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Encurralados: “Se uma pessoa está disposta a morrer, resiste a tudo”

Dos métodos que a polícia política da ditadura usava para vergar os presos (espancamentos, privação do sono, etc.), o isolamento foi uma arma sofisticada. A colocação na “solitária”, por vezes durante muitas semanas, pretendia quebrar o preso político entregando-o a si próprio, obrigando-o a uma luta com os seus pensamentos, as suas capacidades de autodomínio, os medos inconfessados. Iniciamos uma série de testemunhos de cinco personalidades que passaram pelas cadeias da PIDE e que estiveram confinados à solitária, o chamado ‘curro’, ou ‘segredo’. O primeiro é de Maria José Morgado, magistrada do Ministério Público, detida aos 19 anos, num dia “cheio de sol” de outubro de 1973

Cristina Margato

Cristina Margato

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Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

fotos

Fotojornalista

Podia ter reparado nos carros estacionados na rua. Mas nem os viu. Ia tão absorta em pensamentos que só percebeu que alguma coisa estava errada ao entrar em casa. A senhoria, que a hospedava num pequeno quarto, perto da Feira da Ladra, desde que Maria José Morgado entrara na clandestinidade, não fumava.

Mas a sala estava cheia de fumo. Não foi preciso esperar muito mais para perceber que havia visitas. Na noite anterior, a então jovem estudante tinha tido uma reunião da célula do partido (PCTP/MRPP) da Cidade Universitária. Os camaradas tinham-lhe encomendado um artigo para publicar num jornal da federação dos estudantes marxistas-leninistas sobre os “neo-revisionistas cães de trela do social fascismo”: “os grupos maoístas que competiam connosco”.

antónio pedro ferreira

Maria José tinha tentado escrever o artigo três vezes. E por três vezes não o tinha conseguido. O artigo nunca ficava a gosto do responsável da célula. “Estava mal escrito. Não estava bem explicado. Nunca era suficientemente disparatado e fanático, como se pretendia.” Naquele noite, em mais uma reunião, disseram-lhe: “Está mal. Rasga. Escreve outra vez.” Maria José seguiu para casa. Eram sete da manhã. “Só pensava: o que é que eu vou fazer à minha vida? Estes tipos não me deixam... Não me aprovam nada... E eu já não consigo escrever nada. Estou tramada com os cães de trela do social fascismo...”

Nessa manhã, a polícia esperava-a. “Eu até podia ter percebido, porque a casa era humilde e não era habitual ter carros à porta. Mas vinha tão obcecada que não reparei...” Dois “gorilas” e um 'crachat' da Pide interromperam-lhe os pensamentos: “A senhora está presa!.” Só pensei: “Que sorte, já não faço o artigo!”

antónio pedro ferreira

“Dessa estava livre.” Não do que veio a seguir. Os dois gorilas pegaram nela e levaram-na num dia do mês de outubro que nunca decorou. “Só sei que era um dia cheio de sol”. Maria José tinha apenas 19 anos, nem a maioridade (aos 21) tinha atingido. Media 1,56 cm e pesava apenas 48 quilos. Quando a porta se fechou foi como dentro dela algo explodisse. Mas não cedeu. Não vacilou. Antes foi tomada por uma estranha adrenalina, ainda que voasse da cadeira, para sua grande irritação, de cada vez que lhe davam uma estalada. Foi torturada, humilhada, sujeita a isolamento, espancada com chicote conhecido pela designação de cavalo marinho. Ficou com a cara num “bolo”, desfeita, ao ponto de não se reconhecer ao espelho. Demorou meses a recuperar, até poder receber a visita da família. Mas ainda assim recusou-se a aceitar uma bisnaga de Hirudoid que o Pide lhe passava pelo postigo. O corpo negro da pancadaria fê-la endurecer.

Hoje, diz que não vive presa ao passado. “Não passo os serões a contar estas histórias”. Até porque esta não foi, segundo explica, a maior luta da sua vida. Outras houve, que até perdeu. Esta venceu-a.