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Mário Cordeiro: “O movimento antivacinas é idiota e é uma afronta aos mortos”

josé caria

O pediatra Mário Cordeiro não defende que as vacinas passem a ser obrigatórias por lei, mas considera que os pais que optem por não vacinar os filhos devem ser alvo de censura social. E avisa que o crescimento destes movimentos, associado ao ressurgimento do sarampo, vai provocar mais epidemias de outras doenças até aqui erradicadas

Como surgiu o movimento antivacinas que está na origem do ressurgimento do sarampo um pouco por toda a Europa?
Estes movimentos são o resultado natural de muita confusão entre o que é ciência e o que são factos avulsos, divulgados maldosamente ou de forma acéfala. O pediatra que "afirmou" que o sarampo causava autismo, por exemplo, foi obrigado a retratar-se relativamente ao "seu" estudo que estava mal construído e do qual tirava ilações abusivas. Acabou por se suicidar há escasso tempo por o neto ter tido uma doença grave evitável pela vacinação... Outro fator é a teoria da conspiração que acredita que as multinacionais, como querem ganhar muito dinheiro, inventam doenças para depois venderem vacinas. Sim, a tuberculose, a sífilis, a peste negra ou a lepra, que dizimaram um terço da população europeia, devem ter sido inventadas pelas multinacionais dos índios americanos da Idade Média e do Renascimento, assim como a gripe asiática ou a gripe espanhola do início do século XX. A memória das pessoas é fraca e é pena que não se recordem de todas as crianças que morreram por meningite, tuberculose, tosse convulsa, difteria, ou que ficaram incapacitadas por poliomielite ou meningite... É uma afronta aos mortos e aos que ficaram com lesões permanentes, que se tivessem, na altura, uma vacina, estariam vivos e bem vivos! Esta corrente antivacinas, veiculada nas redes sociais de forma idiota e acrítica, é sinal da arrogância dos países que acham que venceram tudo e que estão acima das doenças. Que se desenganem! A memória é, realmente, curta e mentirosa. Estes "movimentos", que depois interligam as coisas de um modo estapafúrdio e intelectualmente desonesto, como a ecologia e as vacinas, deveriam ser responsabilizados por atentados contra a saúde pública. Mais: quando as pessoas dizem que “as vacinas mexem com a imunidade” esquecem-se que é exatamente isso que se pretende, tal como as “vacinas” naturais que todas as crianças fazem diariamente, ao contactar com microrganismos dos educadores, dos pais, dos avós e dos irmãos.

O que diz aos pais que vão ao seu consultório e que não querem vacinar os filhos?
Tenho de respeitar a vontade dos pais, mas chamo a atenção para o que pode acontecer se não vacinarem. E pergunto-lhes se acham que alguma vez conseguiriam voltar a dormir, caso a criança viesse a morrer de alguma destas doenças.

Assim como está a ressurgir o sarampo, que já estava erradicado em Portugal, há o risco de ressurgirem outras doenças?
Sim. Outras virão. Portugal foi um dos países com mais alta taxa de cobertura das vacinas desde que o professor Arnaldo Sampaio, pai de Jorge Sampaio, iniciou, em 1965, o Plano Nacional de Vacinação (PNV). Os enfermeiros foram, nos anos 60 e 70, os pilares deste programa e assim se evitaram dezenas de milhares de mortos e de incapacitados permanentes. Mas a memória é curta e as mais de 50 crianças que morreram no final da década de 80 ou as que morreram em 1994 no último surto de sarampo ficaram para sempre no esquecimento das mentes para quem só o hoje interessa. O bem que fazem as vacinas não cabe, infelizmente, num Twitter. Mas o que mata são as doenças, não as vacinas. É bom que se diga isto alto e bom som.

Considera que as vacinas do PNV deviam ser obrigatórias por lei ou entende que os pais devem continuar a ter a liberdade de vacinar ou não os seus filhos?
Não devem ser obrigatórias, nem foi preciso isso para que Portugal tivesse uma das mais altas taxas de vacinação do mundo. Quando estava na Direção-Geral da Saúde tive de estudar o assunto e verifiquei que, com isso, não havia ganhos de eficácia, pelo contrário, já que a obrigatoriedade pode gerar uma reação “do contra”, como aconteceu nos países da antiga Cortina de Ferro, onde as pessoas deixaram de vacinar assim que o regime caiu porque associavam as vacinas a uma imposição dos governos. Por outro lado, a obrigatoriedade implicaria que houvesse um apuramento de responsabilidades, que é muito complexo nestas situações. Era preciso saber, em cada caso, quem eram os responsáveis pela criança não estar vacinada: Foram os pais? Foi o patrão que não deixou o seu trabalhador sair para ir com o filho à vacina? Foi o centro de saúde que mandou para trás só porque a criança “estava constipada”? Ou foi porque houve greve de enfermeiros ou o autocarro avariou? E quem faria esse apuramento de responsabilidades?

Por outro lado, teria de haver uma penalização para quem não cumpre. Em França, durante um tempo, quem não vacinasse os filhos perdia o abono de família e concluiu-se que essa medida penalizava os mais fracos, os mais pobres e os menos informados, o que era socialmente injusto. Finalmente, muitos pais (e advogados) poderiam explorar os efeitos secundários das vacinas (dor local, febre, etc) para, como nos EUA, exigir mundos e fundos às ditas multinacionais. Por tudo isso, há cerca de 20 anos o meu parecer na DGS foi que as vacinas não deviam ser obrigatórias, mas que os pais, por verem nelas uma coisa boa, ver-se-iam na "obrigação moral" de vacinar os filhos. Tal e qual como transportar os filhos no automóvel de maneira segura, escovar os dentes, alimentá-los decentemente ou tantas outras situações. Não vacinar é expor o filho a riscos... se acontecer alguma coisa, esses pais devem responder pela sua opção.

De que forma?
Não havendo uma lei, devem ser objeto da chamada “censura social”, que na Escandinávia, por exemplo, fez com que os pais que não transportavam as crianças em cadeiras fossem “olhados de esguelha” por amigos e familiares, que lhes diziam ativamente o que pensavam. Mas cá, em nome da “liberdade individual”, diz-se por detrás das costas o que não se diz pela frente, a não ser de modo hostil e malcriado. Há que desenvolver novamente uma “cultura de vacinação”, tão ágil, forte e disseminada como a “fake culture” da antivacinação. E há que desmontar peça por peça a sua argumentação cientificamente errada.

Se acontecer algo de muito mau, é bom que os pais que não vacinaram os filhos interiorizem que contribuíram para este propagar do incêndio. Porque isto é tal e qual um incêndio: alguém lança uma beata, mas quem deixou os campos com mato, quem dificultou o trabalho dos bombeiros e quem ajudou à festa é moralmente responsável.