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Augusto Santos Silva: “Temos de usar os nossos recursos científicos na diplomacia e na política externa”

JOÃO RELVAS/LUSA

O ministro dos Negócios Estrangeiros sublinhou a importância da cooperação internacional no avanço da ciência, na conferência que esta sexta-feira decorre na Praia da Vitória, nos Açores (ilha Terceira), sobre a criação no arquipélago do AIR Center –Centro de Investigação do Atlântico no arquipélago. O evento junta 260 representantes de governos, universidades e empresas de 29 países

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Portugal "tem uma posição privilegiada na interação entre o Atlântico Norte e o Atlântico Sul e, nesse contexto, os Açores têm uma localização estratégica para criação de uma rede de investigação para o espaço, os oceanos, o clima e a energia", afirmou esta sexta-feira Augusto Santos Silva nos Açores.

O ministro dos Negócios Estrangeiros falava na conferência sobre a criação do AIR Center – Centro Internacional de Investigação do Atlântico nos Açores, que está a decorre na Praia da Vitória, na ilha Terceira. Santos Silva definiu três objetivos fundamentais para Portugal: "Usar sistematicamente os nossos recursos científicos e tecnológicos na diplomacia e na política externa, tirar partido da localização estratégica dos Açores e da centralidade do Atlântico, e valorizar as relações bilaterais com a ciência e a tecnologia".

AIR Center: "Um projeto baseado no diálogo entre governos, academia e indústria"

Augusto Santos Silva destacou também a metodologia que está a ser usada no processo de debate e de criação do AIR Center, "porque é um projeto baseado no diálogo entre governos, a academia e a indústria", por ser uma iniciativa "bottom up", isto é, que está a ser desenvolvida de baixo para cima, e devido à sua lógica descentralizada, em rede.

"Há quatro razões para o AIR Center ser importante", salientou o ministro: "A sua articulação com os objetivos do desenvolvimento sustentável das Nações Unidas, a construção de infraestruturas científicas comuns a vários países, a cooperação entre o Norte e o Sul do Atlântico, e a atração de muitos players importantes para além desta região, como a Índia e a China".

Integrar a investigação do espaço, clima, energia, oceanos e ciência de dados através da cooperação entre os países do norte e do sul do Atlântico, é a aposta inovadora a nível mundial do AIR Center. Mas ficou claro nos debates realizados na conferência entre governantes, cientistas e empresários que o grande motor do centro internacional de investigação vai ser a atividade espacial, da qual dependem todas as outras áreas.

Arranque do AIR Center no final de 2018

A instalação inicial do AIR Center – Centro Internacional de Investigação para o Atlântico, com sede nos Açores, deverá estar concluída no final de 2018 e a ratificação da sua forma jurídica por todos os parceiros do projeto no início de 2018, segundo uma das conclusões aprovadas na conferência da Praia da Vitória.

Foi também criado um grupo de trabalho de alto nível composto por 14 representantes de governos, indústria, organizações académicas e de investigação que vão preparar um plano financeiro e executivo para a instalação do AIR Center. Este plano deverá estar pronto no final de 2017.

O grupo é liderado por Paulo Ferrão, presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), tal como a comissão de cinco peritos que terá de concluir até setembro de 2017 o Livro Branco intitulado "Uma Agenda de Ciência e Tecnologia para uma abordagem integrada da investigação nas regiões do Atlântico através da Cooperação Norte-Sul", que servirá de base a todo o projeto. Pertencem à comissão de cinco peritos representantes da Espanha, Brasil, EUA, África do Sul e Portugal.

Entretanto, um estudo encomendado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior à empresa Airbus Safran Launchers, recomenda a construção de uma base espacial low cost para o lançamento de pequenos satélites na ilha de Santa Maria.

Vasco Cordeiro: reparar os maus resultados da Cimeira das Lajes de 2003

O Presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro, chamou a atenção "para o simbolismo da conferência, que é uma verdadeira cimeira da ciência e um compromisso para melhor o nosso futuro", e uma espécie de "reparação de uma outra cimeira realizada há anos que deu maus resultados".

Vasco Cordeiro referia-se à Cimeira das Lajes realizada em 2003, onde George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso decidiram a invasão militar do Iraque para supostamente eliminar armas de destruição maciça escondidas pelo regime de Sadam Hussein.

O governante deixou ainda três ideias que devem marcar o projeto do AIR Center: "Ambição na cooperação internacional baseada na ciência e no conhecimento e ambição de os Açores serem uma âncora para o estudo do espaço, dos oceanos e da Terra; compromisso político e na mobilização de recursos para a próxima fase do projeto (a sua concretização); e responsabilidade".

[Texto atualizado às 17h18]