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Barricas para lá e para cá

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Mudam os estilos e as decisões também

A relação da madeira com o vinho é muito antiga. Mesmo nos pequenos produtores que fazem vinho para consumo próprio a madeira sempre teve o seu papel como depósito de conservação dos vinhos e, muito frequentemente, de recipiente para a própria fermentação. A história do vinho refere-se muito mais à barrica usada ano após ano, quando não de geração em geração, do que à barrica nova, coisa moderna que tem 40 anos. Na primeira Vinexpo a que fui — Bordéus (1993) —, na visita que fiz ao château Lafite, comprei um postal de recuerdo que mostrava a cave das barricas. Muitas eram, centenas seguramente, mas novas nenhuma à vista. Era o que se usava na altura.

Uma foto recente da cave do Château Pavie (Bordéus, Saint-Emilion) mostra o quanto o mundo mudou e que hoje as barricas novas ganharam uma enorme preponderância, impecavelmente limpas, verdadeiras obras de arte. Já passou também o tempo em que se usavam muitas barricas novas na fermentação dos brancos, que ficavam, dizemos agora, verdadeiros destilados de carvalho. Esses brancos com muita madeira e tintos a cheirar apenas a carvalho são coisas do passado.

Chegamos agora a um patamar de utilização mais sóbria da madeira ou, como no caso do tinto que esta semana sugiro, sem qualquer madeira. Não a usar é agora uma mais-valia, há 10 ou 15 anos seria sinal de falta de nível, pobreza enológica ou parcos recursos do lavrador. No caso dos brancos, e também seguindo aqui o exemplo do vinho que escolhi, vários produtores optam agora por fermentar ou estagiar os vinhos (na totalidade ou em parte) na madeira mas muita dela de segunda, terceira e quarta utilização. Daqui resulta um outro tipo de vinho que ganhou complexidade com a madeira sem necessariamente ficar a cheirar a pão torrado. E quanto à tosta da madeira também há novidades que já cá chegaram há uns anos: o uso de barricas novas não tostadas, contrariando o método que sempre foi usado no seu fabrico. Era com uma fogueira no interior que se conseguia vergar as aduelas para fazer a forma da barrica e fazer com que os vinhos não ganhassem os taninos mais rudes da madeira.

Hoje conseguem-se barricas sem tosta, que já não transmitem adstringência aos vinhos e conferem boas características sem se sentir a madeira. Conquistas da técnica. São cada vez mais os produtores que escolhem as barricas usadas em vez de novas para fermentar os brancos; conseguem, dizem, vinhos que expressam melhor o local, as castas e o solo de onde vêm as uvas em vez de serem puras expressões de técnicas modernistas que equalizam todos os vinhos. A floresta agradece; abatem-se menos carvalhos e dá-se mais uso à barrica (que nova pode custar €800 mas que ao fim de 4 utilizações não vale mais de €50) e o consumidor finalmente prova vinhos que expressam algo mais do que aromas tostados. E a proliferação dos vinhos Unoaked também nos diz que, muitas vezes, a madeira nada de novo lhes traz.

1 - Quinta dos Carvalhais branco 2015

Região: Dão
Produtor: Sogrape Vinhos
Enologia: Beatriz Cabral 
de Almeida
Castas: Encruzado e Gouveio
Preço: €6,25

O rótulo lê-se mal 
e o contrarrótulo só com lupa. Coisas do design...
Dica: Um vinho muito polivalente, sempre muito afinado. Peixes de ligeira confeção irão muito bem

2 - Assobio branco 2016

Região: Douro
Produtor: Quinta dos Murças
Enologia: David Baverstock/José Luís Moreira da Silva
Castas: Lote de cinco castas tradicionais da região
Preço: €6,45

A quinta fica entre a Régua 
e o Pinhão e pertence ao Esporão
Dica: Um branco com corpo 
e alma, muito interessante

3 - Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo Unoaked tinto 2015

Região: Douro
Produtor: Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo
Enologia: Carlos Alves/Sónia Pereira
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinto Cão
Preço: €10,20

A quinta fica na margem norte 
do Douro, entre a Régua e o Pinhão
Dica: A ausência da madeira acentua o lado fresco da fruta. Muito guloso