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“Nossa Senhora não aprendeu português para falar com Lúcia”

Carlos Azevedo, bispo-delegado do Conselho Pontifício para a Cultura

Rui Duarte Silva

Aos poucos, os arquivos secretos do Vaticano dão acesso à documentação sobre Fátima. Mas o processo será muito longo. Em Roma, D. Carlos Azevedo consultou os primeiros textos e publicou o livro “Fátima, das Visões dos Pastorinhos à Visão Cristã”. É esse o pretexto para esta entrevista em que explica como é fundamental ser rigoroso quando se fala do fenómeno da Cova de Iria. Sobretudo agora, a menos de um mês da vinda do Papa a Portugal, onde presidirá à cerimónia de canonização de Jacinta e Francisco Marto, confirmada esta semana pela Santa Sé.

O que encontrou nos arquivos secretos do Vaticano sobre Fátima?
O que está disponível para consulta são documentos até 1939. Depois, abrirá o que corresponde ao pontificado de Pio XII, até 1958, mas não há uma data prevista. Há mesmo ainda documentos até 1939 que não se podem consultar, por referirem pessoas que não morreram no espaço estipulado na lei para defesa do bom nome. Fátima, por se tratar de um fenómeno extraordinário como são as visões, é tratada num arquivo à parte, pertencente à Congregação para a Doutrina da Fé. Desde o século XVI que é assim, fazem parte de um arquivo à parte, dentro dos arquivos secretos do Vaticano.

Ainda não estão disponíveis os documentos essenciais dos segredos?
Não. Toda essa documentação é dos anos 40 e 50, quando o segredo foi enviado ao Papa e se começou a analisar todo o processo. O que encontrei foi o processo de nomeação do bispo de Leiria e de reconstrução da diocese. E que permite desfazer a ideia que haveria uma relação com o fenómeno da Cova de Iria. A restauração da diocese aconteceu em 1918 e o primeiro bispo foi nomeado em 1920, mas nada tem a ver com Fátima.

A recriação da Diocese nada tem que ver com as visões dos pastorinhos?
Nada. Porque no dia 30 de abril de 1917, isto é, 15 dias antes do 13 de maio, há uma carta do secretário de Estado para o núncio a dizer que estava decidida a restauração da diocese e a questionar quando seria oportuno torná-la pública. A decisão estava tomada e ninguém refere nada sobre Fátima. Aliás, o próprio bispo que foi depois escolhido desconfia. Há um amigo que lhe diz: “Vais para lá, até tens uma Lourdes portuguesa.” E ele responde: “Isso são coisas de crianças.” Ou seja, não estava nada animado. Só depois, com o contacto que teve com os testemunhos, ganhou confiança e acabou por aderir de alma e coração.

A hierarquia, seja em Portugal seja no Vaticano, começa por olhar para o fenómeno com alguma desconfiança?
Sim, claro. Até 1930 não há uma declaração de autenticidade. E isso só acontece porque o bispo acabou por criar, em 1922, uma comissão de investigação. Na altura, por pressão do atentado que foi feito contra a capelinha que tinha sido erguida na Cova de Iria e para onde se deslocavam cada vez mais pessoas.

Porque resistiu a Igreja?
Por haver vários fenómenos do género naquela altura. Na mesma região de Fátima, havia registo de fenómenos semelhantes e até contemporâneos. Havia uma busca do religioso, também como reação à opressão feita pela I República. E a Igreja desconfiava. Até que surge o 13 de outubro, com uma multidão enorme que assiste àquele fenómeno solar, que foi entendido como uma confirmação celeste de Fátima. Os grandes especialistas explicam que é uma refração de luz, que pode acontecer em determinadas condições atmosféricas. E, aliás, já tem acontecido. O Papa Pio XII, nos jardins do Vaticano, viu algo semelhante. Há uma série de sinais atmosféricos que uma pessoa que tem fé interpreta de determinado modo. Que os pastorinhos tivessem tido, meses antes, a indicação que naquele dia iria haver uma coisa extraordinária é que é espantoso. Como é que eles previram as condições atmosféricas, quando não havia na altura boletim meteorológico, nem eles o saberiam interpretar? Esse foi um fenómeno natural, sem dúvida. Mas Deus serve-se da Natureza.

Uma visão também é um fenómeno natural?
Sim, as visões são fenómenos psicológicos naturais. Mas Deus pode habitar neles e transformá-los numa revelação. Isto é, podem servir para mostrar alguma coisa que para aquelas pessoas e naquelas circunstâncias é luz. Porque o termo aparições é sempre incorreto. O termo teológico correto é visões.

Falar em visão não desvaloriza o fenómeno de Fátima?
O importante é que não utilizemos um tipo de linguagem que quem não crê possa ridicularizar ou brincar. Ao escrever este livro já vi algumas bocas nas redes sociais. Algumas pessoas ficaram escandalizadas quando, há anos, disse que Nossa Senhora não aprendeu português para falar com a Lúcia. Mas era para se compreender melhor que o diálogo com Deus se faz através de uma consciência interior, imaginativa como diz o Papa Ratzinguer. E esta experiência espiritual é autêntica no caso de Fátima. Ao mudar a linguagem, estamos a respeitar profundamente a fé dos peregrinos e a simplicidade da atitude dos pastorinhos. Porque é preciso ajudar a dar um sentido cristão a esta religiosidade natural e popular. Esse é o papel dos pastores. É o papel do santuário.

É normal o tempo de décalage entre os acontecimentos de Fátima e o juízo da Igreja?
Foi um pouco longo, sobretudo por causa do afazeres do cónego Formigão, que tinha de redigir o relatório final da comissão. O bispo estava sempre a pedir o relatório, porque já havia peregrinações a Fátima. Começava a haver movimento de mais de cem mil pessoas e o próprio bispo tinha decidido construir uma casa para receber doentes, tinha criado uma capelania. Estava a pôr o carro à frente dos bois...

E quando é que há um sinal claro da Santa Sé?
Só com o Papa Pio XII, em 1942. O próprio Papa também nota uma coincidência na sua vida: foi ordenado bispo no dia 13 de maio de 1917 na Capela Sistina e isso foi importante para ele. Como o foi, mais tarde, para João Paulo II que o atentado tenha acontecido em Roma, precisamente a 13 de maio. São nesses momentos que as pessoas se interrogam. Quem não tem fé pode sempre dizer que são coincidências, é claro. Para quem tem fé, são sinais. O Papa anterior, Pio XI, teve algumas apreensões. O seu secretário conta que, em privado, o Papa lhe tinha dito: “Ah, se a Nossa Senhora tem coisas a dizer, porque não me diz a mim?” Pio XI não ia muito em visões, até porque havia muitas e não se distinguia quais teriam realmente algum fundamento de mensagem.

O juízo da Igreja evolui em relação a Fátima. Mas também as próprias visões dos pastorinhos. O terceiro segredo surge só em 1941, após novas visões de Lúcia...
Sim, mas Lúcia atribui os três segredos à visão de julho de 1917. Lúcia teve uma longa vida que lhe permitiu fazer a interpretação daquilo que lhe aconteceu aos 10 anos. Vejamos: era uma criança que se deparou com um fenómeno cujo alcance não podia entender! E, claro, com a ajuda das visões posteriores que teve. Por exemplo, ela diz que muito mais tarde foi Nossa Senhora que lhe disse que já podia revelar a terceira parte do segredo e que lhe deu força para isso.

Sobretudo esse terceiro segredo é muito acompanhado pela Igreja.
A interpretação é acompanhada. Mas o texto de base é o mesmo tal e qual ela o escreveu ao bispo.

Lúcia vem de um meio muito pobre. É uma pessoa que se constrói e nessa construção entra a Igreja. Foi condicionada?
Fez parte da urgência do bispo tirá-la do ambiente e da pressão da gente que estava sempre a entrar-lhe em casa todos os dias a fazer-lhe perguntas e a pedir coisas. Retirou-a e deu-lhe outro nome, Maria das Dores, para que não se identificasse com a vidente de Fátima e pudesse estar tranquila e ter direito a uma infância.

Ela era assediada?
Sim, completamente. Constantemente. Por isso, acabou por fazer uma formação à distância. Mas que era muito importante, até para lhe permitir reler o que lhe tinha acontecido.

Desde o principio que a Igreja é acusada de se aproveitar economicamente de Fátima.
Houve muitas apropriações. A política apropriou-se de Fátima quando descobriu que ali estava uma fonte de coesão nacional. O Estado Novo percebeu que importava estar do lado da nação. E, se o povo é crente... Acho que isso é uma apropriação. Depois, podemos dizer que há uma apropriação pastoral porque a Igreja valoriza Fátima como polo de dinamização pastoral e litúrgica, de todo o país. São apropriações. Apropriar-se de uma coisa que tem valor é natural. Não podemos criticar os políticos por serem inteligentes e perceberem que há ali uma realidade importante. Depois, podemos discutir se são coerentes com as medidas que praticam... Mas o mal são as manipulações, como os negócios e todo o jogo de interesses.

Entrevista publicada na edição do Expresso de 22/04/2017