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O novo diretor da Escola de Dança do Conservatório Nacional não sabe fazer fouettés, mas vai ter de aprender a dar a volta

tiago miranda

Principal centro de formação de bailarinos profissionais em Portugal, a Escola de Dança do Conservatório Nacional, será dirigido pela primeira vez por alguém que não teve percurso profissional associado ao bailado

O diretor da Escola de Dança do Conservatório Nacional desde 2009, Pedro Carneiro, será substituído por Paulo Ferreira, professor de Português, o primeiro a liderar o principal centro de formação nacional de bailarinos profissionais que não vem da área artística.

O conselho geral da escola esteve reunido ao fim da tarde de quarta-feira sem a presença dos representantes da Companhia Nacional de Bailado e da autarquia. Os restantes presentes — representando professores, pais, alunos, funcionários, acompanhadores musicais e instituições externas que integram o organismo em representação da comunidade local, como a Fundação Maria Magdalena de Mello ou o Quórum Ballet — votaram em sigilo e o resultado expressou nove a favor da mudança, seis da continuidade. Dois votos foram brancos.

Durante a reunião, uma das pessoas que se manifestou foi a representante dos alunos, uma estudante do décimo segundo ano, que, segundo apurou o Expresso, terá mostrado alguma discordância quanto à forma como a escola tem sido conduzida e os efeitos desta orientação na divulgação do trabalho dos futuros bailarinos.

luís barra

Contactado pelo Expresso, Paulo Ferreira, o diretor recém-eleito, foi cauteloso, afirmando que aceitará prestar declarações “quando estiver terminado o processo concursal, que terá o seu fim depois do prazo de 10 dias para que a Direção-Geral da Administração Escolar (DGAE) se pronuncie sobre a homologação da eleição do diretor”. Conclui sinalizando que ainda podem surgir conflitos: “Até lá devo remeter-me ao silêncio, pois as diligências e os prazos para eventual reclamação dos resultados ou pedido de impugnação da eleição ainda não terminaram”. O ainda diretor Pedro Carneiro também foi contactado pelo Expresso, mas recusou-se a prestar declarações.

Pela primeira vez na história da escola, o destino dos futuros bailarinos formados em Portugal será orientado por um professor que, conhecendo a realidade específica destes alunos, não consegue dar corpo aos mais significativos movimentos que representam a dança, como os célebres fouettés, giros que, por exemplo, a bailarina que personifica o cisne negro dá sobre o seu próprio eixo, ou os grand-jettés, saltos impressionantes realizados pelos bailarinos.

Problemas sobem ao palco

O Conservatório Nacional funciona desde 1839 e, como explica o próprio site da escola, “embora a disciplina de dança fizesse parte do programa educativo original” e, de forma autónoma, a Escola de Dança tenha sido criada em 1971 no âmbito da reforma do ensino artístico, por impulso de Veiga Simão, então ministro da Educação, a estrutura atual de funcionamento só foi adotada em 1987, quando foi consolidado o regime de ensino integrado.

A situação de Pedro Carneiro à frente da direção da escola começou a tornar-se mais frágil a partir do momento em que a Direção-Geral da Administração Escolar pediu a sua suspensão de funções durante 80 dias e a cessação da comissão de serviço. Tudo começou com um diferendo entre Carneiro e um docente de Expressão Dramática há três décadas a dar aulas no Conservatório. Os problemas envolveram a alteração curricular e a denominação da disciplina e a posterior substituição do professor em causa por outra pessoa.

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Embora tenha sido advertido pela tutela de que não poderia “recorrer à contratação de docentes para a lecionação de disciplinas para as quais possui recursos humanos disponíveis, devendo fazer uma gestão eficiente, eficaz e racional dos mesmos”, Pedro Carneiro não seguiu as orientações e acabou por ser afastado e impedido de entrar no edifício. O braço de ferro com o Ministério da Educação continuou — e ainda não terminou — com a interposição por parte de Pedro Carneiro de uma providência cautelar, que devolveu o diretor às instalações centenárias da escola, em Lisboa.

A direção de Pedro Carneiro esteve ainda envolvida em críticas à admissão de alunos estrangeiros, sobretudo asiáticos, que poderiam representar uma concorrência interna aos alunos portugueses e o assunto chegou a ser classificado como “um buraco negro” pela associação de pais devido à falta de informação pública. Também a gestão financeira do estabelecimento escolar está a ser alvo de uma investigação, ainda em curso, por parte da Inspeção-Geral da Educação e Ciência.

Um dos momentos mais difíceis vividos pela escola foi quando se tornou público as razões do processo disciplinar movido contra um dos professores de referência, o ex-bailarino russo Mikhail Zaviolov, responsável pela formação de técnica clássica de vários alunos que alcançaram importantes colocações no mercado de trabalho internacional e que foi acusado de agredir fisicamente alguns estudantes.

A Escola de Dança do Conservatório Nacional terá agora de enfrentar uma nova fase, ao ser liderada pela primeira vez por alguém que não pertence ao universo artístico, mostrar-se capaz de ultrapassar os problemas surgidos e relançar o prestígio nacional e internacional dos seus alunos.