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Os maiores do Youtuga

São na sua maioria jovens, chegam a estar mais de doze horas por dia agarrados ao computador e são os novos melhores amigos das marcas. Já há muitos que vivem do que colocam no Youtube

Sónia Santos Costa

Se alguém lhe perguntar o que faz na vida e a sua resposta for “sou youtuber”, o mais certo é que o olhem com desconfiança e lhe atirem: “E durante o dia?” Se reservas ainda existem de que esta é uma profissão (talvez pela estranheza dos horários e pelo trabalho ao domicílio) saiba-se que é o ganha-pão de uma pequena comunidade em Portugal. E será justo comparar esta ocupação a um qualquer outro hobby, como xadrez ou aulas de yoga? É que, em alguns casos, as receitas chegam e sobram para pagar as contas ao final do mês...

Youtube. Quando surgiu era uma incógnita - assim como o eram o Snapchat, a Bimby, o cinema, o daguerreótipo e o fogo. Corria 2005, ano em que o rapper norte-americano 50 Cent nos presenteou com o hit Candy Shop, quando três rapazes decidiram criar aquela plataforma - que haveria de ser comprada pela Google em 2006. Hoje, aloja cada vez mais inquilinos e é o terceiro website mais acedido do mundo - apenas ultrapassado pelo gigante Facebook e pelo sabichão Google.

Escrever sobre o Youtube e não referir PewDiePie é o mesmo que escrever sobre futebol e não referir o Ronaldo. Este sueco filma-se a jogar videojogos - é um gamer, entenda-se - e com isso ganha cerca de 15 milhões de euros anuais, segundo estudos da revista Forbes. Tem cerca de 55 milhões de seguidores (o que equivale a mais do dobro da população australiana) e 15 mil milhões de visualizações totais nos seus vídeos (leram bem, duas vezes o número de terráqueos).

Em Portugal, os números não são tão exorbitantes. O nosso mercado é mais pequeno e as receitas por visualização não são tão altas, mas a rede social não deixa de ser um palco cobiçado para muitos que querem partilhar a sua visão com o mundo. SirKazzio, Fer0m0nas, D4rkFrame e Wuant são os “ big bosses” - já passaram a marca de um milhão de seguidores e receberam uma placa prateada do Youtube.

Moda, gaming, música, mobília da casa e new kids in town

Tempo de apresentações. Os dez youtubers com mais seguidores em Portugal, de acordo com o SocialBlade - um website que permite monitorizar estatísticas e medir o crescimento de perfis nas redes sociais, como o Youtube e o Instagram - são encabeçados por SirKazzio (ver top ten na caixa)

Embora a lista seja dominada por gamers do sexo masculino, desengane-se quem ficou a pensar que estes representam a maior franquia da comunidade portuguesa na rede social e que são os únicos a atrair seguidores. Muitos outros jovens têm dominado as visualizações e alcançado o estatuto de estrelas. Exemplo disso são as meninas da Moda e Beleza - Inês Mocho, SofiaBBeauty, as Corbyssimas, Inês Rochinha, A Rapariga dos Saltos, Miss Tangerine -, que conseguem parcerias com marcas de maquilhagem e produtos estéticos que lhes enchem a agenda de eventos, presenças e viagens.

Mas nem tudo são compras e favoritos do mês. O Youtube consegue ser um grande palco de stand up comedy. Peperan, Nurb, Môce dum Cabreste, Diogo Sena, Conguito, Mr Pakistan, Ovelha Nigga, Miguel Luz, Fhorsaken (Sake). No humor, são eles - e alguns outros, que a lista seria muito longa - os reis.

Até aqui, falámos de youtubers bem instalados na plataforma, com uma influência considerável. E os novatos, onde se situam no meio deste panorama? Se antes era fácil tornar-se alguém neste website - quando tudo era novidade - , os tempos agora são outros. Não basta ter jeito, uma câmara boa e saber editar, embora estas já sejam condições de partida ambiciosas. Num mercado saturado, é preciso marcar a diferença, sobressair de alguma forma.

Diogo Sena, autor da paródia “Sporting That I Used To Know” e colecionador de 146 059 subscritores, deixa aos recém-chegados alguns conselhos. “Para se ter sucesso no YouTube é preciso ser inovador mas, acima de tudo, criar conteúdo de qualidade. Começar neste momento é extremamente difícil e ganhar público só com vlogs já não acontece como antes. É preciso um misto de inovação, criatividade, qualidade e distinção dos outros tantos milhões que estão a tentar.” As parcerias entre youtubers também acontecem frequentemente e são uma forma de atrair fãs para ambos os canais participantes.

Não, os fones da marca x não estão ali por acaso

As estrelas do Youtube são hoje mais alvo de idolatria entre os millennials do que as celebridades de cinema, televisão e música. A proximidade e cumplicidade que criam com os seguidores - os vídeos estão disponíveis a qualquer hora nos smartphones e podem ser vistos em qualquer lado, desde que haja ligação à internet - faz com que estes se identifiquem com os seus problemas e se interessem pelas suas escolhas (musicais, de roupa, de vida).

Sendo Portugal um mercado mais pequeno, os youtubers nacionais não embolsam assim tanto com as visualizações. Mas são criadores de tendências, e os marketeers têm sabido aproveitar essa influência. Bem-vindos ao mundo dos patrocínios.

O “Correio da Manhã”, diário mais vendido em Portugal, teve uma média de 103 892 exemplares vendidos por dia em 2015. SirKazzio alcançou, em janeiro do mesmo ano, uma média de um milhão de visualizações diárias.

A Maria Vaidosa e a Pipoca Mais Doce, ambas donas de canais de moda e beleza, lançaram as suas próprias linhas de vernizes. Wuant lançou um livro e fez breves participações numa telenovela da SIC. Em 2013, uma marca de telecomunicações fez uma campanha publicitária com um elenco de luxo: Nurb, Kiko is Hot, Conguito, Annyiscandy, Diogo Sena, Rita Listing, Peperan, Mr.Pakistan e The Remedy.

Quando ganham ao certo são valores que não partilham. Wuant. por exemplo, apenas refere que os seus pais não acreditavam que fosse receber até surgir em casa o seu primeiro salário - no entanto, não fala de números. Ainda assim, um facto é certo: não restam assim tantos gastos quando nos pagam para almoçarmos em determinados restaurantes, jogarmos um certo jogo, vestirmos o que uma marca nos dá, mobilarmos e decorarmos a nossa casa apadrinhados por uma loja e até alimentarmos os nossos animais de estimação com uma marca específica. Tudo isto desde que depois surjam as valiosas e influentes opiniões nas redes sociais, claro está.

“Dos 20 mais populares, só não representamos o Ronaldo”

A agência Be Influence surgiu no início deste ano de uma parceria entre dois amigos, Miguel Raposo e Pedro Silveira. Formados em Gestão de Figuras Públicas e Gestão de Eventos, uniram conhecimentos e ambições. “Gerimos carreiras. Fazemos um acompanhamento personalizado e tratamos os nossos agenciados de igual forma - seja a Isabel Figueira ou qualquer um dos vários youtubers que representamos”, refere Miguel Raposo. “Dos 20 mais populares, só não representamos o Ronaldo. Trabalhamos com os maiores influenciadores do país, capazes de dar notoriedade a uma marca e potenciar os seus valores.”

Se o mercado mudou, as marcas deparam-se com novos desafios e a publicidade nos meios tradicionais tem cada vez menos alcance. Esta é a tese do responsável da Be Influence, que refere que as marcas internacionais são quem mais tem aproveitado estes influenciadores. “As marcas nacionais ainda não perceberam os lucros que daqui podem retirar. Temos um youtuber, o Nuno Agonia, que é profissional em material tecnológico e faz reviews nos vídeos. Se ele partilha uma coisa, consegue 20 mil compras! Estamos a falar de milhões de views.”

Os negócios não são travados diretamente com os influenciadores - e, se as marcas o tentam fazer, os contactos são imediatamente encaminhados para estes agentes. São eles que tratam das condições. Os seus lucros passam por comissões resultantes dos contratos conseguidos. “Somos agentes normais, como os têm a Cristina Ferreira ou a Rita Pereira. Temos uma equipa digital muito forte e, acima de tudo, respeitamos a personalidade dos nossos agenciados, não queremos que finjam nada. Não fabricamos ninguém! Se há um deles que não gosta de batatas fritas, não o vamos fazer publicitar batatas fritas!”

Miguel Raposo não deixa de frisar o trabalho árduo destes jovens. “Trabalham de 12 a 13 horas por dia, sempre a produzir conteúdo e a ter ideias. Estão sujeitos, muitas vezes, a uma pressão desumana. No Porto, no final do ano passado, o Wuant tinha 3000 miúdos em fila para o verem. Foi uma confusão, meteu violência e tudo. Desde aí, entendemos que a segurança era um fator crucial. Temos seguranças e motoristas que os acompanham e conduzem aos eventos, falamos com as equipas de vigilância presentes nos locais, monitorizamos saídas de emergência”.