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“Cavaco faz-me falta!”

Nuno Fox

Esta foi a primeira entrevista dada por um dos homens mais estimulantes e enigmáticos da história da democracia portuguesa. Nuno Brederode Santos, na altura com 58 anos de idade, falecido este sábado aos 73 anos. Publicada originalmente a 1 de março de 2003, quebrou o silêncio a que o cronista se votou toda a vida, um silêncio determinante na construção das suas cumplicidades e do seu grau de influência

Luís Osório

Cronista brilhante, amigo íntimo e conselheiro de sempre de Jorge Sampaio, confidente de Ernesto Melo Antunes, que acompanhou nos difíceis tempos da revolução e contra-revolução, filho de um fundador do PPD-PSD e ilustre maçon, apaixonado pelo cinema americano clássico e com uma fixação por actores secundários, amante fiel das tertúlias diárias, cínico em relação aos Homens e ao Poder, pai de dois filhos e com um passado de ex-soldado em Moçambique.

Nesta sua primeira entrevista, passou por muitos desses traços de vida. Algumas vezes num registo quase perverso, mas sempre de forma brilhante e absolutamente surpreendente. O desmentido formal a Álvaro Cunhal e o reconhecimento implícito, enquanto testemunha presencial, de que o Partido Comunista se preparava para a guerra civil em finais de 1975. O seu ódio de estimação ao professor Cavaco Silva, a recusa em aceitar cargos políticos, a aversão às multidões e a percepção de que é e será sempre um homem da oposição - sobretudo quando os seus estão no Poder.

No fim, não me responderá se reconhece o estatuto de eminência parda. Nesse final de conversa, a pergunta tinha sido totalmente desnecessária.

Temos, pelo menos, uma coisa em comum: nascemos no bairro lisboeta de Campo de Ourique.
Não é um pormenor. Uma vez em Londres, em pleno cavaquismo, fui convidado para falar num jantar no Anglo Portuguese Club. Os oradores eram habitualmente figuras pró-governamentais. Digamos que fui convidado para que a coisa parecesse isenta. Afinal, é sempre bom ter alguém do reviralho. Disse na altura que, no caso de Portugal se envolver numa guerra com um invasor estrangeiro, eu limitar-me-ia a dar o maior apoio moral, até porque já não tenho idade para a primeira linha de combate; mas se Campolide tentasse invadir Campo de Ourique, lá estaria eu no Arco do Carvalhão, fardado e com um fuzil oitocentista, preparado para o pior.

O professor Cavaco Silva, que mora em Campo de Ourique, não deve suspeitar da rivalidade com Campolide.
Mas o professor não mora em Campo de Ourique, mora no Possolo.

O Possolo é mais conhecido como bairro da Lapa.
Quando um tipo é importante mora na Lapa, quando um tipo é pouco importante chama-se Possolo. Portanto, estou a ser injusto, porque um ex-primeiro-ministro deve morar na Lapa e não no Possolo... Sim, estou a ser injusto.

Sabe que o professor, na sua autobiografia política, cita o seu pai? Diz, entre outras coisas, que era um homem íntegro e em quem se podia confiar.
O professor Cavaco Silva tem razão...

E?
Fui-lhe vitorianamente apresentado na inauguração da praceta que tem o nome do meu pai. Foi dos exercícios mais rigorosos que lhe vi fazer na vida... A família designou-me, e eu falei em nome dos meus, depois discursou Krus Abecassis e o professor. Estava sobretudo gente do chamado bloco central, mas também pessoas da órbita do Partido Comunista. Quando todos passaram à habitual bicha pirilau dos cumprimentos, Cavaco disse-me assim: «Muito obrigado pelas palavras elogiosas que teve para com um ex-presidente do meu partido.» Ou seja, o professor combinou muito bem a cortesia com o rigor. Fiz um «chapeau» interior. Estive perto dele noutra ocasião, mais precisamente no Pen Club. Era amigo de dois americanos que trabalhavam na Embaixada americana e suponho que só um deles era da CIA...

Folgo em saber que é plural nas suas amizades.
Não tenho qualquer reserva quanto à amizade de alguém que pertença à CIA. Quando Cavaco entrou na sala, uma divisão repleta de empresários pró-PSD, levantei-me e bati palmas... Então o meu amigo, o que era da CIA, disse-me que podia perfeitamente não me manifestar, porque toda a gente sabia que eu era da oposição. Obviamente, estava enganado. Disse-lhe: é que tu tens 200 anos de uma história mais ou menos liberal, enquanto eu vivi em ditadura até aos meus 30 anos. Na liturgia de uma cerimónia pública, devo bater palmas quando um eleito por voto popular entra na sala. Já seria mais significativo se lhe tivesse batido palmas durante ou no fim do discurso.

Falou do seu pai, talvez a principal referência da sua vida.
Tive sempre uma relação muito forte com ele, muito forte mesmo. Aliás, só me lembro de dois funerais em toda a vida: o do meu pai e o do meu sogro. Morreram-me muitos amigos, nos últimos anos tem sido muito frequente perder pessoas que me estão próximas. Vou aos velórios, mas quase nunca aos funerais.

Se lhe pedisse para recordar uma memória do seu pai, uma só memória, o que lhe vinha de imediato à cabeça?
Três coisas. Na primeira imagem vejo-me a ler em casa um boletim da Internacional Socialista, boletim de que ele era assinante...

Da Internacional Socialista?
É verdade. Ele era um social-democrata à séria, o PSD que ajudou a fundar é um partido muito afastado desse ideal, é uma social-democracia a brincar. Sim, recordo o boletim da Internacional Socialista e de o partilhar com ele. Lembro também o seu sentido de humor, um sentido de humor que ele tinha uma enorme relutância em utilizar na vida política. Nunca o vi dizer uma graçola enquanto deputado ou quando foi presidente interino do PSD, logo a seguir à morte de Sá Carneiro. A terceira tem a ver com uma certa simbologia de atitudes que utilizava enquanto pai... Nós éramos e somos três irmãos, dois rapazes e uma rapariga, e o nosso pai foi um pouco vítima da cultura da geração. A sua relação com a minha irmã foi sempre no sentido de a proteger, o que significava para ela uma diminuição de liberdade.

E os dois irmãos?
Era a balda. Quando fiz 12 anos, o meu pai ofereceu-me a chave de casa, o que trazia tudo por arrasto. Podes sair à noite, podes ir cear ao Café Canas e mais não sei quantas coisas boas. Lembro-me também de conversas em que se preocupava com as minhas leituras, nós fechávamo-nos no escritório e conversávamos muito, conversas muitíssimo importantes para mim, conversas importantes para a vida.

Tem conversas semelhantes com os seus filhos?
Outras conversas, sim. Aprendi com os meus filhos, que hoje são adultos, que o Freddy Mercury foi um grande cantor. Não sou um melómano, mas, no meio daquela barulheira dos conjuntos de música moderna, eu nunca conseguiria extrair a voz do Mercury. Só que depois apanhei com aquele dueto com a Monserrat Caballé e percebi que o gajo tinha uma voz absolutamente fabulosa, os meus putos tinham toda a razão. Este tipo de confrontos de culturas geracionais, que exerci bastante com o meu pai, são estruturantes na nossa vida. O meu pai tinha uma componente libertária na sua arrumada social-democracia.

Isso parece estranho.
Parece um absurdo, mas eu tenho a prova em vida de que isso é possível.

Quando, na cantina universitária, aderiu à célebre greve de fome promovida por alguns estudantes, qual foi a opinião dele? Pressionou-o para desistir?
Não teve uma palavra de objecção. Um grande receio sim, mas não teve uma única palavra de objecção. Deram-me todo o apoio que lhes foi possível, estou a incluir também a minha mãe. Só que a minha mãe, felizmente, ainda cá está. Também tive o episódio do meu «exílio» de 10 meses em Paris, um «exílio» porque havia um processo na PIDE para me levar a tribunal. Então estive esse tempo fora, o tempo que foi necessário para se resolver a querela entre a Judiciária e a PIDE - se ganhasse a Judiciária, eu seria julgado. Ganhou a PIDE, e só houve dois réus, fiquei de fora. Os meus pais apoiaram-me sempre.

Já tinha acabado o curso?
Isto foi em 1965, 66. Não, ainda não tinha acabado. Depois, borrado de medo, testemunhei no julgamento. Tive que tomar partido, porque as duas versões eram diferentes, foi uma situação muito triste na minha vida, uma situação profundamente marcante. A pessoa que fui desmentir em tribunal tratou-me depois disso com a maior amizade.

Que tipo de processo era?
Um processo ligado às sublevações estudantis na universidade.

Aliás, o seu historial de mau comportamento é conhecido. Foi expulso da universidade logo após a crise de 1962.
O regime considerou-me um resíduo sólido urbano e mandou-me incinerar para Coimbra. Mas acabei por ficar por cá.

Estávamos a falar do seu pai.
E já estamos em Coimbra.

Mas eu vou insistir num ponto que me parece decisivo. Sendo o seu pai um militante histórico do PPD-PSD e um ilustre «maçon», seria mais do que natural que o senhor fosse influenciado por isso.
O meu pai, na cama do hospital de onde já não saiu, ficou espantado quando percebeu que os filhos sabiam que ele era «maçon», o que é incrível. Como é que um homem tão inteligente não percebeu que deixou pistas ao longo da vida que levaram a que nenhum dos filhos tivesse dúvidas sobre essa circunstância? Claro que nas instruções finais, antes de morrer, disse-me que queria a bandeira portuguesa, a bandeira do PSD e a da Maçonaria.

Provavelmente, continuava a olhar para os filhos como se eles ainda fossem miúdos.
Sim, sim. Admito que tenha sido isso. Nunca fui influenciado por essas duas circunstâncias.

Disse-me há pouco que, apesar de não concordar com as suas opções políticas, ele o apoiou sempre enquanto pai. Acha que, no fundo, se orgulhava da postura do filho?
Sinceramente, não sei. Não sei se se orgulhou pelo conteúdo da atitude política ou se teve orgulho do relacionamento que manteve com o filho, no fundo com o relacionamento com alguém que é 50 por cento de si próprio. Ele pensava que as coisas em que me metia podiam dar chatice, mas como o puto queria... Não sei, e agora já não lhe posso perguntar.

Mas eu posso perguntar-lhe se teve orgulho nele...
Muito orgulho. Muito.

Um orgulho parecido com aquele que gostaria que os seus filhos sentissem por si?
Penso que eles não têm razões para isso, mas sim, gostaria que isso pudesse acontecer.

Quantos filhos tem?
Tenho dois rapazes.

Nunca pertenceu à Maçonaria?
Nunca. A Maçonaria no tempo da ditadura teve um papel a desenvolver, defendeu alguns perseguidos, mas pronto... Compreendo. Mas depois do 25 de Abril, na única vez que me abordaram no sentido de aderir, lembro-me de ter dito à pessoa que não percebia qual era a utilidade de tal coisa. Eu, que tenho a maior relutância em abaixo-assinados, teria sempre a maior das dificuldades em aderir a alguma coisa que não percebo. Os abaixo-assinados podem ser manifestos brilhantes, mas há sempre qualquer coisa que me irrita, que me crispa a ponto de recusar. Quando a matéria é importante, tomo uma posição individual.

Poucas pessoas saberão que esteve na Guerra do UItramar. Ao contrário de grande parte dos seus amigos, não se exilou. A experiência de Moçambique foi determinante na sua vida?
Não diria tanto. Mas gostei de fazer a tropa e de ter estado em Moçambique. Talvez isto seja um pouco herético, mas é o que sinto. Tudo isto é a posteriori, porque na altura teria agradecido não ir... Um sargento, nas sortes, perguntou-me se eu tinha alguma razão para não fazer a tropa, eu respondi que tinha mal-estar geral, é claro que o tipo me mandou imediatamente despir ao pé de todos os outros. Fui mobilizado para Moçambique. Se é para ir com o meu povo, eu vou. Aprendi muito e aprendi muito no período do pós-25 de Abril...

Que passou em Moçambique.
Foi. Já não com o Kaúlza de Arriaga, mas com o Bastos Machado. Deixei muitos amigos, o que é natural para quem lá esteve dois anos e meio. O 25 de Abril retardou o meu regresso, até porque Moçambique foi a última colónia, por hesitação, a aderir ao nosso regime democrático.

Nesse tempo, envolveu-se na política ou tentou apenas sobreviver o melhor que pôde?
A única fraqueza que tive foi não vir passar férias a Portugal, porque depois teria sido muito mais penoso regressar. As férias passei-as sempre em Lourenço Marques, creio que não tive problemas ou remorsos, creio que não os tive.

Regresso a Campo de Ourique. Aos tempos em que fez parte de uma tertúlia que acabaria por transformar a sua vida.
Durante a greve estudantil de 1962, era eu um simples caloiro, passávamos o dia todo na Cidade Universitária. Alguns dos líderes desse movimento universitário faziam parte da tertúlia do Café Értilas, a minha tertúlia, uma verdadeira sociedade fabiana... Tinha uma certa plasticidade, uma certa pluralidade...

Nessa tertúlia havia militantes do Partido Comunista?
Duas pessoas pertenciam ao PC, na altura a única força verdadeiramente organizada. Todos os outros eram independentes, embora a maioria tivesse uma formação socialista. Uns tinham uma costela anarca, outros eram apenas diletantes, e havia ainda os peixinhos vermelhos a nadar em água benta...

Os de formação católica.
Os de formação católica.

O que não era bem o seu caso.
Isso nunca fui. Nem peixinho vermelho, nem água benta. Se há uma coisa chata e difícil de explicar é um tipo considerar-se de esquerda e ter uma constância de valores a que se pode chamar coerência mas que transposta para a vida quotidiana se chama conservadorismo. Não é por acaso que estamos a falar aqui. Arvorei isto em cantina para ter mais tempo para ler jornais ou para falar com amigos, ora isto não é mais do que um conservadorismo oculto. Se frequento o Procópio e não outro bar de Lisboa, essa é outra forma de conservadorismo. A dada altura da minha vida, pensei que isto era complicado de explicar...

No fundo, se eu bem percebo, a pergunta é: como é que se pode ser, ao mesmo tempo, um socialista e um individualista?
É essa a pergunta, é essa a pergunta. Mandei fazer umas placas, e tenho-as em casa e no trabalho. «Um é o primeiro algarismo de um número que não acaba.» É um verso de Omar Khayam. Passei a perceber que ao considerar-me um não me considero o primeiro. E o número que não acaba é um conceito claro.

Durante a infância e a adolescência, antes de conhecer essa equação mágica, o conflito ideológico existiu?
A única coisa que é uma constante desde a infância é o horror à multidão. Vi um jogo de futebol no Estádio das Antas, creio que um Porto-Belenenses, e achei aquilo uma liturgia tribal assustadora. Nunca mais voltei. Vejo pela televisão as meias-finais e a final dos campeonatos do mundo, que já é mais ballet do que futebol, e chega-me...

Mas a política tem igualmente esse lado tribal.
Absolutamente. Por isso, fiz sempre uma defesa acrisolada da minha privacidade, porque nunca estive disponível para aceitar os ónus que estão associados aos cargos públicos. Isto não é uma crítica, acho que é da mais elementar justiça sacrificar a privacidade em nome da ambição. Considero que é uma troca razoável, há negócios piores. Antes de começarmos a entrevista, falámos da nossa embirração em relação aos «apparatchiks» partidários, mas devo-lhe dizer que reconheço a necessidade da sua existência, sem deixar de reconhecer que os partidos também devem ser representativos. Se a sociedade portuguesa não fosse o que é, os partidos também não eram como são. Mas sim, claro, a política tem um lado tribal que também me assusta. Por isso, fui fugindo como pude.

Fugiu de deputado, por exemplo.
Cheguei ao Parlamento e corri logo para a secretaria com um requerimento que trazia do Algarve. Acabou. A minha experiência de deputado durou duas horas.

Quem o convenceu a concorrer?
Um grande amigo, a quem avisei que uma pessoa que não tenciona exercer um cargo não deve apresentar-se como candidato. Ainda hoje mantenho o ponto de vista. Tudo para lhe dizer que mantive sempre um contencioso com a multidão. O chavão de que as revoluções devoram os seus próprios filhos tem um pouco a ver com estas minhas reservas.

Mas há momentos em que a multidão pode ter um efeito contrário. No 25 de Abril, a presença de milhares de pessoas foi determinante.
Concordo consigo, e até lhe posso dar outro exemplo. O meu pai levou-me à Estação de Santa Apolónia aquando da chegada de Humberto Delgado, e confesso que me comovi, não posso dizer que me tenha comovido até às lágrimas, mas comovi-me.

A política já o fez chorar?
A política só me fez chorar uma vez.

Quando?
Na eleição de um grande amigo meu.

Festejou a vitória do seu amigo de sempre ou a derrota de Cavaco Silva?
Pela vitória, sempre pela vitória. Mas fiquei encantado quando, uns meses antes da eleição, o Jorge confessou numa entrevista ao Expresso que o estímulo suplementar seria ter como adversário o professor...

Que alimentava nessa altura uma espécie de tabu.
Que estava num tabu que tinha a ver, essencialmente, com questões de liderança do PSD e com o cargo de primeiro-ministro. Mas, como tinha ambições políticas para o futuro, decidiu ir em martírio às presidenciais... A questão é que Cavaco Silva não podia sair do tabu que ele próprio criou; assim, não lhe restava outra opção e ofereceu-se em holocausto. Fez muitíssimo bem, só lhe ficou bem.

Jogou na hipótese do milagre.
Não se pode dizer que o holocausto tenha sido muito eficiente, mas ficou-lhe muito bem. Com excepção desse momento político tão específico, guardo as lágrimas para os livros e para os filmes.

Que opinião é que os seus amigos têm sobre si?
Não faço a mais pequena ideia.

Um individualista, normalmente, pensa naquilo que os outros acham sobre si próprio.
Devem pensar que sou um bom amigo, talvez um pouco bizarro, mas um bom amigo. Sabem também que a minha capacidade de lidar com situações mais mediáticas é limitada e julgam-me um pouco diletante. Talvez os meus amigos achem que é pena.

Os seus grandes amigos são, regra geral, mais velhos.
São, normalmente, pessoas mais velhas. Os meus principais amigos durante a crise de 62 eram quatro ou cinco anos mais velhos. Não se esqueça que eu era caloiro.

Um caloiro a viver numa época em que Salazar parecia eterno.
Como dizia nessa altura um amigo da tal tertúlia do Értilas (um tipo, aliás, que se metia pouco em política e que estava sempre com sono), se o homem ainda não morreu então é porque já não morre. É o argumento mais desconcertante que ouvi na vida. Mas Salazar morreu.

E seguiu-se a "Primavera".
Não houve «Primavera» nenhuma, nunca acreditei nisso. Falávamos dos meus amigos serem mais velhos e, não os querendo acusar de pedofilia, talvez fosse visto por eles como o puto maluco que, quando esmorecia uma discussão puramente política, vinha chateá-los com o Proust ou com o Kafka. Eu talvez fosse uma curiosidade folclórica, era um galo de Barcelos todo branco, um galo tal e qual como o do anúncio publicitário. Não há turista que o compre, mas sempre vai dizendo umas coisas diferentes.

E quando acordava do seu papel de galo? Qual era a sua mais-valia política num grupo tão politizado? Um grupo que tinha os principais líderes da revolta estudantil de 1962, por exemplo.
Tinha uma razoável formação política, razoável, apenas. A minha formação era literária, sobretudo, e filosófica.

Como é que se definia politicamente em 1962?
Socialista. Eu escrevo desde os 15 anos e não encontrará um escrito em que possa ter dito, directa ou indirectamente, que fui marxista. A maneira como via o Marx era a de que tinha tanta culpa do que fizeram em nome dele como o Nietzsche do que inventaram em seu nome. Dizem-me: o Nietzsche foi o inspirador do III Reich, e eu respondo que eu fui também inspirador de uma qualquer ideologia emergente nas Maurícias, de cuja existência, aliás, não tenho qualquer conhecimento. Tenho uma crónica do tempo da «perestroika», uma crónica em que sucumbi à indignação, um fenómeno que não me agrada nada...

Porquê?
Porque a indignação é um espasmo da inteligência. A gente só se indigna quando não consegue intelectualizar a resposta a uma conduta. Mas nessa crónica cedi ao espasmo e defendi o Marx. É que foi num tempo em que todos saíram a malhar na pobre criatura, aliás, ele era o único tipo que, no meio daquilo tudo, não tinha qualquer culpa.

Numa crónica publicada no Expresso, a propósito do inevitável Cavaco Silva, escreveu qualquer coisa como isto: «Se ele se recolhe um dia à vivenda Mariani não sei o que será de mim.» O que foi feito de si nestes últimos seis anos?
Não me custa a admitir que tenho muitas dores de alma, admito que sinto muito a sua falta. Agora, apesar de toda a dor, há algumas teses que nunca nenhum cavaquista contestou e que eu mantenho... A primeira das quais - e confesso que tem a ligeireza de uma equipa de primeiros-socorros - é aquela verdade indesmentível de que o rapaz foi tirado de Boliqueime mas que agora ninguém consegue tirar Boliqueime do homem. Penso que isto não se alterou, quando ele reaparecer lá trará Boliqueime. Mas a minha casa estará sempre aberta para ele. Numa conversa demorada com Victor Cunha Rego, muito pouco tempo antes da sua morte, ele contava-me que não tinha visitado o Parlamento mais do que uma ou duas vezes. Gastámos alguns minutos a falar sobre a estranheza...

... Que lhe causava ver um dos homens mais influentes da política portuguesa não frequentar os chamados corredores do poder?
Nem mais. Fui muito amigo do Victor. Ele tinha características muito próprias, algumas absolutamente notáveis e outras mais questionáveis. Havia nele um aristocratismo cultural implacável. É um saudoso amigo que já lá vai, mas tinha limites de comportamento muito influenciados por amizades pessoais... Aliás, um comportamento que também tenho, mas julgo que não tanto como o Victor.

É possível encontrar-se mais semelhanças entre Victor Cunha Rego e Nuno Brederode Santos?
Espero que só você tenha tido a ideia dessa comparação. Eu não gosto de perder.

Um e outro podem ser considerados eminências pardas do regime.
Sabe que tenho horror às câmaras de televisão, e uma vez, quando o Jorge Sampaio ganhou a Câmara de Lisboa, fui apanhado por uma câmara de televisão com uma jovem estagiária ao lado. Ela aproximou-se de mim e disse muito convicta: «Há quem diga que o senhor é o Rasputine do Partido Socialista.» E eu, apesar de suar por todos os poros da pele com aquela câmara em cima, respondi-lhe: «Rasputine? Mas qual deles?» Sabia lá ela. É claro que já não fui para o ar...

Até porque há mesmo um segundo Rasputine.
O amigo do Corto Maltese, claro. Felizmente para os dois, aquilo não tinha sido em directo.

A generalidade dos políticos, sobretudo os políticos mais novos, ambicionam o poder ou o panache do poder?
É uma questão que já cheguei a colocar. Penso que, por deficiente formação política, as pessoas confundem o poder com o panache das posições de poder. Perdem a cabeça por ter uma secretária, dois adjuntos e um assessor de não sei quê... Penso que isto é um bocado verdade em relação a certas pessoas. Também é verdade que nunca tantas pessoas recusaram convites para fazer parte de grupos parlamentares ou do Governo, só é pena fazerem-no por más razões.

Como define más razões?
Um tipo ter a ambição política, sentir a vocação do serviço público e perante um convite recusar, porque tem todas as hipóteses para presidir a um qualquer cargo privado e com isso ganhar muito mais dinheiro. É isto que tem acontecido a muitas pessoas, e não me parece que sejam boas razões.

Estamos a falar do poder e não resisto a perguntar-lhe se o poder está mais próximo daqueles que o têm ou dos que estão no contrapoder?
O contrapoder organizado é muito poderoso, as raras vezes em que se organizou teve mais vitórias que derrotas.

Tenho a impressão, mas pode ser apenas isso, que mesmo sendo militante do Partido Socialista nunca deixou de ser um homem na oposição.
É uma questão curiosa... Várias vezes com o meu partido no poder me senti na oposição. Mais: as duas vezes na vida em que me demiti de funções públicas era o meu partido que estava no Governo. Estar na oposição, do meu ponto de vista enquanto cidadão que preza a vida privada e os prazeres que tudo isso traz, torna a vida na oposição muito mais agradável.

É impossível não falar de Ernesto Melo Antunes e de Jorge Sampaio, dois homens, como agora se costuma dizer, incontornáveis na sua vida.
São dois registos diferentes. Fui muito amigo do Ernesto Melo Antunes, mas sou próximo do Jorge há uns 40 anos.

Trata-o por Senhor Presidente?
Só nas reuniões oficiais. Às segundas-feiras, nas reuniões políticas, o tratamento é formal. Mas tenho uma relação muito fraternal com ele, considero-o meu irmão. O Melo Antunes foi um grande amigo...

Um grande amigo com quem viveu um momento particularmente importante.
Então a pergunta sobre Melo Antunes trazia essa água no bico, o meu desmentido ao Álvaro Cunhal.

Exactamente.
A coisa é simples: Álvaro Cunhal, poucas semanas depois da morte de Melo Antunes, tentou reescrever a história. Disse numa entrevista que nunca se reunira com Melo Antunes. Bem, eu senti a responsabilidade de o desmentir, porque era a única testemunha viva de que não era verdade. É que a reunião se realizou mesmo. Foi em minha casa! Fui eu que abri a porta ao Cunhal.

Uma reunião em que Melo Antunes quis concertar posições com o líder comunista...
Para perceber a posição do PCP, uns dias antes do 25 de Novembro de 1975. Mas não há confusão possível: foi a ele que eu abri a porta de minha casa. Aliás, nunca o tinha visto pessoalmente. Estiveram quatro horas enfiados na minha sala, comigo fora dela. De vez em quando, ouvia umas alterações no timbre de voz, alterações de parte a parte.

O que sabe desse encontro?
O Ernesto foi muito sucinto, era um tipo muito discreto. Disse-me que não tinha servido de nada, que ia tudo para a porrada, que agora os argumentos para manter o PC na legalidade seriam bastante mais frágeis. Acho que há uma dívida de gratidão do Partido Comunista em relação ao Melo Antunes, porque se ele não tivesse, já depois do 25 de Novembro, ido à televisão dizer que o PC era fundamental para a construção da democracia portuguesa, os comunistas teriam de mergulhar outra vez na clandestinidade. E quando manifestou a vontade de o fazer, os amigos desaconselharam-no...

Também o fez?
Não. Achava que era muito bonito. Mas reconhecia que a carreira política dele acabaria no momento em que o fizesse. Ele acreditava que o seu papel já estava desempenhado.

Respeita politicamente Álvaro Cunhal?
Não tenho simpatia pelo dr. Álvaro Cunhal, respeito sim. Há outras personalidades políticas por quem sinto exactamente o inverso. É um homem que no seu aristocratismo e autoritarismo aguentou isto até hoje. Carvalhas já não sabe o que fazer. Um homem que está praticamente cego, que tem uma idade avançada, que desata a escrever, enfim... A pessoa e o intelectual merecem-me respeito. Agora se me fala dos métodos usados, direi então que são genericamente estalinistas. Recordo-me do Jdanov, da forma como foi encarregado de dirigir a política cultural dos partidos comunistas europeus, e recordo-me que só o Togliatti, na esteira de Gramsci, lhe fez frente. O resto ficou tudo de cócoras. E, no que respeita a Portugal, o Cunhal foi sempre um instrumento do estalinismo. Começa a entrar em perturbação com o XX Congresso, mas consegue sempre manter a imagem do fiel europeu. Que lhe faça bom proveito, mas não creio que tenha sido positivo para os comunistas portugueses, sobretudo depois do 25 de Abril.

A cultura é um tema que lhe é caro.
Muitos dos meus amigos são pessoas da cultura.

Até se diz que é um actor frustrado.
Não, não. Tenho várias frustrações. Fui um escritor frustrado, um zoólogo frustrado...

Um político frustrado?
Isso não me considero. A minha ambição nunca foi além do que fiz. Agora no resto da minha vida tenho várias. Basta-me dizer que fui para Direito para ser diplomata, facto que ocultei até à família. Só que nessa altura ser diplomata era frequentar os areópagos multilaterais e cuspirem-me no olho, tudo em nome de valores com os quais não concordava. Viveria isolado e não me apeteceu. Durante o terceiro ano de Direito mudei de intenção, e talvez por isso tenha tantos amigos na diplomacia.

A gestão dos silêncios, a forma como se sente confortável na sombra, é um pouco influenciada pela diplomacia.
Não sei. Nunca pensei nisso.

Ainda hoje um amigo comum me dizia que conhece a maioria dos nomes dos actores secundários do cinema clássico americano.
Tenho amigos cinéfilos, amigos com quem converso sobre cinema. O que sucede é que esta cinefilia de superfície não desce abaixo do grande estrelato de Hollywood. Para os cinéfilos de superfície pode parecer impressionante a minha memória. Conhecer o Ben Gazarra ou o John Cassavettes é hoje considerado um exemplo de erudição, acontece apenas que a malta esquece os que desaparecem. Digamos que a minha atenção ao cinema começa lá para os meus 12 anos, chega com as sessões no Europa ou no Paris e desenvolve-se com o cineclubismo dos anos 60.

Se pudesse escolher um personagem da história do cinema, qual nomearia?
Digo-lhe desde que não tire ilações quanto ao juízo que faço do filme nem o incorpore na minha lista de filmes preferidos. O Edward J. Robinson em The Cincinnati Kid, em jogo com o Steve McQueen. É puro ballet de olhos, uma interpretação de um actor absolutamente notável.

Qual é o seu papel na política? Actor principal, secundário, argumentista, produtor? Como é que aparece na ficha técnica?
Se for um western, posso ser o argumentista. Se for outro género, sou apenas o tipo que dá apoio a quem escreve a história.

Chegados a este ponto, parece-me que temos ainda outro ponto em comum. É que um dos filmes da minha vida é «O Homem Que Matou Liberty Valance»...
É o único filme que ainda hoje me faz chorar. Os nossos pais choravam com o Casablanca, na cena em que as putas cantam «A Marselhesa» e calam os alemães... Tenho uma grande paixão pelo Citizen Kane, não sou original, mas o único filme que me faz chorar é esse do John Ford. Dos contemporâneos, gosto muito do Clint Eastwood, um dos tipos que mais sabe de cinema. Os meus amigos do esquerdalho diziam-me que eu estava a ficar reaccionário, porque na cabeça deles o Eastwood era fascista..

Já passou há muito o tempo do "Dirty Harry".
Pois. Perante o Imperdoável, quem pode dizer que o homem é fascista? É um dos três ou quatro maiores westerns da história do cinema.

Partilha a paixão pelo cinema com o seu amigo Jorge Sampaio?
Penso que o Jorge gosta de cinema numa dose quanto baste. Ele é um melómano, sabe coisas delirantes sobre música, enquanto eu apenas sei se estou a gostar ou não. Vê muita coisa, pelo menos tanto como eu, mas não é uma bagagem que traga desde tão longe; acontece-lhe o mesmo com a literatura. Em contrapartida, quando nos conhecemos, o Jorge já tinha uma bagagem no ensaio e na filosofia política que eu não tinha. São raízes culturais diferentes, que ao longo dos anos convergiram, embora não totalmente.

Que grau de influência tem nas decisões do Presidente da República?
Certamente menor do que o grau de influência que ele tem sobre mim.

Porque é que deixou praticamente de escrever?
Escrevi no Expresso durante 16 anos. Agora, a coisa é mais complicada... Preciso de um prazo para respirar, não quero pensar em nada, apenas organizar o quotidiano com coisas diferentes e interessantes. Talvez mais tarde volte a escrever com regularidade.

Há pouco, quando estávamos a falar de cinema, só me nomeou nomes de actores...
Está a perguntar-me se me apaixonei em devido tempo pela Lauren Bacall?

Por exemplo.
Apaixonei-me pela Bacall, mas as paixões são totalmente subjectivas. Não me apaixonei pela Ava Gardner nem pela Brigitte Bardot, por exemplo.

E apaixonou-se muitas vezes na sua vida? Ou foi sempre homem de poucas paixões?
Poucas vezes. Em termos imaginários, várias.

A certa altura da vida é inevitável fazer-se um balanço entre o deve e o haver. Se o fizesse agora, teria coisas de que verdadeiramente se orgulhar?
Tenho algumas. Mas não se esqueçam de que há um taberneiro em Cantanhede, que tem como vizinho outro taberneiro de Cantanhede, que se orgulha imenso de vender o copo de três cinco tostões abaixo do concorrente. É uma glória limitada. Agora, se me pergunta se eu tenho um vazio por não ter conseguido realizar algumas das coisas que sonhei para a minha vida, então dir-lhe-ei que não o sinto. Talvez por isso seja um tipo que não tem medo nenhum da reforma... Se um tipo é obsessivo porque construiu a sua vida tendo como único alicerce a sua vida profissional então está liquidado, entra em contagem descendente para a morte. Só que eu nunca levei isto muito a sério, mantive sempre uma grande quantidade de focos de interesse.

Então, a reforma pode ser uma libertação.
É uma libertação. Tenho as minhas tertúlias, as minhas conversas políticas, as minhas idas ao teatro e ao cinema, os meus livros... Estou mais do que preparado