miranda

Dez anos depois da menina inglesa de três anos ter desaparecido no Algarve, o antigo bastonário dos advogados diz que aceitou defender os pais após falar com eles e sentir que ali estavam dois “seres humanos em profundo sofrimento”, que tinham que lidar uma “potencial acusação”, pois eram arguidos. A PJ reabriu o caso em 2013. Revista E deste sábado inclui uma reportagem na Praia da Luz

O advogado Rogério Alves, mandatário dos pais de Madeleine McCann, considera que responsabilização do casal pelo desaparecimento da filha no Algarve é uma ideia "infundada e absurda" e o que faz sentido é a "tese do rapto". Em entrevista à agência Lusa, uma década após o desaparecimento da criança inglesa no Ocean Club, Lagos, Algarve, Rogério Alves salienta que a tese da "responsabilização dos pais só tem pontos fracos" e é "totalmente absurda".

"Não tem qualquer sentido. Toda a gente pode confabular sobre aquilo que entende e admitir que foi o Super-Homem, que foi um OVNI ou outra coisa. Nesse quadro também se pode incorporar a responsabilização dos pais. As pessoas quando não sabem dizem uma coisa qualquer", contrapôe.

Rogério Alves refere que assumiu a defesa do casal McCann numa altura em que havia uma "enorme pressão mediática" sobre a investigação e uma "diabolização do casal" na opinião pública, mercê da ideia então espalhada que os pais seriam os culpados do desaparecimento.

Depois de falar com o casal McCann e de ler o processo, Rogério Alves garante que o que faz sentido é "a tese do rapto". "Não tendo sido descoberto qualquer sinal de homicídio, de suicídio, de atropelamento, de afogamento ou de qualquer outro que também poderia ser plausível (...), a tese do rapto é a que tem sentido", enfatiza.

O advogado lembra que no início da investigação as pessoas foram solidárias e quiseram ajudar o casal McCann, mas o tempo foi passando e com a pressão mediática e a falta de resultados verificou-se "um volte-face em que aparece a ideia completamente infundada" de que os pais são os culpados do desaparecimento. Seguiu-se uma "diabolização em doses industriais" do casal.

A mediatização teve "um efeito abrasivo, porque havia uma espécie de doutrina nacional em que as pessoas tinham que achar que os pais eram culpados", explicou.

O antigo bastonário dos advogados confessa que aceitou defender o casal MacCann após falar com os pais, sentir que ali estavam dois "seres humanos em profundo sofrimento" e que, ainda por cima, tinham que lidar uma "potencial acusação", pois eram arguidos.

Volvidos 10 anos [que se cumprem a 3 de maio] sobre um caso que a investigação não resolveu, Rogério Alves entende que "uma das coisas mais daninhas, que mais prejudicou, desnorteou e perturbou o andamento do caso foi a permanente criação de tensões entre as duas polícias" (portuguesa e inglesa).

"Não só entre as duas polícias, mas quase entre os dois Estados", diz, observando que em determinado momento, "dentro das fantasias que pareciam não ter limites", já se transformava o casal McCann como amigo de "gente muito poderosa", capaz de influenciar o Estado inglês, a União Europeia e o Vaticano.

"Era uma confabulação completamente desproporcionada e que tinha como um dos seus ingredientes uma espécie de despique entre as duas polícias. Criou-se ainda uma animosidade. Parecia que estávamos de volta ao tempo do Ultimatum (inglês), só para não dizer do Mundial de 1966", diz, a propósito da rivalidade então fabricada entre as duas polícias.

Confrontado com as tensões provocadas pelo processo, que levaram ao afastamento do inspetor da PJ Gonçalo Amaral (que defendeu a tese do envolvimento dos pais), Rogério Alves concorda que o caso terá contribuído também para a saída do então diretor nacional da PJ Alípio Ribeiro.

"Tenho essa noção", diz, recordando que quando Alípio Ribeiro declarou publicamente que tinha sido "uma precipitação ou um erro" constituir arguidos os pais da criança, gerou-se "um verdadeiro movimento de indignação nacional" contra o diretor da PJ.

O advogado adianta "desconhecer completamente" qualquer tipo de pressões políticas do governo inglês sobre os investigadores, embora reconheça que a "grande notoriedade" e "mediatização" do caso sejam uma pressão constante sobre as polícias.