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Os aros que ainda queimam estão expostos no Museu de Arqueologia

Algemas, grilhetas e coleiras que se assemelham às usadas nos cães, mas que andaram no pescoço de seres humanos, escravos de 'senhores' portugueses, já estão expostas ao público no Museu Nacional de Arqueologia, na freguesia Belém, em Lisboa

As duas coleiras usadas por escravos de proprietários portugueses continentais, peças raras que estiveram desaparecidas cerca de seis décadas e foram reencontradas recentemente, estão desde a tarde deste sábado expostas no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, no âmbito da exposição “Um Museu. Tantas Coleções!”

As duas raridades, encontradas num caixote do museu graças a uma reportagem do Expresso, integram-se numa exposição mais vasta, uma mostra de 200 peças e documentos impulsionada pelo projeto "Testemunhos da Escravatura. Memória africana” que envolve 42 instituições da capital e faz parte da programação da “Lisboa 2017 — Capital ibero-americana de cultura”.

Como disse à agência Lusa, a arqueóloga Ana Isabel Santos, conservadora do MNA, trata-se de um projeto “muito estimulante”, já que “permitiu revisitar coleções de etnografia mais antiga, investigá-las, reclassificá-las e apresentá-las pela primeira vez”. Uma hora antes da abertura de Arqueologia, realizou-se também a inauguração da exposição do Museu de Etnografia.

As duas raras coleiras de escravos expostas no Museu Nacional de Arqueologia

As duas raras coleiras de escravos expostas no Museu Nacional de Arqueologia

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As peças, muito raras, repousaram em sossego durante cerca de 60 anos, embrulhadas em papel higiénico, num envelope de papel, nas instalações o Museu de Arqueologia (MNA), nos Jerónimos — excetuando um ligeiro abanão no caixote onde se encontravam, no final da década de 1980, e outro já este século, em tempos de arrumações. Ninguém sabia delas até o Expresso tocar no assunto com uma investigação publicada no passado dia 4 de março, na qual se referia irem ser expostos dois desenhos feitos no princípio do século XX, em substituição dos objetos desaparecidos.

O Expresso, além de ter questionado “meio mundo” sobre o assunto, contou a história das coleiras — uma, com a certeza de que pertencia ao museu devido à inscrição no inventário, a que tinha a inscrição “Este preto pertence a Agostinho de Lafetá do Carvalhal de Óbidos”, da outra só se sabia o que estava gravado no latão: “Este escravo pertence a Luiz Cardozo de Mello morador em Benavente”.

Agora, qualquer pessoa as pode ver numa vitrina do MNA e confrontar-se com aquilo de que o ser humano é capaz de fazer ao seu semelhante. E quando o turista entrar no museu de arqueologia com o livro de José Saramago, “Viagem a Portugal”, em punho, o que acontecia com frequência, em especial com viajantes italianos, e perguntar onde se encontra a coleira que o escritor afirma ter visto no museu, a resposta já não será que a peça não existe, que nunca ninguém a terá visto, que há uns sessenta anos que ninguém sabe dela…

E terá um brinde: o prémio Nobel só falava de uma, da do Carvalhal, e foram reencontradas duas, passando a permitir o plural às palavras do escritor: “Esta coleira é mesmo uma coleira, repare-se bem, andou no pescoço dum homem, chupou-lhe o suor, e talvez algum sangue, de chibata que devia ir ao lombo e errou o caminho”.

A inauguração, como fez notar o diretor do museu, António Carvalho, marcou também o 101.º aniversário do MNA, uma iniciativa do médico e arqueólogo José Leite de Vasconcelos que começou a ocupar uma ala do Mosteiro dos Jerónimos, em Belém, no dia 22 de abril

de 1916. Presente no ato, embora numa passagem relâmpago a caminho do Porto, esteve o ministro da Cultura que não perdeu a oportunidade de fotografar as coleiras e os desenhos, que Francisco Valença delas fez no início do século passado, com o seu telemóvel.

“O passado não existe lá atrás. De cada vez que o nomeamos ou evocamos a partir das ‘coisas antigas’, ele torna-se presente e atua no presente, pois, caso contrário, seria apenas esquecimento. E ao atuar conserva e modifica”, como diz António Pinto Ribeiro, coordenador-geral da programação da “Lisboa 2017 — Capital ibero-americana de cultura”.