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A pele que há em mim

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Chega o verão e o discurso repete-se: é preciso ter cuidado com o sol. E isso é mesmo verdade, mas não significa pôr um protetor solar. O segredo da melhor proteção está no tipo da pele

Carolina Reis

Carolina Reis

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Jornalista

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

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Jornalista infográfica

O verão começa mais cedo na casa de Ana Agostinho. Mal o sol espreita, esta mãe de duas crianças, de seis e dois anos, corre à farmácia para comprar o protetor solar mais forte. “Mesmo que não seja verão, ponho-lhes protetor 50+, nem que seja para ir brincar no parque à sombra.”

A preocupação com o sol não nasceu com a maternidade. A pele muito clara (um fototipo 2), as sardas e os olhos azuis habituaram (e obrigaram) Ana a cuidados redobrados. Se há sol, ela e a família usarão o mais elevado nível de proteção.

A pele do filho mais velho, um miúdo ruivo cheio de sardas, de início foi um susto. “Esperei que ele tivesse dois anos até o levar à praia e, quando era bebé, só saía com uma sombrinha na cadeirinha. Era o primeiro filho, mais branco do que eu, e confesso até que exagerei.” Percebe-se o drama. O filho tem a mais sensível de todos os tipos de pele (fototipo 1). Típica dos ruivos com olhos claros, esta pele queima e nunca bronzeia. Manuel consegue ser ainda mais branco do que a mãe, que, aos 36 anos, devido à textura da pele tão seca já tem traços marcados na testa e à volta dos lábios. O filho mais novo, um rapaz de dois anos, completa o dégradé, sendo o mais escuro dos três. Tem um fototipo 3, típico de quem tem cabelo louro escuro ou castanho claro e consegue obter um bronze duradouro. Saiu ao pai. Ao fim de uma quinzena na praia, fica com um tom moreno. Apesar de ser mais tolerante ao sol, tem um eczema atópico, comum nas crianças desta idade, e todos os cremes que usa têm de ter isso em atenção. Seca facilmente e dá muita comichão. “As peles mais claras sofrem sempre quando são mais expostas ao sol. Quanto mais brancas, mais sensíveis e com maior risco de neoplasia [tumores benignos e malignos]”, explica Manuela Pecegueiro, diretora do Serviço de Dermatologia do Instituto Português de Oncologia de Lisboa (IPO).

Ana apanhou tantos escaldões que, desde a juventude, anda com um protetor solar na mala. “Bastava que fosse andar de baloiço sem pôr protetor.” Aconteceu tantas vezes que vai uma vez por ano à dermatologista para uma análise completa a todos os sinais do corpo. Conhece os riscos inerentes ao seu fototipo de pele. Sabe que tem mais hipóteses do que uma morena, de olhos escuros, que todos os anos se bronzeia (fototipo 4) de desenvolver cancro cutâneo. Uma probabilidade que cresce com a idade. Segundo a Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (SPDV), os melanomas estão na lista de doenças mais comuns na idade adulta, podem começar a surgir a partir dos 20 anos. Já os basaliomas e os carcinomas espinhocelulares são mais comuns na terceira idade. Doenças de pele não são sinónimo de cancro. A lupus, a dermatite de contacto alérgica, a urticária e a psoríase surgem na idade adulta. Enquanto o acne e o eczema seborreico são mais comuns durante a adolescência. “Há algumas doenças que até melhoram com o sol, mas pioram com o excesso de exposição”, frisa Manuela Pecegueiro.

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Com 0 a 6 anos Eczema atópico; lesões de prurigo agudo - 6 a 12 anos Moluscos contagiosos (borbulhas róseas); verrugas (cravos) - 13 a 19 anos Acne; eczema seborreico (caspa no couro cabeludo e na face, nas áreas com pelos ou pregas); eczema de contacto por irritação da pele ou alergia a produto aplicado (creme, perfume, tinta capilar) - 20 a 59 anos Melanoma (tumor maligno); eczema
ou dermatite de contacto alérgica; urticária; psoríase; lúpus eritematoso; erisipelas e fasceítes, infeções provocadas por bactérias carnívoras - mais de 60 anos Basalioma e carcinoma espinho celular (tumores malignos); queratoses actínicas (lesões que costumam anteceder os tumores); eczema ou dermatite de estase (manchas, crostas e comichão nas pernas)

Desengane-se, porém, quem achar que por ter um fototipo mais elevado, como o 3 (pele branca e cabelo louro escuro ou castanho claro) ou o 4 (pele branca mas morena e cabelo castanho escuro ou preto), ou for de origem indiana ou africana (correspondente aos fototipos 5 e 6) está mais protegido. O cancro cutâneo não discrimina a cor da pele. Pode aparecer em qualquer tipo de pele, embora os mais claros tenham maior risco de o contrair.

Contudo, o cuidado com o sol não começa nem acaba na praia. Nem se limita ao verão. A médica do IPO contou, exatamente, isso ao Expresso, o ano passado, antes do pico das férias de agosto (edição de 13 de agosto). A exposição solar existe o ano todo e não é a mesma em todas as geografias. A altitude e a latitude influenciam o fator do protetor solar que se deve usar. Ir de férias, em fevereiro, para um país tropical obriga a um reforço extra do protetor solar, mesmo que se tenha uma pele mais escura e que raramente se queime (os fototipos 4, 5 e 6), pois passamos de um ambiente protegido para outro desprotegido, numa altura em que o relógio biológico ainda não dá sinal de que é calor.

Até na praia há diferença entre estar na areia ou entre caminhar à beira-mar ou longe da água — a areia branca e a água funcionam como um reflexo dos raios solares. Assim que passamos a linha do Equador, numa viagem ao Brasil, por exemplo, podemos contar com raios de sol mais fortes. Em caso de dúvida, é sempre preferível usar um nível de proteção acima do utilizado habitualmente. Nos fototipos 1 e 2 — e em todas as crianças — só se admite o 50+. Já nos fototipos 3 e 4, o protetor deve ter um nível 20 e nas peles mais escuras, o fototipo 5 e 6, basta o 15. Não é preciso dizer que a proteção tem de ser, frequentemente, renovada. E também não é preciso relembrar que entre as 11h e as 16h se deve evitar a praia. “Há que ter em conta as medidas físicas (chapéu ou boné e roupa) e lembrar que a proteção solar e o índice de proteção só existe quando o protetor é aplicado em quantidade suficiente”, frisa a dermatologista Luísa Caldas Lopes.

Um mundo de protetores

Escolher um protetor não se limita apenas ao nível de proteção. É preciso perceber qual é o tipo de pele: normal, seca ou oleosa. É que a textura — se é emulsão, creme, óleo ou fluido — é destinada a tipos de pele específicos. Não se usa numa pele oleosa um protetor com textura de óleo, o mais indicado é que seja uma emulsão ou um fluido. Assim como também não se receita uma emulsão a uma pele seca, optando-se antes por um creme. Depois, é preciso saber se existe algum tipo de problema, como eczemas ou dermatites. Se sim, deve ser o médico a prescrever a compra.

O mundo dos protetores solares divide-se entre os químicos (com substâncias químicas para filtrar a radiação) e os minerais (constituídos por pigmentos, costumam deixar a pele esbranquiçada). Estes últimos são os indicados para peles com doenças dermatológicas e crianças até aos três anos.

Conhecidos e analisados todos estes fatores, há centenas de marcas à venda em farmácias, supermercados e lojas de cosmética. O preço não significa nada. É que a escala que controla os índices é a mesma em toda a Europa e está sujeita a apertadas regras de controlo.
Os escaldões não se apanham apenas na praia. “O sol da cidade é o mesmo do da praia. As pessoas estão expostas ao sol quando vão andar de bicicleta, passear de barco ou fazer caminhadas. As crianças fazem o recreio à hora de almoço e, se não houver sombra, brincam ao sol”, afirma Manuela Pecegueiro.

Sol é também sinónimo de envelhecimento. Peles — sejam quais forem os tipos – que passaram muitas anos ao sol, têm tendência para envelhecer mais cedo e mais rápido. “O fotoenvelhecimento de uma forma geral (envelhecimento da pele causado pelo sol ) pode ser mais evidente. Mas a pele morena também envelhece”, frisa a dermatologista Luísa Caldas Lopes. E são, novamente, os tipos de peles mais claras os mais sensíveis. “As peles com fototipo mais baixo envelhecem mais depressa”, reforça a médica do IPO de Lisboa. Ana Agostinho que o diga. Usa um creme para as rugas recomendado para mulheres que já passaram os 40 anos.