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Movimentos antivacinas: entre a desconfiança e a cruzada

Joe Raedle/ Getty Images

À conta dos movimentos antivacina, várias doenças, incluindo algumas que se consideravam extintas na maioria dos países, estão a ter uma segunda oportunidade

Luís M. Faria

Jornalista

A desconfiança em relação às vacinas é muito antiga – tão antiga como as vacinas propriamente ditas. No século XVIII, quando o britânico Edward Jenner descobriu esse instrumento essencial da medicina preventiva, houve logo padres a dizer que eram uma ofensa à vontade divina. Argumento retomado hoje por líderes religiosos em África e na Ásia, a par com a ideia de que as vacinas são uma conspiração do Ocidente contra os muçulmanos. Isso tem levado ao reaparecimento de doenças que se julgavam controladas ou extintas, como aliás também acontece, a uma escala inferior, nalguns países da Europa e nos EUA.

No Reino Unido, em 1999, o médico Andrew Wakefield publicou um famoso estudo a dizer que havia uma ligação entre a chamada vacina tríplice (sarampo, rubéola, papeira) e o autismo. O estudo baseava-se em doze casos, e como as histórias concretas têm sempre mais força, depressa o alarme se espalhou. Um jornalista foi investigar o assunto e rapidamente descobriu que pessoas envolvidas nalgumas das situações citadas diziam coisas diferentes daquilo que o estudo alegava. Apesar disso, levou doze anos até o estudo ser formalmente desmentido pelas autoridades e Wakefield ser impedido de exercer medicina. O ex-médico foi viver para os EUA, onde o efeito pernicioso das suas teorias já se havia começado a espalhar.

A alegada relação entre as vacinas e o autismo, ao que tudo indica, nasce de uma perceção que muitas vezes é genuína. Há, de facto, crianças que começam a ter sinais de autismo pouco tempo após serem vacinadas. Mas é uma coincidência. Acontece que os primeiros sintomas de autismo surgem com frequência em fases que são aquelas em que as crianças recebem vacinas. Desesperados para compreenderem algo que os aterroriza e confunde, os pais procuram uma explicação, qualquer que seja. A das vacinas acaba por ser uma das mais convenientes, até pela suspeita crescente em relação às manipulações da indústria farmacêutica.

Menos respeito pela autoridade dos médicos

O facto de as vacinas hoje em dia serem recomendadas para uma grande quantidade de doenças – em Portugal, são cerca de uma dúzia – contribui para reforçar a impressão de um certo exagero na matéria, talvez por motivos de lucro. Em consequência, há pais que acabam por se negligenciar.

A proliferação das notícias falsas, sobretudo através da internet, também produz aqui o seu efeito. As pessoas procuram as suas próprias respostas, e aquilo que é científico nem sempre é o que acham mais fiável. O declínio do respeito tradicional pela autoridade não podia deixar de abranger a medicina, e a atitude arrogante de muitos profissionais não ajuda. As pessoas atualmente exigem ser ouvidas, e gostam que as suas opiniões, ou pelo menos as suas histórias, sejam plenamente tidas em conta. Uma exigência nem sempre compatível com a estrita gestão de tempo que os profissionais de saúde têm de fazer no seu dia a dia.

Neste momento já existem dados suficientemente claros para permitir falar de danos concretos causados pelo movimento antivacinas. Várias doenças, avisam os especialistas, estão a ter uma “segunda oportunidade”. O sarampo, que chegou a fazer 2.6 milhões de vítimas por ano antes de a vacinação o ter feito cair drasticamente – em 2015 as mortes foram 134 mil –, viu os seus números voltar a subir em anos recentes. A poliomielite, a varíola, a tosse convulsa, a difteria, a meningite e o tétano são outras doenças potenciadas. Num país como a Nigéria, e em especial no seu norte, de maioria muçulmana, clérigos dizem abertamente que as vacinas são uma arma do Ocidente para esterilizar ou infetar com HIV os homens (não por acaso, as taxas de sarampo nessa parte do país são muito superiores às do sul, de maioria cristã).

A Nigéria, o Paquistão e o Afeganistão são os únicos países onde a poliomielite ainda é endémica, sobretudo devido aos ataques de que são alvo as campanhas de vacinação, e às vezes os próprios trabalhadores. A desconfiança em relação a eles aumentou bastante desde que a CIA usou esse disfarce para tentar penetrar no esconderijo de Bin Laden em Abbottabad.

O populismo antivacinas

Noutros países, ouvem-se argumentos de outro género. Um naturopata indiano, Jacob Vadakkanchery, tem levado a cabo uma campanha pública contra as vacinas, garantindo, entre outras coisas, que elas contêm elementos cancerígenos. Mais uma vez, a campanha é especialmente forte junto das comunidades muçulmanas, tendo já provocado mortes. Entre elas, uma por difteria, de um adolescente que estudava numa escola árabe.

Difteria foi também o que vitimou um menino espanhol em 2015, no primeiro caso dessa doença ocorrido em 28 anos. Já em Itália, verificaram-se mais de mil casos de sarampo só nos primeiros três meses de 2017. O movimento antivacinas tem especial força nesse país, em parte graças aos esforços do comediante Beppe Grillo, que anda a falar do assunto há anos. Grillo, entretanto convertido em político populista, lidera o Movimento Cinco Estrelas, um elemento importante na cena política italiana.

Outro populista, o Presidente Donald Trump, parece partilhar as mesmas reservas, pelo menos no que respeita à vacina tríplice. No meio de toda a desinformação, não admira que o cidadão comum comece a ter dúvidas. Em França (o pais mais cético, a avaliar pelos 40% de pessoas que julgam inseguras as vacinas) já houve quem fosse a tribunal por recusar vacinar os filhos. E em Alberta, no Canadá, um jovem casal foi considerado culpado de não ter salvaguardado a vida do seu filho, vítima de meningite aos 19 meses. O bebé estava doente há semanas e eles procuravam tratá-lo com alho, cebola e outros vegetais.

Só quando parou de respirar é que chamaram uma ambulância, mas aí era tarde. Um amigo tinha-os avisado que devia ser meningite, mas eles foram à internet e decidiram que não era a versão mais grave da doença. A criança nasceu em casa e nunca viu um médico. O tribunal condenou os pais – ele a quatro meses de cadeia, ela a três de prisão domiciliária – mas os dois recorreram e uma decisão não deve tardar muito. A acusação também recorreu, pedindo o aumento das penas. O casal tem outros três filhos. O tribunal ordenou que fossem ao médico pelo menos uma vez por ano.