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Grande centro de investigação nos Açores cativa Índia e China

O aeroporto internacional das Lajes, nos Açores, é uma das hipóteses para acolher uma base espacial para o lançamento de pequenos satélites. A outra hipótese é a ilha de Santa Maria, no mesmo arquipélago

Tiago Miranda

Vinte e nove países, Comissão Europeia, Agência Espacial Europeia, ONU e oito ministros participam nos Açores na última conferência internacional preparatória do lançamento do AIR Center

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

A Índia e a China estão entre os 29 países que participam a 20 e 21 de abril na Praia da Vitória, na ilha Terceira, na conferência internacional "Atlantic Interactions", o último encontro preparatório para a criação do AIR Center (Centro de Investigação Internacional dos Açores), onde 260 representantes de governos, instituições internacionais, centros de investigação e empresas já confirmaram a sua presença. O centro tem uma agenda inovadora: integrar as áreas do espaço, clima, oceanos, energia e ciência de dados através da cooperação entre os países do norte e do sul do Atlântico.

O AIR Center poderá incluir uma base espacial de lançamentos low cost, estações de rastreio de satélites, observatórios no mar profundo e no oceano aberto, um laboratório de medição de 40 gases de estufa, um centro de demonstração de automóveis elétricos, projetos de energia renovável e incubadoras de empresas, numa estrutura de funcionamento em rede com os países participantes.

Mas o interesse pelo AIR Center alargou-se para fora do Atlântico, com a Índia a enviar à conferência dos Açores uma delegação de alto nível chefiada pelo ministro de Estado da Ciência, Tecnologia e Ciências da Terra, Yalamanchili Chowdary, e que inclui o diretor da agência espacial indiana (ISRO). E a China a participar com representantes da Academia Chinesa das Ciências, mais concretamente do Centro de Engenharia para Microsatéllites de Xangai.

"A ideia do AIR Center tem sido muito bem acolhida em todo o mundo e as participações confirmadas no encontro internacional na ilha Terceira ultrapassaram todas as nossas expectativas", afirmou o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, num encontro com os jornalistas realizado esta terça-feira, em Lisboa, onde também participou o ministro dos Negócios Estrangeiros Augusto Santos Silva. Manuel Heitor revelou que depois da conferência da ilhaTerceira haverá uma reunião dos governantes portugueses com a delegação indiana "para discutir o lançamento de uma plataforma de satélites".

Decisão até ao fim do ano

Nos últimos nove meses realizaram-se 13 reuniões preparatórias do AIR Center em Nova Iorque, Ponta Delgada, Lisboa, Paris, São José dos Campos (Brasil), Bruxelas, Bogotá (Colômbia), Brasília, Cambridge e Austin (EUA), Bangalore (Índia), Luanda e Abuja (Nigéria). "Depois do encontro internacional na Terceira, os países e instituições internacionais participantes terão de tomar uma decisão até ao final do ano sobre a criação do AIR Center", explicou Manuel Heitor.

O objetivo deste encontro "é promover o diálogo entre governos, indústria e centros de investigação e destacar a posição de Portugal e dos Açores como dinamizadores de uma agenda científica relevante a nível mundial", acrescentou o ministro.

Augusto Santos Silva, que vai participar com Manuel Heitor no encontro, destacou também as três linhas da estratégia de afirmação internacional de Portugal nesta área: "usar sistematicamente os nossos recursos científicos e tecnológicos na diplomacia e na política externa; tirar partido da nossa capacidade de mediação e da posição previlegiada de Portugal e das suas ilhas na interação entre os países do Atlântico Norte e do Atlântico Sul, criando uma rede de investigação integrada para o espaço, o clima e os oceanos; e valorizar a ciência e tecnologia nas relações bilaterais".

Esta valorização "começou na última década com os EUA, tem-se desenvolvido também com o Brasil, Índia, Cabo Verde e cada vez mais com a China", sublinhou o ministro dos Negócios Estrangeiros. "E os Açores são um elemento fundamental nesta estratégia". Em todo o caso, na conferência internacional na ilha Terceira, a maior delegação a seguir à de Portugal é a dos EUA, onde participam representantes de universidades, empresas e agências financiadoras.

Alargar a cooperação com os EUA

Portugal tem parcerias com três universidades americanas de peso dessa delegação - o MIT, a Universidade do Texas em Austin (UTA) e a Universidade de Carnegie Mellon (CMU). "A UTA acaba de abrir um novo campus inteiramente dedicado ao espaço e é um dos líderes mundiais na supercomputação", assinalou Manuel Heitor, "e na ciência de dados, a CMU é uma das maiores universidades do mundo". O ministro adiantou ainda que "Portugal tem estado a usar estas parcerias para atrair empresas americanas", revelando que o AIR Center "pretende ter uma cooperação forte na área dos dados com a IBM". Por isso, um dos participantes no encontro da Praia da Vitória é Ulisses Mello, diretor do centro de investigação da IBM no Brasil.

"O objetivo de Portugal desde 2005 é não reduzir a cooperação bilateral com os EUA apenas à área da defesa", esclareceu Augusto Santos Silva. "Por isso fizémos as parcerias com as três universidades americanas e as empresas portuguesas começaram a investir fortemente nos EUA, enriquecendo a relação Portugal/EUA muito para além da Base das Lajes".

Recentemente o ministro dos Negócios Estrangeiros reuniu-se em Washington com os membros luso-descendentes da Câmara dos Representantes, "e todos eles, republicanos ou democratas, manifestaram o interesse em alargar a cooperação dos EUA com Portugal a outras áreas que não a defesa".