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Historiador reafirma que Colombo não era português nem espião de João II

Colombo anuncia aos Reis Católicos de Espanha, Fernando e Isabel, a descoberta da América (quadro de Emanuel Leutze, 1843) 

Brooklyn Museum

Luís Filipe Thomaz reabre o debate sobre a origem do navegador num artigo publicado pela Universidade Nova

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Chama-se Centro Cristóvão Colon e é um espaço na vila de Cuba, Alentejo, que incentiva os visitantes a descobrir quem era o navegador, através de uma exposição que reúne telas, livros e mapas. O centro, criado em 2011 pela Câmara Municipal de Cuba e a Associação Cristóvão Colon, baseia-se na crença de que Colombo era português, nasceu nesta vila e o seu apelido era Colon. No centro de Cuba, em frente ao tribunal, há ainda uma estátua de bronze do almirante que descobriu a América em 1492.

A crença tem atraído muitos visitantes à vila, mas o mais consensual entre os académicos é que Colombo nasceu em Génova em 1451. “Os que defendem o contrário são historiadores amadores”, afirma Luís Filipe Thomaz ao Expresso. Para acabar “com as loucuras que por aí correm a respeito de Colombo”, o maior historiador português do Oriente resolveu publicar um extenso artigo de 60 páginas, intitulado “Cristóvão Colón: português, natural de Cuba, agente secreto de D. João II?”, nos “Anais de História de Além-mar”, revista científica do Centro de História d’Aquém e d’Além-Mar (CHAM) da Universidade Nova de Lisboa (UNL).

Mas quem são os “historiadores amadores”? O mais citado é Mascarenhas Barreto, que faleceu em janeiro. Foi a sua obra “O Português Cristóvão Colombo, agente secreto do Rei D. João II”, que “desencadeou em Portugal uma torrente de especulações e fantasias”, nota Filipe Thomaz. “Barreto não era historiador, mas sim tradutor, romancista e poeta”, acusa. Há também quem dê conferências sobre o assunto, como os irmãos José e António Mattos e Silva, membros da Associação da Nobreza Histórica de Portugal. “Também não são historiadores, mas engenheiros”, contrapõe o investigador da UNL.

Mascarenhas Barreto, que publicou três livros sobre o assunto, identifica Colombo como fruto dos amores do infante D. Fernando, irmão do rei D. Afonso V, com uma filha do navegador João Gonçalves Zarco. O seu verdadeiro nome seria Salvador Gonçalves Zarco e teria nascido na vila de Cuba, onde foi educado, sendo essa a razão por que deu o nome de Cuba à famosa ilha e nomes de aldeias alentejanas a diversos lugares que explorou nas Antilhas e no continente americano. O problema, segundo Filipe Thomaz, é que “nenhuma crónica ou documento de arquivo alude, sequer ao de leve, a existência de um filho bastardo de D. Fernando”.

Em contrapartida, o Cristóvão Colombo genovês “é uma figura histórica, cuja existência é atestada por documentos de insofismável autenticidade, dos quais os mais antigos datam de 1470”, argumenta o historiador do Oriente, “e a sua juventude não é mais misteriosa do que a de qualquer outro descobridor do século XV, como Diogo Cão, Bartolomeu Dias ou mesmo Vasco da Gama”.

Cuba, o topónimo nativo

O que deu lugar às especulações sobre a sua juventude “foi a aura de mistério de que o seu filho e biógrafo, Don Hernando Colón, tentou cercar a família, simplesmente porque o pai era de origem modesta, filho de artesãos, embora de certas posses”. Os documentos históricos dizem, por outro lado, que Colombo se estabeleceu em Lisboa em 1476, mas não rompeu os seus laços com Génova, nomeadamente porque ficou a trabalhar como agente da casa comercial Centurione.

Filipe Thomaz analisa também a origem do nome Cuba. “O da vila alentejana deriva do substantivo cuba, recipiente para fazer vinho ou dorna quadrada, por sua vez derivado de cubo”, mas o nome da ilha que Colombo começou a explorar na sua primeira viagem à América “nada tem que ver com ele, pois é um topónimo nativo”. Basta ler o seu diário: o navegador ouviu falar de Cuba ainda nas Bahamas, dez dias depois de chegar ao Novo Mundo.

Estátua de bronze do almirante Cristóvão Colombo 
no centro da vila de Cuba, Alentejo

Estátua de bronze do almirante Cristóvão Colombo 
no centro da vila de Cuba, Alentejo

Câmara Municipal de Cuba

Quanto à tese de boa parte dos nomes que Colombo deu aos lugares que explorou serem réplicas de nomes de aldeias vizinhas da vila de Cuba, ou relacionadas com Portugal, Filipe Thomaz diz que a lista de 38 nomes referida por Mascarenhas Barreto “parece ter sido feita com base num passeio dos olhos por um mapa atual e não na sequência de um exame cuidadoso de documentação existente, pois inclui até nomes de localidades situadas a mais de 10 léguas (50 km) da costa, onde Colombo jamais conseguiria chegar de caravela”.

Além disso, inclui nomes de vários lugares onde o navegador nunca passou. É o caso do Canal de Santarén, a sul da Florida; das ilhas de Santa Luzia e São Vicente, nas Pequenas Antilhas; ou ainda de Curaçao e San Bernardo. Curiosamente, há pelo menos dois topónimos de clara origem italiana dados por Colombo: Saona (Savona) e Portobelo (Porto Bello).

Entretanto, Filipe Thomaz aborda também os motivos que podiam ter levado o rei D. João II a utilizar o navegador como agente secreto. “Tem-se aduzido como prova de que o almirante agia em conivência com o soberano português o facto de no regresso das Antilhas (primeira viagem) ter aportado a Lisboa antes de se dirigir a Sevilha” para falar com os Reis Católicos. A verdade é que D. João II “dera ordem para que o prendessem em qualquer porto português onde fundeasse”, o que chegou a acontecer quando passou pela ilha de Santa Maria, nos Açores, na sua viagem de regresso da América. Acabou por ser libertado e continuou a viagem, mas teve de enfrentar uma série de tempestades e quando chegou perto da costa portuguesa viu-se obrigado a encontrar refúgio no porto de Lisboa. As autoridades locais participaram a sua chegada a D. João II e foi o rei que o mandou chamar à sua presença, conta o cronista João de Barros. Ou seja, “quanto aos serviços a D. João II, prestou-lhe o pior que se podia imaginar: desviar para o Atlântico, onde entravam facilmente em choque com os interesses portugueses as atenções de uma Espanha unificada voltada para o interior da Península Ibérica, o Magrebe e o Mediterrâneo”, conclui Filipe Thomaz.

“Não tenho dúvidas de que Colombo não era agente secreto de D. João II”, sublinha João Paulo Oliveira e Costa. O diretor do CHAM (Universidade Nova), centro com mais de 300 investigadores filiados, concorda no essencial com o artigo de Filipe Thomaz, mas considera “muito estranho que um plebeu genovês filho de mercadores como Colombo tenha casado com Filipa Moniz, filha de um membro da Casa de Viseu, Bartolomeu Perestrelo, que pertencia à média nobreza”. Oliveira e Costa não conhece “nenhum outro caso como este” e insiste que “o conjunto da informação que hoje temos não bate certo com as práticas da época”. E também é estranho “que escrevesse apontamentos em português, sendo genovês”. No fundo, “é uma personagem enigmática quando fala de si própria, não deixa tudo muito claro” e, por isso, “falta um estudo desapaixonado sobre Cristóvão Colombo”.

ARGUMENTOS

As origens
Cristóvão Colombo não nasceu na vila de Cuba, no Alentejo, mas em Génova, sendo filho de mercadores com algumas posses e não filho bastardo do infante D. Fernando, irmão do rei D. Afonso V

Toponímia das Antilhas
Os nomes que deu aos lugares que explorou nas Antilhas e no continente americano estão relacionados com os dias dos santos, com a toponímia nativa ou até com cidades italianas, mas não com a vila de Cuba e as aldeias mais próximas, ou pelo menos com Portugal

Colombo ou Cólon
Traduzir o nome e adaptar o sobrenome era no século XV uma prática corrente. Na época em que viveu em Portugal, ainda se denominava Colombo, mas quando se mudou para Castela modificou o nome para Colón, conta o seu filho e biógrafo Hernando Colón

Agente secreto?
Colombo prestou ao rei D. João II o pior serviço que se podia imaginar: desviar para o Atlântico as atenções de uma Espanha unificada voltada para o interior da Península Ibérica, o Magrebe e o Mediterrâneo