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EUA vs Coreia do Norte: a importância da ciberguerra preventiva

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Os americanos estão em guerra com a Coreia do Norte há mais de três anos. Altura em que Barack Obama ordenou ao Pentágono uma escalada dos ataques eletrónicos que já estavam em curso contra aquele país. Afinal, há muito que os testes com armas nucleares feitos pela Coreia do Norte irritam – e preocupam – os americanos. Aliás, não é só o Tio Sam que não acha piada aos mísseis intercontinentais coreanos. A Europa exclama a uma só voz contra as deliberadas provocações de Kim Jong-un que insiste em desenvolver armas nucleares.
A conversa de Obama com os seus generais teve efeitos práticos. Dúvidas? Basta ver o que aconteceu no mais recente teste balístico coreano que ocorreu este fim de semana e deu origem a uma SÉRIE DE MEMES NA INTERNET

Na verdade, segundo o que É POSSÍVEL LER no New York Times, a tecnologia dos mísseis utilizada pela Coreia de Norte é muito semelhante à usada pelos russos. A grande diferença é que a taxa de erro nos testes russos é de 13% a dos coreanos é… 88%!

Na base desta discrepância estará, acredito, a falta de capacidade norte-coreana para produzir tecnologia ao nível dos russos. No entanto, a incompetência não justifica tudo. O grande responsável pelos falhanços no plano nuclear de Kim Jong-un será a tal ciberguerra preventiva que terá sido impulsionada por Barack Obama, mas que existirá, também com base no artigo do New York Times, desde o tempo de George W. Bush que, em 2002, ordenou a colocação de sistemas antimíssil no Alasca e na Califórnia. E fez mais. Sob as suas ordens, as secretas americanas arranjaram forma de entrar na cadeia de produção dos componentes que viriam a integrar as armas coreanas. Essa infiltração tinha por objetivo fornecer componentes defeituosos com o intuito de provocar avarias nos sistemas balísticos daquele país.

Apesar de todas pedras colocadas nas engrenagens nucleares coreanas, a verdade é que a família de ditadores que controla com punho de ferro a Coreia do Norte parece estar agora prestes a concretizar os seus planos de lançar um míssil que terá a capacidade de atingir território americano.

Quer isto dizer que está na altura dos ciberagentes das agências de segurança americanas mostrarem os seus dotes. Talvez conseguindo fazer um brilharete como o conseguido quando impediram as centrifugadoras nucleares iranianas de funcionar (com a injeção de um vírus nas centrais nucleares) e, assim, atrasar em anos o plano nuclear daquele país.

Como será com a Coreia do Norte? NESTE ARTIGO da New Yorker, é explicado como agentes russos fizeram o que era considerado, até à altura, impossível: entrar numa rede privada que não estava ligada à Internet. Estávamos em 1996 e os espiões decidiram apostar na grande fraqueza de qualquer sistema informático: o fator humano. O objetivo era entrar numa rede da NATO. Para isso, os agentes russos colocaram pens USB infetadas à venda em lojas que ficavam perto de uma base militar da NATO em Cabul, no Afeganistão. Pouco tempo depois, alguém comprou inadvertidamente uma dessas unidades e ligou-a a um computador da base. A infiltração estava feita.

Também as redes utilizadas pelas instituições norte-coreanas não estão ligadas à Internet. Mas um especialista ouvido pela BUSINESS INSIDER explica como é que vários dispositivos usados na Coreia já podem estar infetados com software espião que vai, em determinado momento, ser acionado e prevenir o ataque nuclear coreano. Esse malware pode lá ter chegado a partir de pens infetadas, filmes e músicas piratas ou, quem sabe, a partir da ação de um qualquer dissidente. O que interessa reter é que a Coreia do Norte será ainda muito imatura (como diz a fonte ouvida pela Business Insider) nestas questões do hacking. Uma sorte para o mundo, direi eu.

Ou seja, é possível que os mísseis disparados pelos norte-coreanos nunca cheguem a levantar voo ou a sair do espaço aéreo daquele país. Mas poderei estar a confiar demasiado na tecnologia. Se fosse assim tão simples, o que levaria Trump a esta tomada de posição pública e às respetivas movimentações militares?

Provavelmente, o atual presidente norte-americano tem um briefing dos seus militares que indica a existência de uma possibilidade, por mais ínfima que seja, de um dos mísseis de Kim Jong-un conseguir passar o tal escudo informático de defesa criado sub-repticiamente nos últimos anos.

Num mundo cada vez mais “em brasa” (veja-se o resultado do referendo na Turquia deste fim de semana, por exemplo), é notória a importância das ciberguerras preventivas. E é relevante esclarecer que, no que ao armamento digital diz respeito, só há três países capazes de limpar, em grande escala, o resto do mundo. São eles os Estados Unidos, a Rússia e a China. O que nos deixa outra questão preocupante: a Coreia do Norte tem o apoio da Rússia e da China, o que acontecerá, em termos de armas digitais de destruição massiva, se os EUA atacarem o regime de Kim Jong-umn?

Nada. No xadrez da geopolítica já terão sido mexidas as peças necessárias para que uma transição do poder na Coreia do Norte se dê da forma mais “suave” possível. Aliás, isso mesmo foi revelado em documentos diplomáticos tornados públicos pela Wikileaks em 2010. Pode ler a informação publicada no THE GUARDIAN. É verdade que passaram 7 anos. Mas também não deixa de ser evidente que o “miúdo mimado”, como a China designa a Coreia do Norte nos documentos referidos, continua no mesmo registo – ou pior.

Com as movimentações dos exércitos americanos e com um presidente como Trump de dedo leve no gatilho, é fácil antever que a “questão coreana” pode ter uma resolução a curto prazo. A reunificação da Coreia será uma realidade e, nesse momento, começará outra luta. Desta vez, pelos recursos naturais do país, muito rico em materiais raros, essenciais ao fabrico de dispositivos eletrónicos. Será a China o país melhor colocado para usufruir desses “despojos de guerra”. O que, a acontecer, só reforçará a posição chinesa como maior produtor mundial de tecnologia. O relógio está a contar…