Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

“Queremos evidência… toma lá ciência”, gritaram nas ruas de Lisboa

Expresso

Mais de 700 pessoas, entre as quais o ministro Manuel Heitor e o comissário europeu Carlos Moedas, manifestaram-se este sábado, em Lisboa, em defesa da ciência em Portugal e no mundo. Com palavras de ordem como a que dá título a esta peça, lembraram que “os factos não tomam partido”

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

A ritmo animado de tambor mais de 700 pessoas participaram na “Marcha pela Ciência”, realizada esta tarde em Lisboa. A capital portuguesa juntou-se assim ao movimento global, que alastrou a mais de 500 cidades em todo o mundo, em defesa dos factos científicos e contra os “factos alternativos” propagados pela administração norte-americana presidida por Donald Trump e que tem ecos noutros países.

“A ciência é de todos e para todos”

“A ciência é de todos e para todos”, sublinhou Maria Mota, investigadora e diretora executiva do Instituto de Medicina Molecular (iMM Lisboa) e fundadora da Associação Viver a Ciência. Para a galardoada em 2013 com o Prémio Pessoa, “a ciência é um instrumento que permite a uma sociedade assistir a um desenvolvimento saudável, tolerante e plural”.

Entre o Largo de São Mamede e o Largo do Carmo, que a organização lembrou ser “o berço da democracia” em Portugal, os manifestantes fizeram ecoar palavras de ordem como “queremos evidência, toma lá ciência” e “ciência sim, silêncio não”.

O mote foi agarrado pelo comissário europeu da Ciência e Inovação, Carlos Moedas, que desafiou os cientistas a "não terem medo de gritar pela ciência" e a manifestarem-se, porque "sem ciência não há paz, não há democracia e não há futuro". Em conversa com o Expresso, Carlos Moedas lembrou que “vivemos um momento assustador no mundo porque há pessoas que deixaram de acreditar na ciência”.

E não se refere só a Donald Trump, mas também ao que se passa em França (refletido nos discursos de Marine Le Pen) ou na Hungria, com as barreiras levantadas à entrada de instituições científicas estrangeiras. “A ciência é a base do crescimento, da riqueza e do desenvolvimento social e se não lutarmos por ela, veremos a história repetir-se”, alerta.

Também o ministro da Ciência, Manuel Heitor, que participou na manifestação na dupla qualidade de cientista e político, afirmou ao Expresso que “um mundo melhor só se faz com mais conhecimento e cooperação científicos e com mais envolvimento das pessoas”. Apesar das críticas de que ainda há muito trabalho científico precário e de que as verbas disponibilizadas não chegam, Manuel Heitor afirma estar no Governo “pela ciência e não contra a ciência” e que “o Governo está a fazer o melhor que pode”.

O Comissário Europeu para a Ciência, Carlos Moedas

O Comissário Europeu para a Ciência, Carlos Moedas

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Ciência em Portugal recebe 1,3% do PIB

O orçamento para a ciência em Portugal, ronda 2405 milhões de euros anuais, o que representa um investimento equivalente a 1,3% do PIB. Mas já houve anos em que chegou a 1,5% do PIB.

Estamos a fazer um esforço para aumentar o investimento”, argumenta o presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), Paulo Ferrão, que também participou nesta marcha. “A ciência tem progredido de forma extraordinária em Portugal, nos últimos 20 anos”, sublinha. No entanto, admite que “os cortes que se fizeram há uns anos deixaram marcas que não se resolvem de um dia para o outro”. Paulo Ferrão considera que “é importante acarinhar a comunidade científica” e que “a ciência seja apropriada pela sociedade em geral”.

Para o presidente da FCT, os cortes no orçamento da ciência nos EUA e as barreiras que a administração Trump quer levantar “prejudicam sobretudo os EUA”, mas podem fazer da “a Europa uma alternativa ao investimento em ciência", argumenta. "E Portugal pode aproveitar isso.”

MIGUEL A. LOPES/LUSA

"Factos alternativos são palavras perigosas"

O número de manifestantes surpreendeu a organização da Marcha pela Ciência. Raul Santos Jorge, um dos organizadores da iniciativa, reforça a “importância desta adesão da sociedade portuguesa”. Este geólogo da Faculdade de Ciências de Lisboa sublinha que tal adesão “demonstra a solidariedade da comunidade científica e dos cidadãos em defender que não é possível fazer ciência sem liberdade" e que "o problema que já paira sobre a comunidade científica americana, começa a ameaçar a Europa”.

A marcha de Lisboa contou também com a participação de muitos cientistas estrangeiros que estão a trabalhar em Portugal, das mais diversas nacionalidades, da Rússia à Colômbia, passando pleos EUA. Entre eles, o Expresso falou com o americano Eric DeWitt, que estuda como animais e humanos tomam decisões.

Para o neurocientista, que trabalha na Fundação Champalimaud, “é muito perigoso que palavras como ‘factos alternativos’ sejam aceites numa sociedade democrática”. Sublinhando que “a ciência é fundamental para a compreensão da realidade numa democracia”, argumenta que “não podemos deixar que a religião, a filosofia ou a base política de cada um redefinam factos tão claros como eu estar a pisar a calçada portuguesa aqui no Largo do Carmo ou o Sol estar lá em cima”.