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Isabel do Carmo: “Pensei que podia enlouquecer”

A médica endocrinologista Isabel do Carmo foi um dos presos políticos da ditadura colocados na “solitária”, depois de ter sido detida em Oeiras, em 1970. O seu testemunho é o terceiro que estamos a publicar esta semana de oposicionistas enviados para os “curros”, ou “segredo”

Um toque de campainha ao clarear do dia era suspeito. Isabel do Carmo sabia-o. Não se surpreendeu, por isso, quando numa madrugada de 1970 dois pides lhe invadiram a casa. Na altura, a médica ainda tinha um pé no Partido Comunista Português, embora já tivesse feito “um longo relatório” onde abordava a luta armada.

Os pides vasculharam tudo e encheram uns caixotes com o que lhes pareceu suspeito, levando ainda para a Rua António Maria Cardoso, sede da polícia política, a própria Isabel do Carmo, que dali seguiu, depois de alguns interrogatórios entremeados por insultos machistas, para uma cela de isolamento em Caxias: “Tinha uma janela que dava para o muro. Apenas via os sapatos dos guardas de ronda que passavam em cima do muro.”

António Pedro Ferreira

A médica ficou, a partir daquele momento, entregue a si própria. “O isolamento é uma coisa muito má para o ser humano. A perda da liberdade é uma brutalidade.”

Para passar o tempo, Isabel do Carmo começou a fazer ginástica e dedicou-se ao exercício mental de projetar outras formas de derrubar o regime. Com o tempo, porém, tudo se esgotou: “No isolamento, fica–se sozinho com os seus pensamentos e sobretudo com as suas emoções. É preciso resistir até a nós mesmos...”

Na cela em Caxias, chegou a pensar que ia enlouquecer: “tive a triste ideia de fazer café com saquetas que lá tinha e água quente do chuveiro.” A cafeína fê-la ficar ansiosa, e daí a sentir algo parecido com um ataque de pânico foi um pequeno passo. “Nas organizações clandestinas falava-se pouco do medo. Ninguém perguntava: ‘tu tens medo?’ A questão do medo era omissa. Acho que teria sido preferível as pessoas falarem do medo. Sobretudo os mais experientes dizerem ‘isto dá medo’, para que a pessoa se habituasse a lidar com o medo, a ter medo antecipadamente.”

António Pedro Ferreira

Noutra ala da prisão estava a jornalista Diana Andringa, mas Isabel do Carmo só o soube depois: “É curioso, estivemos as duas ao mesmo tempo no mesmo sítio... De vez em quando falamos nisso.” E ainda que assim seja, que Isabel do Carmo por vezes recorde o tempo em que combatia a ditadura, não deixa de sentir algum desconforto quando volta a falar desses tempos: “Parece que é de uma outra encarnação, que é uma história que pertence a outra vida, e que às pessoas mais novas já pode cheirar a coisa corriqueira.”

Quando saiu de Caxias, Isabel do Carmo foi consultar um médico amigo, para saber se de facto poderia enlouquecer. Ele garantiu-lhe que não era o caso dela, mas recomendou-lhe que tentasse não ir parar de novo à prisão. O que de facto não veio a acontecer. Isabel do Carmo voltou a ser presa várias vezes.

Já depois do 25 de Abril acabou por ser presa, com a filha, de oito meses. Um toque de campainha que mais uma vez não a surpreendeu. Detida pela sua atividade no grupo de extrema-esquerda Partido Revolucionário do Proletariado-Brigadas Revolucionárias (PRP-BR), de que foi fundadora, Isabel do Carmo passou nove meses na solitária, embora tivesse acesso a livros. Acabaria por ser absolvida.

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    Dos métodos que a polícia política da ditadura usava para vergar os presos (espancamentos, privação do sono, etc.), o isolamento foi uma arma sofisticada. A colocação na “solitária”, por vezes durante muitas semanas, pretendia quebrar o preso político entregando-o a si próprio, obrigando-o a uma luta com os seus pensamentos, as suas capacidades de autodomínio, os medos inconfessados. Iniciamos uma série de testemunhos de cinco personalidades que passaram pelas cadeias da PIDE e que estiveram confinados à solitária, o chamado ‘curro’, ou ‘segredo’. O primeiro é de Maria José Morgado, magistrada do Ministério Público, detida aos 19 anos, num dia “cheio de sol” de outubro de 1973

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    O isolamento foi uma arma sofisticada usada pela ditadura, um método de tortura a que a PIDE recorria como complemento da privação de sono, dos espancamentos e das humilhações. O poeta e político Manuel Alegre, detido em Luanda, em abril de 1963, foi um dos presos políticos que foi colocado na “solitária”. É o segundo dos testemunhos que estamos a publicar esta semana de oposicionistas enviados para os chamados “curros”, ou “segredo”