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Espécies exóticas ameaçam rios portugueses

Animais e plantas invasoras são altamente resistentes e afetam as espécies nativas. Pouco ou nada está a ser feito para erradicá-las

Carla Tomás

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Jornalista

Jaime Figueiredo

Jaime Figueiredo

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A cada dois anos uma espécie exótica nova entra em águas doces nacionais. O alerta é de uma equipa de investigadores do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) que teme as consequências desta invasão para as espécies nativas e os seus habitats. “Só na última década entraram em Portugal cinco novas espécies de peixes”, garante Filipe Ribeiro, biogeógrafo da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e um dos cientistas da equipa do MARE que se debruça sobre esta praga nos rios, lagoas e albufeiras portugueses.

Algumas das espécies — sobretudo peixes, mas também bivalves, crustáceos e plantas — são transportados acidentalmente nas águas de lastro dos navios, ou introduzidos de forma negligente ou propositada para alimentar a pesca desportiva. Há os que descem os rios ibéricos e os que são despejados de aquários domésticos para a ribeira. E se há uns que parecem ser casos isolados — como o pangásio encontrado em 2015 na ribeira de Barcarena (Oeiras) ou o pacu (da família das piranhas) que apareceu no rio Nabão — outros, como as carpas, os siluros ou os lagostins reproduzem-se aos milhares. E, “podemos estar perante um conto do Frankenstein”, adverte Filipe Ribeiro, porque, “apesar das boas intensões de algumas introduções, não se sabe exatamente quais vão ser as consequências”.

Crustáceos como o lagostim-vermelho-da-Louisiana ou o caranguejo-peludo-chinês “têm impacto na biodiversidade em geral, sendo notórios os efeitos negativos sobre anfíbios, invertebrados e vegetação aquática, assim como um problema para os arrozais e as redes de pesca”, explica Pedro Anastácio. Este investigador da Universidade de Évora revela que a nível europeu, “estima-se que as espécies exóticas tenham um custo anual de 12 mil milhões de euros associados ao controlo e reparação de danos”.

Das 64 espécies de peixes existentes na bacia do Tejo, 19 são exóticas. Muitas nadam por cá há décadas, como a carpa ou o achigã (ver caixas), mas algumas chegaram recentemente, como o bagre ou o siluro (peixe-gato-europeu). Este último é um dos invasores “com maior impacte”, afiança Filipe Ribeiro, já que “come tudo o que apanha e ingere diariamente o equivalente a 2% — 5% do seu peso”. Fazendo as contas, o exemplar de 58 quilos capturado há três semanas, nas Caneiras (Santarém), precisava de quase três quilos de alimento diário.

Achigã vs. saramugo

Estes predadores são uma ameaça para as espécies indígenas. Exemplo disso, conta o biólogo, é o que aconteceu com a introdução de achigãs na ribeira do Álamo, no Alentejo, “levando ao desaparecimento de uma das 10 populações nacionais de saramugo [pequeno peixe endémico da Bacia do Guadiana em risco de extinção]”. Por isso, defende “a necessidade de uma gestão integrada, podendo os pescadores pescá-los mas não reintroduzi-los”.

Num inquérito recente a pescadores desportivos (são cerca de três mil federados), 22% dos inquiridos assumiram ter já introduzido um achigã em águas doces nacionais, o que leva os cientistas a apelarem ao reforço da legislação e da fiscalização e à realização de campanhas para consciencializar as pessoas para o problema.

A lei proíbe criar, vender ou introduzir na natureza espécimes invasoras, mas o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) não tem dados sobre coimas aplicadas e admite que “ainda não foi possível efetuar campanhas para erradicar espécies invasoras”. Para “apoiar planos de ação para controlar as vias de introdução de espécies exóticas em Portugal e na União Europeia” e monitorizar as existentes” já avançou com uma candidatura a fundos comunitários.

Também está a ser preparada nova legislação que prevê multas de 200 a 30 mil euros para os pescadores que devolvam às águas os peixes capturados. “É uma coima exorbitante”, critica o presidente da Federação Portuguesa de Pesca Desportiva. Carlos Batista alega não ter “conhecimento” de que os pescadores andem a espalhar carpas, achigãs ou trutas-arco-íris (as três espécies que entram nas competições) e argumenta que os regulamentos internacionais não permitem que se mate o peixe nas competições. “Será um descalabro para a federação se acabarem com estas espécies e um prejuízo para muitas autarquias que veem os restaurantes e gasolineiras cheios, sempre que há um campeonato”, lamenta.

O transporte marítimo é um dos principais canais de entrada de muitas espécies, como o caranguejo-peludo-chinês ou a amêijoa-japonesa, explica a bióloga Paula Chainho, do MARE. Muitos “chegam ao Tejo nas águas de lastro dos navios ou agarrados aos cascos e uma das formas de prevenir este problema é levando os armadores a implementar medidas para eliminá-los com ultravioletas ou ozono”, sugere. Outra, acrescenta, “é a sensibilização junto das marinas para que a limpeza dos barcos seja feita em doca seca e não na água”.

A amêijoa-japonesa e o caranguejo-peludo-chinês são um negócio para muitos pescadores, sobretudo no Tejo e, segundo Paula Chainho, “representa um negócio de €23 milhões por ano”. Contam-se 1724 apanhadores deste bivalve, o que motivou a sua introdução intensiva. Apesar do enquadramento legal da apanha, a sobrepesca começa a ter efeitos.

O Tejo também está “infestado de caranguejos-peludos-chineses”, muito apreciado pela comunidade asiática, garante o pescador José Padinha. “São aos milhares nesta altura do ano entre a Ponte Vasco da Gama e a Chamusca” e apesar de darem prejuízo aos pescadores porque roem as redes e os camaroeiros, “são um bom negócio”, garante.

Estas espécies já invadiram os rios portugueses e constam da lista europeia de preocupações. Mas outras podem chegar em breve, como o mexilhão-zebra que já anda pela zona de Sevilha.

Artigo publicado na edição do Expresso de 22/04/2017