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Já é possível prever quando vamos sonhar

Imagens de ressonância magnética: a deteção de alterações na atividade elétrica dos cérebros de 46 voluntários deu pistas aos cientistas sobre o que estes voluntários estavam a sonhar

Foto Simon Frazer/SPL/Getty Image

Cientistas descobrem as zonas do cérebro ligadas aos sonhos e verificam que o cérebro a sonhar e o cérebro acordado são mais parecidos do que imaginávamos, porque as mesmas regiões cerebrais são ativadas nas duas situações

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Uma equipa internacional de cientistas conseguiu identificar as regiões do nosso cérebro que estão envolvidas nos sonhos, o que poderá trazer avanços significativos na compreensão do objetivo dos sonhos e da própria consciência, bem como pistas sobre o que estamos a sonhar. A descoberta foi publicada num artigo da revista “Nature Neuroscience” (Grupo Nature).

Há muitos enigmas à volta dos sonhos. Por exemplo, “tradicionalmente os cientistas pensavam que a maior parte dos sonhos ocorria na fase do nosso sono conhecida por REM” (“Rapid Eye Movement” ou Movimento Rápido dos Olhos), salienta o artigo da “Nature Neuroscience” . Durante esta fase, os olhos movem-se rapidamente, a atividade muscular é muito reduzida mas, em contrapartida, a atividade do cérebro é parecida com a que acontece quando estamos acordados, isto é, “há uma atividade de alta frequência eletroencefalográfica”.

No entanto, os investigadores descobriram que os sonhos também emergem quando não estamos na fase de sono REM, ou seja, “quando a atividade do nosso cérebro é caracterizada por baixa frequência” eletroencefalográfica. Como afirmou ao jornal britânico “The Guardian” uma das cientistas envolvidas na investigação, Francesca Siclari, “parece um mistério podermos sonhar ou não sonhar nas duas fases do sono”. No fundo, acaba por ser um desafio ao conhecimento que os investigadores têm sobre as correlações neuronais das experiências conscientes quando estamos a dormir.

Desvendar um mistério

Este mistério poderá agora ser desvendado com a nova descoberta. A equipa de investigadores das universidades de Wisconsin-Madison (EUA), Pisa (Itália), Lausana (Suíça) e dos Hospitais Universitários de Genebra (Suiça), fez uma série de experiências em 46 voluntários, tendo colocado 256 elétrodos na cabeça de cada um deles de modo a observar a sua atividade durante o sono através de eletroencefalogramas. Esta técnica não invasiva permitiu monitorizar e registar o número e a intensidade das ondas elétricas de diferentes velocidades dos cérebros dos voluntários.

Através das eletroencefalografias de alta densidade usadas, foi identificada a presença e a ausência de sonhos tanto nas fases do sono REM como nas fases não-REM em cada voluntário. E em ambas as situações, a ocorrência de sonhos estava associada à diminuição da atividade de baixa frequência nas regiões posteriores do córtex cerebral (a camada mais externa do cérebro).

Mas a investigação foi mais longe, porque concluiu que a atividade de alta frequência nestas regiões do cérebro estava correlacionada com determinado tipo de sonhos. E monitorizando as mesmas regiões em tempo real, era possível prever quando um voluntário ia relatar um sonho ou a ausência de sonhos durante a fase de sono não-REM.

Durante a noite, os 46 voluntários eram acordados várias vezes, para relatarem quando estiveram a sonhar - e ao longo de toda a experiência foram acordados 1000 vezes. Se tivessem sonhado, os cientistas perguntavam quanto tempo teria durado o sonho e se os voluntários se lembravam dele, incluindo pormenoress como o sonho incluir rostos, movimentos, pensamentos ou experiências sensoriais.

Reconhecimento facial

No caso dos rostos, os investigadores descobriram que os sonhos estavam ligados ao aumento da atividade elétrica de alta frequência na zona do cérebro relacionada com o reconhecimento facial, e envolviam perceção espacial, movimento e pensamentos ligados às regiões do cérebro que desempenhavam estas tarefas quando os voluntários estavam acordados.

Francesca Siclari, que é investigadora da Universidade de Wisconsin-Madison, concluiu que este facto “é a prova de que sonhar é realmente uma experiência que ocorre quando dormimos, porque até agora muitos investigadores tinham sugerido que é apenas qualquer coisa que inventamos quando estamos a acordar”. Na verdade, “talvez o cérebro a sonhar e o cérebro acordado sejam mais parecidos do que imaginávamos, porque nas duas situações são as mesmas regiões cerebrais que são mobilizadas”.

Por outro lado, para gerarmos experiências conscientes, Francesca Siclari defende que “precisamos apenas de uma ativação do cérebro bastante restrita ou circunscrita”, quando até agora os cientistas pensavam que “era necessário ativar largas regiões do cérebro para gerar essas experiências conscientes”.