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Reitor do santuário de Fátima discorda da apresentação de contas aos fiéis

Fátima, um dos grandes espaços de peregrinação do mundo, terá a visita do Papa Francisco em maio

Luís Barra

Carlos Cabecinhas afirma que Fátima é um fenómeno de fé, assegura que o milagre está provado e espera a canonização de Lúcia, Francisco e Jacinta no dia 13 de maio

O santuário de Fátima não apresenta contas públicas há 11 anos e não tenciona alterar essa situação. “Apresentamos as contas a quem temos de apresentar”, afirma o reitor do santuário em entrevista hoje publicada pelo “Jornal de Notícias”.

Questionado pela jornalista Rosa Ramos sobre as polémicas relacionadas com a contabilidade daquela instituição, Carlos Cabecinhas começa por afirmar que “o santuário apresenta contas todos os anos. A contabilidade é auditada por uma entidade externa e apresentada a quem tem de ser apresentada: ao Conselho Nacional do Santuário de Fátima, que pertence à Conferência Episcopal.”

A explicação para o facto de a partir de 2004 ter sido suspensa a apresentação de resultados é remetida para “a implementação da Concordata”, por existirem “dimensões e aspetos” que, em seu entender, “não estão totalmente esclarecidos e falseiam, de alguma forma, as contas a apresentar”.

Face à insistência da jornalista, que questiona se as contas não deviam ser também mostradas aos fiéis, que deixam os seus contributos em Fátima, o reitor do Santuário é taxativo: “não concordo, porque dá a impressão de que é um dever que nos é imposto, quando não é. É uma opção”.

Depois de ter afirmado já que esta é uma questão de toda a igreja portuguesa, Cabecinhas sustenta que um dever significaria que alguém poderia exigir externamente a apresentação de contas. “E o que eu digo é que não há nenhuma entidade que me possa exigir isso”, afirma.

Para o reitor este não é, sequer, um problema moral ou ético, porque, assegura, “as contas são apresentadas a quem temos de as apresentar”. De resto, acrescenta, nem mesmo quem faz uma oferta terá o direito de exigir a prestação de contas, “porque a oferta é, por definição, algo de que me desfaço e entrego. Deixo de ter direito sobre isso”.

Lúcia e Salazar

Num outro momento da entrevista é abordada a circunstância de Lúcia ter escrito que Salazar foi escolhido por Deus. Carlos Cabecinhas explica que a afirmação tem de ser lida à luz do contexto histórico. “Na altura das aparições, as relações da igreja com o Estado eram penosas. Vivia-se uma república jacobina que perseguia a igreja e, para muitas pessoas, o advento da Segunda República surge, ao nível da fé, como um alívio. Hoje somos extremamente críticos em relação a essa leitura da irmã Lúcia, mas temos de perceber que havia um contexto. E que não é isso que fundamenta a mensagem de Fátima ou condiciona o seu testemunho em relação a ela”.

O reitor do santuário sublinha que “Fátima é, fundamentalmente, uma questão de fé. E é só ao nível da fé que podemos acreditar ou não. Nunca haverá provas”. Até o chamado milagre do sol, relatado no que teria sido a última aparição, “precisa da fé para ser lido, porque, para quem não acredita, é somente um fenómeno para o qual não há uma explicação”.

Por fim, a eventual canonização de Lúcia, Francisco e Jacinta. Como para Carlos Cabecinhas “o milagre está provado”, ainda há tempo para que esse passo seja dado em Fátima no dia 13 de maio. A expectativa não esmorece, mas a decisão, diz, será do Papa Francisco.