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Terceiro mandato agita maçonaria

Fernando Valadas Lima, Daniel Madeira de Castro e José Adelino Maltês são os candidato

Grande Oriente Lusitano vai eleger novo grão-mestre. Fernando Lima (para já) tem pela frente dois adversários

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Nem sempre aquilo que parece uma vantagem é um benefício, pelo contrário, pode mesmo redundar em prejuízo. Fernando Valadas Lima, grão-mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL), a mais antiga das obediências maçónicas em Portugal, tem por si a experiência de seis anos no cargo, mas essa aparente vantagem transformou-se no seu principal inconveniente, agora que anunciou a candidatura a um terceiro mandato.

Juntamente com Fernando Lima, concorrem às eleições para grão-mestre, marcadas para 3 e 4 de junho, o professor catedrático e politólogo José Adelino Maltês, este mais conhecido no mundo “profano”, e o mais discreto (mas mais antigo na ordem maçónica) Daniel Madeira de Castro, economista reformado. Não se exclui que até dia 23, quando acaba o prazo para a entrega das candidaturas, ainda se possa apresentar mais alguém. Desde setembro que se sabia que Adelino Maltês era candidato, e Daniel Castro desde janeiro.

A prática depois do 25 de Abril ditou que nenhum grão-mestre tivesse cumprido mais do que dois mandatos, independentemente de no passado grandes figuras da maçonaria terem estado mais de uma dezena de anos no cargo, como o advogado Luís Rebordão, que esteve durante 35 anos, durante a ditadura. Não é pois ilegal, nem dogma, mas alguns maçons reclamam que se na República, cujos ideais são inspirados nos da maçonaria, há limitação de mandatos, porque não seguir-lhe o exemplo? Um outro maçom de longa data disse ao Expresso “que nem vê qualquer necessidade de repetir”.

Antes de ser grão-mestre, Lima foi seis anos membro do conselho da ordem (o equivalente ao governo), tendo nomeadamente desempenhado o cargo de grande intendente do património. Tão ampla experiência não é, porém, mal vista por todos, e muito menos pelos seus apoiantes, entre os quais se contam dois ex-grãos-mestres de peso, António Arnaut e António Reis.

Promessas da campanha

O médico e conhecido pai do Serviço Nacional de Saúde, que apoia desde a primeira hora o advogado e ex-presidente do Conselho de Administração da Galilei (herdeira da Sociedade Lusa de Negócios, proprietária do BPN), disse mesmo ao Expresso que o seu apoio decorre do reconhecimento da “extrema probidade, lisura e lealdade de Lima, qualidades que nem todos revelam”.

Fernando Lima diz que o move “a obra que encetou e não acabou”, uma contradição em termos simbólicos, ressalta porém Arnaut, para quem “em maçonaria, metaforicamente, a obra nunca está pronta”. O ainda grão-mestre reserva para depois o enunciado do seu programa, mas vai dizendo que pretende fazer alterações em relação à organização. Os seus adjuntos são António Ventura, historiador da maçonaria, e Carlos Vasconcelos, presidente do grande tribunal.

É exatamente o contrário o que promete José Adelino Maltês: “Manter e respeitar totalmente o modelo orgânico” do GOL. A sua aposta é “uma atitude diferente de comunicação, uma relação clara com o país, para acabar com os mal-entendidos e ideias erradas”. O poder de influência da maçonaria “é muito relativo”, diz. Maltês não pretende “fazer procissões de aventais, mas exigir que os maçons sejam tratados sem um ambiente antimaçónico”. Tanto Lima como Maltês pertencem à Loja Universalis, uma das mais poderosas.

O politólogo, que se candidata pela primeira vez, foi o primeiro a apresentar declaração de rendimentos e património — foi com o fiscalista Saldanha Sanches fundador da Associação Transparência e Integridade. Acusado de querer restaurar a monarquia e introduzir a internacional liberal, numa alusão à sua confissão de “republicanamente monárquico”, considera que tem sido vítima de de uma “campanha negra”. Tem como adjuntos Luís Vaz, historiador da organização radical LUAR, e o antigo capitão de Abril, Manuel Matos.

Daniel Madeira de Castro é um irmão veterano, membro há 40 anos da maçonaria (pertence à Loja Acácia), que se candidata pela segunda vez. Fez carreira na IBM e ocupou cargos dirigentes no Sporting. Como ele próprio diz, dedicou toda a sua vida à Ordem. Muito conhecido internamente, não o é todavia “no mundo profano”, reconhece. É fruto de uma opção deliberada pela discrição.

Afirma que quer fazer diferente e acabar com um “certo clima de crispação interna”. Está fora do mundo do trabalho, da política, do capital e das empresas. Quem o apoia diz por isso que é o candidato ideal para liderar a ordem. Foi secretário-geral de três grão-mestres e presidente da grande dieta (parlamento). Os seus adjuntos são o arquiteto Alberto Lourenço, que assinou o Casino de Lisboa, e o médico portuense Sampaio da Veiga.